O presidente ausente

Chávez se tornou um mito que deixará saudades em muitos; ele precisa de sua ausência para se salvar do próprio fracasso

ALBERTO BARRERA TYSZKA & , CRISTINA MARCANO, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2013 | 02h01

Análise

No dia 10 de janeiro, enquanto jazia num leito de hospital em Havana, Hugo Chávez foi simbolicamente empossado como novo presidente da Venezuela em uma cerimônia em seu país. A multidão que assistiu à sua posse virtual se emocionou até as lágrimas com uma gravação de Chávez cantando o hino nacional. O país se encontra na estranha situação de ter e não ter um líder. Ele não está presente, mas sua voz resiste.

Na unidade de terapia intensiva, o presidente "continua desempenhando suas funções"; "dá ordens e envia beijos às crianças". A oposição exige uma "prova de vida", como se ele tivesse sido vítima de um sequestro. Dia após dia, na rua, no Twitter, nosso presidente morre e retorna à vida. Mas este não é um romance do realismo mágico.

Na presidência há 14 anos, Chávez controla todos os poderes públicos, sem falar na indústria de petróleo. Desde o momento em que venceu sua primeira eleição, soube que não chegara à presidência para fazer um governo consciencioso. Ele viera para mudar o curso da História. Em nome dos despossuídos, reviveu o fantasma do caudilho militar sul-americano, criando uma nova versão daquele ditador tradicional. Ele canta rancheras aos domingos e negocia com o Irã na segunda.

Astutamente, aproveitou do fracasso do neoliberalismo e das elites tradicionais, assim como do clima antipolítico da época, prometendo democratizar os recursos do petróleo do país e eliminar as profundas desigualdades sociais. Mas seu "socialismo do século 21" é um modelo populista, voltado para o patrocínio, que depende menos da ideologia do que do preço do barril de petróleo. Ele conseguiu reviver a ilusão de uma sociedade sustentável que distribui em vez de criar riqueza. E graças a esta ilusão tem podido manter seu punho de ferro sobre o poder.

Hoje, os venezuelanos são menos pobres do que antigamente. Mas também dependem muito mais do Estado e são mais suscetíveis a uma máquina de propaganda que atribui esse "milagre" a Chávez. Na década passada, seu governo investiu cerca de US$ 40 bilhões em gastos sociais.

A liderança de Chávez apresenta um fator que não difere de qualquer outro regime autoritário voltado para a personalidade da América Latina: sua natureza messiânica. Agora, depois de uma convalescença incerta em Cuba, o presidente da Venezuela já se tornou um mito a caminho da consagração. Quando ele se for, muitos se sentirão órfãos. Ele fez de si mesmo o eixo em torno do qual gira a vida do país, e será muito difícil manter sua marca peculiar de autoridade sem sua presença física.

Chávez deixará para trás um país assolado pelos problemas. Com profundas divisões políticas. Com uma violência assustadora: cerca de 21 mil homicídios no ano passado. Com absurdas distorções econômicas que vão desde a inflação provavelmente mais elevada do continente até a gasolina mais barata do planeta. Com uma produtividade em queda, uma moeda supervalorizada e uma enorme dívida externa. Com gastos públicos descontrolados, e ainda um grande sonho que não chegou a se realizar: a ilusão de eliminar para sempre a pobreza. Para tanto, é provável que a ausência seja a única coisa de que Chávez precisa para se salvar de seu fracasso. Os mitos sobrevivem somente quando se elevam acima das misérias da realidade. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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