NILTON FUKUDA/ESTADÃO
NILTON FUKUDA/ESTADÃO

‘O presidente é um populista impulsivo, sem ideologia’

Para o cientista político, Donald Trump provoca mudanças no ideário liberal defendido pelo Partido Republicano

Entrevista com

Tom Palmer, cientista político e dirigente da Atlas Network

José Fucs, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2017 | 05h00

O filósofo e cientista político Tom Palmer, de 60 anos, é um ativista da causa da liberdade em tempo integral. Como vice-presidente da área de programas internacionais da Atlas Network, com sede em Washington, nos Estados Unidos, ele coordena uma rede de 450 "think tanks" independentes, em cerca de 100 países, incluindo no Brasil, cuja missão é disseminar as ideias libertárias pelo mundo.

No início de abril, Palmer falou ao Estado, ao passar pelo Brasil para uma série de palestras sobre o presidente americano, Donald Trump, a convite de várias organizações, entre elas o Instituto Indigo, o centro de estudos e pesquisas ligado ao Partido Social Liberal (PSL)/Livres, agremiação que está envolvida numa transformação ideológica destinada a lhe conferir um perfil libertário. 

Na entrevista, Palmer critica duramente Trump e analisa os seus conflitos com o Partido Republicano. Aborda também a responsabilidade da Rússia na promoção do fascismo no mundo, os males causados pelo capitalismo de compadrio e a difusão do liberalismo no País. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como defensor das ideias do liberalismo, qual é a sua visão sobre o presidente Trump?

Basicamente, ele é um homem sem qualquer ideologia. A maioria das pessoas tem ideias, ele tem um ego. É seu substituto para a falta de ideias ou de princípios. Ele também não tem qualquer princípio. É um populista impulsivo que quer a atenção do público 24 horas por dia. Os EUA são governados cada vez mais por tuítes, enviados às 6 horas da manhã, sem nenhum pensamento, discussão ou consulta, seja em política externa, comércio ou política econômica doméstica. 

Como esse estilo de Trump afeta a política nos EUA? 

Isso torna difícil prever o que ele vai dizer ou propor. Um exemplo claro é a reviravolta de 180 graus, da noite para o dia, em sua posição sobre a intervenção na Síria. Durante meses, ele disse que não tentaria remover o presidente Bashar Assad. Agora, está dizendo que Assad tem de sair. Essa era a posição do ex-presidente Barack Obama, antes criticada por ele. 

Qual a melhor forma de lidar com essas reviravoltas?

Os jornalistas com quem eu falo, que conversam com Trump há anos, dizem que o melhor que pode acontecer é termos pessoas inteligentes na Secretaria de Comércio, no Tesouro e em outras áreas que proponham leis que não sejam tão perigosas quanto as que ele deseja e as chamem de Trump Trade Act ou de Trump Healthcare Act. Ele vai adorar. Se for necessário, eles podem trocar alguns parágrafos, algumas questões insignificantes no texto. Se alimentarmos seu ego, pode ser que seja possível superar a sua ignorância.

Apesar de eleito pelo Partido Republicano, geralmente contrário à adoção de medidas protecionistas, Trump tem defendido a elevação das alíquotas de alguns produtos importados, para proteger a indústria americana. Como o sr. analisa essa questão?

Em todos os países, a política é, ao menos parcialmente, uma questão de tribalismo. Quando o líder muda de opinião, os integrantes do grupo tendem a segui-lo. Nós vimos isso em relação aos tratados comerciais multilaterais, como a Parceria Transpacífico (TPP, em inglês). Se você pegar as pesquisas de opinião de um ano e meio ou dois anos atrás, os republicanos tendiam a favorecê-los e os democratas, a rejeitá-los. Hoje, essa tendência se inverteu. Os fatos não mudaram, mas a opinião do chefe da tribo mudou. Isso vai além dos partidos. 

Como o sr. vê a defesa de Trump do protecionismo?

Defender o protecionismo é pura ignorância sobre o efeito do comércio internacional na economia. Trump fez sua campanha contra o TPP, que tinha vantagens e desvantagens. Meus colegas que leram tudo sobre o TPP dizem que as vantagens superavam em muito as desvantagens. Trump disse que era contra por uma razão: era uma manobra desenhada pela China para enganar os EUA. Há um problema nisso: a China não é parte do TPP. Não desempenha, portanto, nenhum papel nessa negociação. Mas ele nunca mudou o que disse sobre a questão. Continuou contra o TPP. É um débito à ignorância que é quase impossível superar. 

Desde a crise de 2008, o liberalismo perdeu espaço no mundo. Há Trumps pipocando em vários países. Em sua opinião, isso pode se reverter no curto prazo?

Não concordo que seja um fenômeno global. A América Latina não está indo nessa direção. A eleição do presidente da Argentina, Mauricio Macri, foi muito importante, assim como o que aconteceu no Brasil, com o impeachment. Acho que é mais um fenômeno que está ocorrendo nos EUA e na Europa. Lá, há fatores complexos que explicam o que está acontecendo. Houve também a emergência da Rússia como polo global de promoção do fascismo, a partir de 2005. 

De que forma a Rússia estaria desempenhando esse papel?

Eles estão gastando bilhões de dólares para promover o fascismo e o nacional-socialismo na Europa e em outras regiões do planeta. A candidata Marine Le Pen, na França, é um exemplo. Como Trump, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, não tem ideologia, além de poder e dinheiro. É um autocrata e por isso apoiou Trump, outro autocrata. A democracia liberal é sua inimiga pessoal. As campanhas de desinformação, as chamadas “fake news” promovidas pela Rússia, não divulgam mais a velha propaganda comunista, a ideia de que Rússia é melhor. Só dizem que não há liberdade, não há imprensa livre, tudo na mídia são mentiras. É uma forma de minar as instituições, a democracia, a liberdade de expressão.

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