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O presidente, entre o azar e a máfia

PARIS - O presidente francês, François Hollande, é perseguido pelo azar. Enfrentando, há alguns meses, uma série de revezes, marcara o momento para a sua contraofensiva - sua ideia era dar um grande, um terrível golpe, hoje, com uma entrevista coletiva no Eliseu. Seria contundente e ágil, modesto e soberano, brilhante e belicoso; seus inimigos ficariam estarrecidos, pasmos, com sua verve e a França poderia retomar seu caminho, refeita.

Gilles Lapouge, Correspondente - O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2014 | 02h01

Mas ele não contava com a malícia dos céus ou, em todo caso, com a dos paparazzi. Há meses, eles o vinham perseguindo e colecionavam fotos provando que o presidente tinha um affair com uma dama, uma atriz chamada Julie Gayet.

Ora, todo mundo tem o direito de ter um coração, mas o problema é que o de Hollande parecia um tanto intermitente. De fato, embora não seja casado, o presidente tem uma "companheira" (como se costuma dizer) constante o suficiente para merecer o título de "primeira-dama": Valérie Trierweiler, que nunca se afasta dele nas viagens e nas cerimônias - e dispõe de um escritório e de conselheiros no próprio Eliseu. Deveremos então acreditar que, na realidade, ele tem "duas primeiras-damas"? Não é o que acha a "primeira primeira-dama", Valérie. Quando a revista Closer publicou fotos de Hollande de capacete, pilotando uma motocicleta no estilo astro do rock, dirigindo-se a toda para um encontro com a doce Julie, Valérie reagiu imediatamente: teve uma crise de depressão, segundo um comunicado oficial, e foi hospitalizada.

A depressão mudou tudo. Ela sugeria que, contrariamente ao que o Eliseu informa há dias, esse "romance" não tem apenas caráter privado, mas também público. Valérie será sempre a primeira-dama? Manterá seu escritório no Eliseu? Viajará, dentro em breve, com Hollande, em visita de Estado, a Washington? Ao mesmo tempo, pipocam as indiscrições a respeito do jogo secreto que Hollande mantinha há alguns meses. De fato, de tempos em tempos, ele saía do Eliseu para suas escapadas. Não ia muito longe. O apartamento onde Julie morava ficava a dois passos do Eliseu - mas Hollande, afinal, um chefe de Estado, não poderia ir até lá a pé.

Portanto, usava a moto de um dos seus guardas, seguido por um segundo policial. O cerimonial deixava de ser "privado" para se tornar público. Quando nós, seres comuns, saímos à noite para os nossos encontros escusos, não costumamos ser vigiados por dois guardas.

Quanto aos paparazzi, são grandes profissionais. Para tirar suas fotos, alugaram um apartamento em frente ao de Julie, onde podiam trabalhar tranquilamente. Agora, ficamos sabendo que o apartamento de Julie era um verdadeiro antro. Havia sido alugado por outra atriz, amiga de Julie, amante de um tal Masini, membro da máfia, que recentemente foi assassinado numa estrada da Córsega. Maravilhoso! A essa altura, tentamos imaginar como está a cabeça do gentil Hollande, homem honesto e comum, gorducho e pacífico, agora envolvido num enredo que, um século atrás, faria as delícias do teatro de vaudeville, quando Georges Courteline ou Georges Feydeau divertiam as plateias narrando as experiências de casais burgueses, entremeadas de adultérios, mulheres de vida duvidosa, playboys e amantes cobertas de casacos de pele, tiroteios e amantes no armário.

É esse o formidável abacaxi que, há pelo menos dois dias, Hollande tem nas mãos, sem saber direito como se livrar dele. Resta-lhe pouco tempo para limpar o terreno crivado de granadas, minas de fragmentação e bombas extremamente lacrimogêneas. Hoje, ele terá de se apresentar à imprensa mundial - a imprensa que há dois dias se delicia maldosamente com as atribulações do gentil Hollande - para explicar como fará para sanar num único golpe a vacilante economia da França.

Mas não devemos esquecer de que, mesmo nesse temível teste, Hollande tem um ás na manga: é um homem sutil e dono de uma considerável inteligência.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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