O presidente 'manchuriano' da Venezuela

Viagem do líder chavista para Pequim para buscar financiamento mostra que chineses e cubanos dão as cartas em Caracas

JUAN , NAGEL, FOREIGN POLICY, É BLOGUEIRO, UM DOS FUNDADORES DO BLOG CARACAS CHRONICLES , JUAN , NAGEL, FOREIGN POLICY, É BLOGUEIRO, UM DOS FUNDADORES DO BLOG CARACAS CHRONICLES , O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2013 | 02h04

Ultimamente, fala-se muito sobre o domínio da China, especialmente na América Latina, região rica de recursos naturais. Embora a China tenha grande influência em muitos países, raramente ela é tão essencial como no caso da Venezuela, país revolucionário, rico em petróleo e na bancarrota.

Isso ficou evidente na semana passada, quando o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, realizou uma visita de Estado à China, onde assinou uma dezena de acordos. No entanto, o motivo da sua visita foi implorar uma injeção de dinheiro para salvar seu governo em grandes dificuldades. Ninguém sabe ao certo se ele conseguiu.

A Venezuela padece de uma escassez aguda de divisas estrangeiras e, embora o país ainda não esteja em crise no caso da sua balança de pagamentos, existem inúmeros sinais alertando para problemas iminentes. Os importadores reclamam que é impossível ter acesso a dólares oficiais em razão dos controles bizantinos do câmbio implementados pelo governo. Esse problema teve um forte impacto sobre todas as empresas, desde fábricas que não conseguem mais adquirir peças sobressalentes para suas máquinas até jornais que se queixam de falta de papel.

Em tese, a Venezuela não deveria estar nessa situação diante dos preços altos do petróleo. Mas, com o câmbio no mercado paralelo sete vezes mais alto do que o oficial, o incentivo para obter lucro é muito grande. Qualquer pessoa com acesso a dólares oficiais sabe que é lucrativo guardá-los no exterior ou vendê-los no mercado paralelo em vez de usá-los para importar alimentos de primeira necessidade que o país necessita.

Com suas reservas cambiais diminuindo e a demanda por moeda forte crescendo, Maduro foi à China para, basicamente, pedir ajuda financeira.

No entanto, em vez de conseguir dinheiro vivo, ele firmou muitos acordos, principalmente de venda de petróleo, mas envolvendo também empréstimos destinados a projetos de infraestrutura, como um novo porto. A China também conseguiu primazia na exploração de uma promissora mina de ouro em Las Cristinas, no Estado de Bolívar.

Maduro também fechou um acordo de financiamento de US$ 5 bilhões, mas as condições não foram reveladas. Citando fontes no governo, o jornal El Nacional informou que a Venezuela queria receber os US$ 5 bilhões em dinheiro vivo, mas a China recusou.

Os chineses insistiram que o acordo devia ter por base condições similares a outros já em vigor, com base nos quais a China já fornece à Venezuela os fundos que ela precisa aplicar em projetos de infraestrutura que usam tecnologia ou produtos de consumo chineses.

Segundo o jornal, em sua busca por financiamento sem quaisquer condições, as autoridades venezuelanas haviam preparado um discurso para convencer as autoridades chinesas, mas elas nem mesmo quiseram ouvir.

A falta de recursos é crítica para Maduro. Ele precisa de moeda forte para reduzir a escassez do país. Enfrentando uma forte queda nas pesquisas de popularidade e com as eleições para as prefeituras se aproximando (marcadas para 8 de dezembro), a última coisa que o governo deseja é eleitores contrariados fazendo fila durante horas para comprar alguns rolos de papel higiênico.

Não surpreende que Maduro tenha ido à China buscar financiamento. O país é a única fonte de recursos que resta para os chavistas. Os chineses sabem disso e usam sua influência magistralmente. O comércio bilateral entre os dois países chega a US$ 10 bilhões ao ano e a China hoje é a segunda maior parceira comercial da Venezuela.

O país tem um superávit comercial com relação à China em grande parte em razão das exportações de petróleo venezuelano para pagamento de empréstimos passados.

Para a China, os acordos firmados com a Venezuela são uma maneira de estimular sua economia doméstica. Com financiamento chinês, a Venezuela adquire infraestrutura e produtos de consumo chineses.

Em troca, exporta petróleo para a China, de modo que, no fim, os chineses ficam com o dinheiro e o petróleo. O ambiente político em que esses acordos são firmados, sem nenhuma fiscalização, auditoria e ninguém tendo conhecimento dos termos exatos - é um negócio sob medida para Pequim.

Com a China ditando praticamente as condições do financiamento, uma coisa ficou clara na viagem de Maduro: os chineses, juntamente com os cubanos, controlam a Venezuela. Uma surpreendente reviravolta no caso de um governo que se promove como "defensor da pátria". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO Artigo

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