AP Photo/Victor R. Caivano
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Análise: O primeiro ato da campanha de 2019?

Grande dúvida da operação chamada de "Lava Jato argentina" é se ela pode retirar definitivamente Cristina Kirchner do jogo eleitoral e dar espaço para o início de uma nova era no política do país

Carlos de Angelis*, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2018 | 09h43

Oscar Centeno era só o motorista de um funcionário público de alto escalão, Roberto Baratta. Este, por sua vez, era subsecretário de Coordenação e número 2 do ministro do Planejamento Julio De Vido, o homem que comandou a distribuição de obras públicas nos 12 anos de governos kirchneristas.

Centeno tinha um hábito muito particular: anotar absolutamente tudo o que ocorria em seu trabalho, em uma caligrafia apertada. Primeiro escrevia em rascunhos e logo passava o texto para caderninhos.

Foram oito, no total. O que anotava? Três coisas: as rotas que percorria durante o dia (local de partida e chegada), quem transportava no veículo oficial que conduzia e, principalmente, o que levava. Segundo esses cadernos, eram bolsas cheias de dinheiro.

As planilhas de Centeno cobrem o intervalo entre 23 de março de 2005 e 3 de novembro de 2015, com algumas lacunas. A partir desses registros, o juiz federal Claudio Bonadío decidiu ordenar a prisão de importantes ex-funcionários públicos kirchneristas, além de Baratta (que já tinha passado pela prisão) e do motorista. Também há um pedido para que a senadora e ex-presidente Cristina Kirchner deponha.

O mais inusual nesta ação, para os parâmetros argentinos, é a prisão de importantes empresários, uma exigência insistente de parte da sociedade. Um dos pedidos de detenção preocupa em especial o governo, o de Javier Sánchez Caballero. Ele é ex-gerente general de Iecsa, empresa de Ángelo Calcaterra, primo do presidente Mauricio Macri e muito próximo do patriarca, Franco Macri.

A operação causou uma batalha nas redes sociais. Muitos creem que este é o primeiro ato da campanha eleitoral de 2019. A primeira pergunta é se o caso pode retirar definitivamente Cristina do jogo eleitoral ou reduzir seu caudal de votos.

Ela tem aparecido em destaque nas pesquisas numa possível disputa com Macri. Uma vertente de analistas crê que ela já sofreu todo desgaste possível por corrupção e essa eleição será decidida pelo bolso dos argentinos. 

Se o juiz Bonadío avançar realmente até o final na chamada "Lava Jato argentina", pode se transformar em um Mani Pulite. Como o italiano dos anos 90 que arrasou o sistema político e começou um novo reinado, o de Silvio Berlusconi.

* CARLOS DE ANGELIS É SOCIÓLOGO E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE BUENOS AIRES

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