Damon Winter/The New York Times
Damon Winter/The New York Times

Artigo: O primeiro caudilho dos EUA

Populistas surgem em situações de desigualdade e conquistam votos com promessas de mudança radical

Ishaan Tharoor / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2017 | 05h00

Em sua primeira semana na presidência, Donald Trump tem governado por decreto e pelo Twitter, cumprindo promessas de campanha que muitos consideravam muito absurdas ou radicais para serem colocadas em prática. Uma proibição temporária de entrada de muçulmanos deve entrar em vigor e a Casa Branca está buscando financiamento para construir de fato o muro na fronteira com o México. 

Ao mesmo tempo, seu secretário de imprensa está envolvido em uma guerra sobre a verdade com a mídia, intensificando a discussão sobre fatos e afirmações estatísticas comprovadamente falsos.

Se isso não estava claro antes da posse, agora certamente está: a presidência de Trump indica um afastamento radical das normas da política americana. Mas, para observadores que são de outros lugares, o trumpismo é muito familiar. Trump pode querer conter o fluxo de imigrantes e produtos do sul da fronteira, mas importou um estilo político que está enraizado na América Latina: o do demagogo nacionalista.

Analistas latino-americanos disseram no ano passado que seria útil observar Trump pelas lentes do caudilho ou do autocrata. É uma tradição que se estende desde os últimos dias de Simón Bolívar até o atual grupo de líderes como Nicolás Maduro, da Venezuela, ou Rafael Correa do Equador. 

Claro que Trump não é um déspota militar como foi o chileno Augusto Pinochet, nem um autocrata provocador como Hugo Chávez, o populista de esquerda que reformulou a Venezuela à sua imagem. Mas, para aqueles que viveram sob o governo desses líderes, a sensação é que Trump está se espelhando neles. 

Quando Trump e seu porta-voz começaram a divulgar números enormes (e incorretos) da multidão que assistiu a sua posse, a jornalista venezuelana Lisseth Boon imediatamente se lembrou da própria experiência trabalhando sob um regime que constantemente oferecia à população sua versão preparada da realidade.

Antes da eleição, Enrique Krauze, ensaísta mexicano e editor, delineou com malícia os paralelos que via entre Trump e populistas latino-americanos. “Sua extrema arrogância e presunção, seu apelo por uma aceitação irrefletida do suposto poder de sua personalidade, de sua capacidade de manter os EUA protegidos contra os perigos do terrorismo, dos mexicanos, dos chineses, ou seja qual for o subterfúgio que puder usar para provocar o ódio e atrair apoio a suas propostas econômicas irracionais que na realidade só beneficiarão aos muito ricos; nas suas promessas de que, sob seu governo, o país ‘vai ganhar tanto que vocês até se cansarão’.”

Trump afirma que defende o “homem esquecido”, um gesto que faz para a classe operária branca americana que vem definhando nos vilarejos da zona rural do país e nas cidades mineiras. Juan Perón, o nacionalista populista que transformou a Argentina em meados do século 20, dizia ser representante dos “descamisados”.

Os populistas surgem em situações de grande desigualdade social e econômica e conquistam votos com promessas de mudança radical de um sistema injusto implementado contra o homem comum. 

A crença de Trump no discurso duro; sua posição como o grande defensor da classe trabalhadora; seu desprezo pelas elites urbanas e pelo sistema político; e sua projeção de um machismo robusto não ofuscado pelo politicamente correto – são todas características associadas ao caudilhismo.

Como já se verificou em diversas oportunidades na América Latina, tais políticas podem descambar para os conflitos e a desordem. “A América Latina tem uma história na maior parte infeliz de ‘outsiders’ que se tornam presidentes”, escreveu Javier Corrales, professor de ciências políticas no Amherst College. “Com bastante frequência, eles prejudicaram a democracia ou arruinaram a capacidade de agir do governo.”

Nem todos na América Latina consideram Trump de modo tão negativo. Guillermo Moreno, ex-secretário do Comércio argentino, qualificou o lema “América em primeiro lugar” de Trump como peronista em uma entrevista na semana passada. 

Nicolás Maduro, da Venezuela, que constantemente denuncia os danos provocados pelo imperialismo ianque, disse a jornalistas no domingo que o novo presidente americano foi submetido “a uma brutal campanha de ódio” por parte da mídia americana. Jair Bolsonaro, político brasileiro e provável candidato à presidência do País, também comemorou o sucesso de Trump: “Enfim, Trump desafiou o politicamente correto, os institutos de pesquisa e a mídia corrupta”, disse ele em um vídeo divulgado pela Americas Quartely.

Ironicamente, a América Latina vem se afastando dos seus dias de demagogia e ditadura, com o populismo em forte recuo e democracias amadurecidas criando raízes em quase toda a região.

“Os papéis se inverteram”, escreveu o cientista político da Universidade Texas A&M, Diego von Vacano. “E talvez caiba aos imigrantes latinos instruírem os Estados Unidos sobre um aprofundamento da democratização.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.