Herika Martinez / AFP
Herika Martinez / AFP

'O principal é procurar não contestar a legislação dos EUA', diz Araújo sobre brasileiros deportados

Chanceler brasileiro afirmou que o País receberá os cidadãos que atualmente estão retidos no México; deportação faz parte de novo programa americano para conter imigração ilegal

Beatriz Bulla, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2020 | 19h29

WASHINGTON - Em visita à capital dos Estados Unidos, o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, disse que não tem conversado com autoridades americanas sobre a deportação de brasileiros sem documentação que entram no país ou sobre os imigrantes enviados ao México. "O principal para nós é não procurar contestar a legislação americana, ou de qualquer outro país nesse caso. Imagino que haja determinados desafios ali inclusive decorrentes da logística de fronteiras dos EUA", explicou Araújo, questionado se transmitiu aos americanos preocupações do governo brasileiro com as condições em que os cidadãos são mantidos. 

"Nossa preocupação sempre, por meio do setor consular, é que não haja nenhuma discriminação contra brasileiros dentro do processo legal de cada país. Mas para nós, como eu dizia, o principal é receber esses brasileiros de volta", afirmou o chanceler.

Há uma semana, cerca de dez brasileiros foram levados a Ciudad Juárez, no México, enviados por autoridades americanas para que esperassem no país vizinho os pedidos de asilo apresentados aos EUA. Araújo classificou o fato como uma "questão sobretudo logística do sistema de imigração americano". 

O grupo de brasileiros no México, que inclui quatro menores, chegou à cidade fronteiriça no mesmo dia que o governo americano anunciou a inclusão do Brasil nos Protocolos de Proteção do Migrante (MPP, na sigla em inglês), um acordo conhecido como Fique no México, e parte da estratégia de Washington para frear o fluxo de migrantes sem documentação. O acordo repassa para o México o ônus de cuidar dos imigrantes até que o pedido de asilo seja julgado nos EUA.

Araújo repetiu pelo menos seis vezes durante uma entrevista a jornalistas em Washington que o governo brasileiro está recebendo de volta "sem problemas" os cidadãos brasileiros deportados. "Como eu disse o Brasil está permanentemente aberto a receber os voos que trazem os brasileiros. Imagino que para os brasileiros, já que têm que ser deportados, o melhor é voltar logo para o seu país e não ficar num terceiro país", disse.

No dia 24 de janeiro, um grupo de cerca de 50 brasileiros foi deportado dos EUA em um voo que partiu de El Paso, no Texas, para Belo Horizonte. Passageiros relataram que viajaram com os pés e as mãos algemados. O Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) informou que "indivíduos presos e sob custódia das forças federais de segurança estão sujeitos a serem algemados". 

O voo foi o segundo com deportados brasileiros a chegar no Brasil em cerca de três meses. As deportações atuais fazem parte de novo entendimento entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos, que facilita o procedimento de saída de imigrantes considerados ilegais dos EUA.

Araújo não falou do tema dos imigrantes com Mike Pompeo, em encontro com secretário de Estado nesta quinta-feira, 6. "Não conversamos especificamente sobre isso, porque é uma coisa que já está acontecendo e do nosso ponto de vista não está causando nenhum problema", disse o chanceler. 

"Se nos chegasse realmente 'ah, está havendo uma discriminação' ou 'estão sendo tratados fora da legislação local', a gente veria isso. Mas no momento tudo o que a gente acompanha é que são processos conduzidos de acordo com o Estado de Direito local que, ao serem concluídos com ordem de deportação, a gente recebe", disse o ministro. 

 

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