'O problema é como reformar a casa sem destruí-la'

Controlar o próprio partido e reformar economia com base em investimentos serão desafios de novos líderes, diz analista

Entrevista com

PEQUIM, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h05

O grande desafio da geração de líderes que assume o Partido Comunista da China nesta semana será conciliar reformas essenciais e estabilidade política, avalia Huang Jing, diretor do Centro sobre Ásia e Globalização da Escola de Políticas Públicas Lee Kuan Yew, da Universidade de Cingapura. "É como viver em uma grande casa na qual a janela está quebrada, o teto está quebrado, a porta está quebrada. Todo mundo sabe isso. O problema é como reformar a casa sem destruí-la", disse ao Estado. A seguir, trechos da entrevista:

Qual a diferença entre a atual transição e a de há dez anos?

Há dez anos havia apenas um líder (influenciando o processo), que era Jiang Zemin, transferindo o poder para um novo líder, que era Hu Jintao. Agora há dois líderes: Hu Jintao e Jiang Zemin. Jiang interveio no processo de maneira bastante agressiva, o que tornou a situação mais confusa que há dez anos. Como não há mais um homem forte, há necessidade de se chegar a acordos. No período de Mao Tsé-tung e Deng Xiaoping, ninguém se atrevia a negociar com eles. Hoje, o poder entre os líderes é mais equilibrado, o que é bom. Mas isso não é uma democracia. Toda a disputa ocorre a portas fechadas e não é transparente, com grande dose de intriga.

É possível que esse sistema de seleção de líderes sobreviva?

Não podemos esperar que ele mude da noite para o dia. Apesar dos problemas, ele segue alguns princípios: os líderes têm de transferir o poder para a nova geração, porque há um limite para o mandato. Também há um limite de idade e ninguém tem poder suficiente para dominar o processo. Isso é bom.

O crescimento econômico foi a principal fonte de legitimidade do PC nos últimos 30 anos, mas agora a China vive uma desaceleração. O que legitimará os próximos líderes?

A legitimidade tem base na performance. A desaceleração da economia não é só uma questão econômica na China. É também uma questão política para o regime. Mas se olharmos para os últimos 30 anos, houve muitas previsões de que a China entraria em colapso. Nos anos 80 foi a inflação, nos 90 foram créditos podres dos bancos, agora é o esgotamento do modelo de crescimento com base em investimentos. A China não só sobreviveu como continuou a crescer. Uma das razões para isso é o fato de os líderes serem extremamente adaptáveis. Eles sempre encontram uma maneira de lidar com situações extremamente difíceis. Nos últimos 30 anos não cometeram nenhum erro grave, o que é espantoso.

Quais são os principais desafios e reformas?

O primeiro é como gerenciar o próprio pessoal. Dos 82 milhões de membros do partido, 50 milhões ocupam posições de comando. O caso de Bo Xilai mostrou que é cada vez mais difícil para o partido controlar o próprio time. E há, claro, a reestruturação da economia. O modelo com base em investimentos não é ruim apenas para o crescimento sustentável, é ruim para a distribuição de renda. Eles terão de enfrentar as questões de aumento da desigualdade, corrupção e demanda por maior participação política. O desafio fundamental é como reformar. É como viver em uma grande casa na qual a janela está quebrada, o teto está quebrado, a porta está quebrada. Todo mundo sabe isso. O problema é como reformar a casa sem destruí-la.

Como fazer reformas e manter o regime de partido único?

Eu acredito que, no fundo, eles sabem que isso algum dia terá de acabar. A questão é como manter a estabilidade política sem um colapso ao estilo da União Soviética, sem provocar uma Revolução do Jasmim.

O que o sr. espera dos novos líderes?

Creio que nos primeiros dois a três anos eles terão de consolidar sua liderança. Nesse processo, acredito que eles serão muito duros na política externa, pois ninguém pode se dar o luxo de ser fraco. Isso ocorre em todos os países, na China, nos Estados Unidos, no Japão e até no Brasil. Quando há uma forte liderança em casa, a tendência é que ela seja mais moderada no exterior. Mas se a liderança é fraca, você precisa ser forte no exterior, para desviar a atenção. Acredito que eles vão ser muito duros, o que causa preocupação em relação à tensão entre Japão e China. / C.T.

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