'O problema é que ainda não estou livre', diz Chen Guangcheng

Dissidente cego diz que família sofre ameaças e tem medo de que autoridades locais tentem vingança

Entrevista com

DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

13 Maio 2012 | 03h05

Chen Guangcheng, ativista de direitos humanos cego, provocou forte tensão entre EUA e China quando se refugiou na embaixada americana em Pequim após escapar da sua prisão domiciliar. Em entrevista à Der Spiegel ele fala das ameaças contra sua família e seu desejo de deixar a China o mais rápido possível. O pedido de ajuda e proteção feito aos EUA ecoou em chinês na sala 2.172 durante uma audiência no Congresso dos EUA em Washington. No dia 3, uma conversa por telefone com Chen, de 40 anos, que pedia apoio para deixar a China, foi ouvida na sala.

O incidente colocou simultaneamente as duas potências numa situação complicada: a China, porque novamente foi ressaltado em que situação miserável está o estado de direito no país; e os EUA, porque confiaram nas garantias oferecidas pelos líderes em Pequim e deixaram Chen por conta da boa vontade das autoridades chinesas. O conflito, que deveria ser resolvido tranquilamente, pode prejudicar o presidente Barack Obama e afetar a já difícil relação dos EUA com a China. Depois de 18 meses de prisão domiciliar, o dissidente cego conseguiu escapar dos guardas na Província de Shandong. Seis dias depois ele deixou a sede diplomática - voluntariamente, segundo os americanos - e foi levado a um hospital.

Diplomatas dos EUA afirmam ter recebido seguranças dos chineses de que Chen teria permissão para estudar na China sem medo de perseguição do governo.

No dia 4, acreditava-se que surgira uma saída da crise diplomática. Se Chen desejava estudar no exterior, disse um porta-voz da chancelaria chinesa, ele poderia fazer isso "como qualquer outro cidadão chinês". Mas esse anúncio não se traduziu numa partida rápida. E Cheng agora anseia por ela.

A Universidade de Nova York lhe ofereceu uma bolsa de estudos. No domingo, o vice-presidente Joe Biden disse que os EUA estavam prontos para conceder um "visto" a ele imediatamente de modo que ele pudesse conseguir a bolsa.

A entrevista a seguir foi realizada por telefone durante a permanência de Chen no hospital. A ligação foi interrompida diversas vezes durante a conversa.

Como está se sentindo?

Estou na cama e não me sinto nada bem. Além disso, temo que esta ligação possa ser interrompida a qualquer momento.

Está sendo bem tratado?

Sim, tudo bem.

O senhor deixou a embaixada americana em Pequim voluntariamente?

(Depois de um longo suspiro e uma longa pausa) Sim. Deixei a embaixada voluntariamente, mas estava sendo ameaçado o tempo todo.

O senhor estava sendo ameaçado, ou sua família?

Não, eu não estava sendo ameaçado, mas sim a minha família.

A liderança chinesa, segundo foi falado, anunciou que enviaria sua mulher e seus dois filhos de volta para sua província natal de Shandong no caso de uma recusa da sua parte em deixar a embaixada americana em Pequim. Isso é verdade?

Sim.

E em Shandong sua família seria recebida exatamente por aquelas pessoas que os trataram tão mal antes.

Sim.

O senhor deseja deixar a China?

Sim, quero sair da China o mais rápido possível. Com toda minha família.

A caminho do hospital o sr. conversou com a secretária de Estado Hillary Clinton por telefone. Ela lhe deu alguma garantia?

Tudo o que ela disse foi que o governo garantiria meus direitos civis. Mas na China não existem garantias para os direitos civis.

Por um longo tempo, o governo chinês ficou passivo enquanto as autoridades locais o colocaram em prisão domiciliar e o maltrataram. O senhor acredita que este mesmo governo garantirá sua segurança no futuro?

Na minha opinião, não é questão de acreditar ou não acreditar. Prefiro me ater aos fatos. Desde que estou aqui no hospital, dificilmente posso fazer ou receber um telefonema com meu celular. Meus amigos não podem me visitar. Além disso, não consigo saber como minha mãe está passando. Há muitas incertezas.

Está com medo de que as autoridades locais tentem se vingar?

Sim, estou muito preocupado.

O senhor é o primeiro ativista de direitos humanos chinês conhecido que escapou do cativeiro e agora terá - supostamente - permissão para viver na China como um cidadão livre. Encara isto como um sinal de mudança e de possíveis reformas?

O problema é que não estou livre.

Seus amigos não tiveram permissão para visitá-lo e somente sua mulher e seus filhos estão com o senhor no hospital?

Sim, eles estão comigo.

Sua mulher e seus filhos têm permissão para sair?

Não.

O sr. sabe qual a situação de outros parentes seus, incluindo seu sobrinho e seu irmão?

Não.

Pode nos falar um pouco sobre o tratamento que teve durante sua prisão domiciliar?

Os guardas nos impediam à força de sairmos de casa e nos seguiam por toda a parte. Membros da segurança local invadiram nossa casa e espancaram a mim e à minha mulher. Levaram tudo da casa, até os termômetros e lanternas. Coisas realmente sem importância, mas carregaram tudo. Tentaram tornar minha vida a mais difícil possível.

Ao que parece sua fuga do cativeiro foi quase um milagre.

Sim, tive ajuda dos céus.

Como conseguiu escapar sem ser percebido?

É uma longa história. Saí rastejando de casa. Um guarda me ajudou.

Durante sua fuga, foi ajudado por pessoas e levado a Pequim. Algumas dessas pessoas foram depois interrogadas ou presas.

Estou muito preocupado com elas. Isso mostra claramente que toda esta conversa de liberdade são palavras vazias.

O sr. falou com os americanos a respeito das pessoas que o ajudaram?

Sim. Eles me garantiram que vão discutir o assunto com o lado chinês.

O que o sr. sabe sobre os acertos envolvendo sua proteção entre os americanos e o governo chinês?

Segundo eles, as autoridades chinesas asseguraram meus direitos civis e tive permissão para deixar a embaixada sem questionamentos.

Mas com base no acordo os americanos não conseguirão monitorar o que está ocorrendo com aqueles que o apoiam.

Aparentemente não. Alguns ainda estão sendo torturados.

Alguém lhe disse por que foi preso nos últimos anos?

Estão dizendo agora que meus direitos civis foram violados e o governo local infringiu leis e regulamentos. Pelo menos foi isso que o governo disse ao secretário adjunto de Estado dos EUA, Kurt Campbell.

O sr. recebeu alguma garantia por escrito dos EUA ou de seu governo?

Não.

Foi assegurado que o sr. teria autorização para estudar numa universidade chinesa. Foi só um compromisso verbal?

Sim.

Em que cidade o senhor teria oportunidade de estudar?

Eles fizeram uma lista de sete universidades. Ainda não decidi. Posso escolher entre Tianjin e... Mas esqueça! É inútil.

Então o sr. não está mais interessado em frequentar uma universidade chinesa?

Exatamente.

Acreditava que Hillary Clinton o visitaria?

Ela já estava em Pequim quando eu me refugiei na embaixada. Mas ela não veio me ver. O que me surpreendeu muito.

O sr. espera que os americanos firmarão outros compromissos com relação à sua proteção?

Claro que espero.

Mas ainda não formalizaram, certo?

Recebi um telefonema deles, dizendo que alguém viria me ver mais tarde.

Quanto tempo o senhor terá de permanecer no hospital?

Não sei.

Acredita que seu país um dia se transforme numa nação que respeita o estado de direito? Sim, acredito. Mas será necessário um grande esforço por parte de muitas pessoas para atingirmos esse objetivo.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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