Tolga AKMEN / AFP
Tolga AKMEN / AFP

O problema envolvendo a promessa de renúncia de Theresa May

Possível saída da primeira-ministra não resolverá o impasse do Brexit e ampliará as divisões no Parlamento, onde cada facção quer ter a chance de assumir o controle da próxima etapa de negociações

The Economist, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2019 | 11h12

Theresa May deveria liderar as negociações para a saída da Grã-Bretanha da União Europeia (UE) esta semana. No entanto, o país permanece imobilizado e a primeira-ministra anuncia a sua própria saída. Depois de suportar meses de críticas sobre sua condução das negociações para a saída, com o país na semana passada sendo forçado a pedir uma extensão do prazo estabelecido de 29 de março, May se curvou às demandas para ela dizer que abandonará o assunto. E prometeu aos seus colegas parlamentares conservadores que sairia se a Grã-Bretanha deixasse formalmente a UE e passaria para seu sucessor a próxima fase, crucial, de negociações sobre a futura relação do país com o continente.

Depois de semanas de caos, os fatos ocorridos nos últimos dias podem dar a impressão de que a Grã-Bretanha finalmente está encontrando seu caminho na solução da sua crise. O sacrifício supremo de Theresa May tem por objetivo convencer seus colegas parlamentares conservadores rebeldes a votarem a favor do seu impopular acordo do Brexit. O que é mais encorajador é o fato de o Parlamento trabalhar um plano alternativo próprio e nesta semana ter feito uma série de votações para tentar chegar a um tipo de acordo que seja aceito pela maioria no caso de Theresa May não o conseguir.

 

Mas na realidade, a prometida saída da primeira-ministra não eliminará os desacordos que têm impedindo o país de chegar a um acordo para a saída e até poderá exacerbá-los.

O anúncio de May ocorreu depois de semanas de pressão. A premiê, que há dois anos parecia quase invencível lentamente perdeu a autoridade, começando com sua calamitosa perda da maioria conservadora em 2017 numa eleição que se acreditava resultaria em uma vitória esmagadora. Seu impopular acordo para tirar o da UE foi derrotado duas vezes no Parlamento, primeiro por uma margem recorde e, depois, ainda com uma diferença enorme. Ela não tem nenhuma realização no plano interno para apresentar e mal controla seu gabinete, sem falar no seu partido. Theresa May não teve sorte no caso do Brexit e sua atuação tem sido extraordinariamente ruim.

É tamanha a confusão que mesmo a saída de uma primeira-ministra impotente não fará avançar as coisas. Não obstante sua oferta, uma última tentativa desesperada para conseguir o apoio dos rebeldes conservadores, seu acordo permanece inalterado e detestado. Há uma vaga chance de o seu gesto suicida ter sucesso. Alguns defensores radicais do Brexit, incluindo Boris Johnson e Jacob Rees-Mogg, que há muito tempo desprezam o plano desenhado por Theresa May, hoje entendem que a alternativa mais provável é algum projeto engendrado pelo Parlamento que mantenha a Grã-Bretanha mais próxima da União Europeia.

A promessa de May de renunciar ao cargo dá a eles uma desculpa para fazer meia volta. Mas mesmo agora as probabilidades estão contra ela. Os dez parlamentares do partido norte-irlandês DUP, junto com dezenas de deputados "espartanos" defensores da saída, se mantêm resolutos. Há um limite para o número de vezes que Theresa May pode ter seu acordo derrotado antes de ele morrer.

Uma razão mais fundamental pela qual a oferta da primeira-ministra não resolverá o problema do Brexit é que ela amplia ainda mais as divisões no Parlamento. Mesmo que um número suficiente de parlamentares esteja disposto a votar a favor do acordo oferecido por ela não é porque de repente concordaram com ele, mas porque cada facção acredita que, após a saída de May, terá uma chance de assumir o controle da próxima etapa de negociações. 

Os defensores radicais da saída sonham em ter o comando das negociações em Bruxelas e mostrar para o mundo como negociar a saída da União Europeia. Os pró-europeus, derrotados, lutarão para salvar um Brexit suave. Os dois lados ainda acham que têm uma chance de vencer se pressionarem e a remoção de Theresa May só confirmaria sua convicção. É uma fantasia que poderá levar o país de volta para o ponto inicial do debate sobre as negociações do Brexit.

A notícia mais encorajadora é que o Parlamento tenta buscar uma saída desta ilusão. Depois de assumir o controle da agenda na Câmara dos Comuns, o Parlamento debateu as várias opções realistas do Brexit. Após dois anos alimentando todo o tipo de fantasias sobre a vida fora da União Europeia  - "nenhuma desvantagem, somente ganhos", como afirmavam insensatamente os três secretários do Brexit - o Parlamento começa a entender que as negociações são duras. 

Restringir a imigração da Europa significa deixar o mercado único; a divergência com os regulamentos necessariamente coloca barreiras ao comércio; manter as fronteiras abertas na Irlanda do Norte exclui a política de comercio independente. Os votos indicativos desta semana oferecem uma maneira de encontrar um acordo de compromisso que tenha o consentimento dos parlamentares. É uma crítica a Theresa May que hoje poderia estar numa melhor posição se tivesse sondado as opiniões antes de iniciar as negociações com a UE.

O que nos leva à última razão pela qual a oferta de Thereza May pode complicar o Brexit: o duvidoso mandato do seu sucessor. Um líder recém-instalado provavelmente desejará estabelecer seu próprio curso e não receber ordens dos parlamentares. O novo premiê será escolhido por 120 mil membros do Partido Conservador, que são mais brancos, mais velhos e mais ricos e muito mais aficionados por um Brexit duro do que o país dividido que elegeu o Parlamento. 

O mandato do novo líder não refletirá a opinião dos 17,4 milhões que votaram a favor da saída do país da União Europeia, sem falar nos 16,1 milhões que votaram pela permanência. Por que o Parlamento repentinamente se sentiria obrigado a se ater às regras?

Sob qualquer aspecto a saída de Thereza May deixa o caminho na direção do Brexit extremamente incerto como jamais esteve. Todas as opções, incluindo uma derrocada, um longo adiamento e a revogação do Brexit - ainda são possíveis.

Por isto a melhor maneira - talvez a única - de se chegar a um acordo e aprovar as dezenas de projetos de lei necessários  será o Parlamento se comprometer com um plano e o país confirmá-lo num referendo. Uma maioria estável e coesa no Parlamento e no país é a base essencial para o próximo passo. Se Theresa May persistir teimosamente contra esse plano, sua saída será necessária. Mesmo que isso não seja suficiente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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