O problema não é Kony

No norte de Uganda, reação a vídeo de ONG foi de indignação e medo; o vilão já não está lá

JORNALISTA DE UGANDA, FOI KNIGHT FELLOW DE STANFORD EM 2011, ANGELO, IZAMA, THE NEW YORK TIMES , JORNALISTA DE UGANDA, FOI KNIGHT FELLOW DE STANFORD EM 2011, ANGELO, IZAMA, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

22 Março 2012 | 03h06

No norte de Uganda, durante a estação da seca, os arbustos costumam pegar fogo, que espanta as cobras e outros predadores. Do lado ugandense da fronteira com o Sudão do Sul, logo abaixo de uma crista montanhosa ao longo do Nilo, há uma aldeia que os habitantes chamam de Odrupele. O local está tomado pelas cobras.

Até poucos anos atrás, as crianças que andavam pela aldeia eram emboscadas por uma ameaça muito maior que espreitava entre os arbustos - o sequestro pelos membros do Lord's Resistance Army (Exército de Resistência do Senhor), cujo comandante, Joseph Kony, no final dos anos 80, deu início a uma campanha brutal para derrubar o governo de Uganda usando crianças-soldado. Assim como as cobras, os combatentes do LRA voltavam com as chuvas.

Esse culto do medo foi imortalizado no início deste mês com o sucesso arrasador do filme Kony 2012 pela internet. Mas no norte de Uganda as pessoas costumavam ser sequestradas muito antes de Kony - pelos exércitos do rei Leopoldo da Bélgica, do ditador Idi Amin e pelos governos posteriores. A violência é um empreendimento que não envolve apenas um homem ou sua organização, por mais cruel que seja.

A aldeia de Odrupele (também chamada Dufile), perto do lugar onde frequentei a escola primária e o curso secundário, servia outrora de porto de escoamento dos carregamentos de marfim e de escravos procedentes do interior. Por uma dessas reviravoltas da história, Kony agora está na República Democrática do Congo, o antigo quintal do rei Leopoldo, para onde escapou no final de 2005. Abrindo o próprio caminho sangrento com cordas, facas e armas de fogo, ele sobrevive graças aos métodos antigos, enquanto cem integrantes do Exército mais avançado do mundo se uniram para matá-lo ou capturá-lo.

Embora as pessoas possam entender facilmente os métodos cruéis de homens como Kony, a política que sustenta suas brutais campanhas é mais difícil de assimilar. Kony considera-se um libertador e sempre teve aliados nos lugares mais improváveis.

Apoio a Kony. Assim como outros vilões da região que foram indiciados por crimes de guerra, Kony prosperou principalmente como agente de interesses alheios. Nos anos 90, ele foi cooptado como aliado pelo governo sudanês de Cartum, que na época combatia o Exército Popular de Libertação do Sudão (ESLP, na sigla em inglês), no Sudão do Sul. Uganda apoiava o ESLP e considerava sua própria região norte uma agregada numa guerra mais ampla. Quando as duas partes do Sudão assinaram um acordo de paz em 2005, a licença de Kony esteve prestes a expirar.

Campanhas como Kony 2012 pretendem servir de base para o debate sobre esses criminosos e inspirar uma ação para detê-los. Entretanto, elas acabam simplesmente mobilizando a nossa indignação para defender uma agenda política específica - neste caso, uma ação militar mais ampla.

Afinal, os líderes africanos preferem sempre cuidar da própria agenda usando os recursos que parceiros de fora injetam nos seus respectivos países e usar o discurso que mais lhes convém - tanto a guerra ao terror pós-11 de Setembro, quanto a cruzada contra Kony. Essas campanhas são vitoriosas porque conseguem se apoderar da nossa indignação retendo-a como refém. Frequentemente, elas substituem o fanatismo dos maus com a nossa própria arrogância e, o que é pior, com a ignorância. Além disso, elas nos impedem de enxergar, concentrando-se nos agentes do mal e não em seus mandantes.

Kony continua se beneficiando da proteção do presidente do Sudão, Omar Hassan Bashir, mas mais ainda da rivalidade existente entre o presidente da República Democrática do Congo (RDC), Joseph Kabila, e o presidente de Uganda, Yoweri Museveni. Esta rivalidade remonta ao final dos anos 90, quando Uganda ocupou o antigo Zaire e depois foi obrigada a se retirar em 2003, graças às pressões internacionais e às acusações de saques e estupros. Kabila fechou os olhos às façanhas do LRA porque ele serve para contrabalançar a influência da Uganda no Congo oriental.

Soldados superfaturados. A ida de Kony para a RDC ocorreu depois de várias tentativas de aniquilá-lo, até mesmo a Operação Punho de Ferro e a criação do Ministério para a Pacificação do Norte. Ao mesmo tempo, aumentaram as acusações de enriquecimento ilícito de altas patentes do Exército ugandense, até mesmo ampliando os números do efetivo militar com "soldados fantasmas", já mortos, enquanto bilhões eram gastos com a defesa.

Uma política de terra arrasada que arrastava as vítimas de Kony para campos de "deportados" provocou milhares de mortes por doença, enquanto os combatentes do LRA voltavam durante a estação das chuvas, esgueirando-se entre os arbustos que lhes serviam de cobertura, para sequestrar e matar.

Quando Kony 2012 foi exibido no norte de Uganda, as pessoas reagiram com indignação, frustração e medo. Além do fato de Kony já não se encontrar no país, muitos ugandenses não queriam lembrar dele.

A população local jamais esqueceu que as nove vidas de Kony foram uma concessão da política da polícia informal que o caçava. Alguns políticos do norte acusaram o governo ugandense de negligência criminosa ou de estar mais interessado em ajustes de antigas contas políticas. Outros, indignados pelas condições às quais o governo os sujeitara, simpatizavam com Kony. A maioria estava apenas cansada da guerra e apoiava as conversações de paz para pôr fim ao conflito. Se os Estados Unidos tivessem apoiado uma ambiciosa solução política regional em lugar de uma solução militar, é possível que o LRA e outros grupos militantes deixassem de existir. Mas sem este pacto, a violência não acabou.

O assassinato de Kony poderá tirá-lo do campo de batalha, mas em nada melhorará as condições que permitiram que ele sobrevivesse com tanto sucesso e por tanto tempo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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