O processo de paz e o movimento em favor dos assentamentos

O premiê israelense Binyamin Netanyahu se queixou da recente decisão da União Europeia de suspender doações e empréstimos a entidades israelenses localizadas nos territórios ocupados. "As diretrizes europeias prejudicam a paz". No mundo às avessas da política israelense, não é a existência dos assentamentos que mina a paz, mas a tentativa de contê-los. É como uma pessoa que culpa as sessões de quimioterapia por deixá-la doente.

ANÁLISE: Alan Elsner / REUTERS, É JORNALISTA, ANÁLISE: Alan Elsner / REUTERS, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2013 | 02h09

Israel começou a construção dos assentamentos após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando ocupou territórios palestinos. Em 2012, havia 325 mil israelenses em assentamentos da Cisjordânia e 190 mil nos bairros de Jerusalém Oriental.

Agora que as negociações de paz serão retomadas, devemos nos preparar para anúncios de novos assentamentos, porque os que são contrários ao diálogo no governo israelense fazem o possível para frustrá-las. No domingo, o Ministério da Habitação informou que começou a comercializar 1.200 casas em Jerusalém Oriental e a Administração Civil aprovou a construção de centenas de outras em assentamentos isolados.

Embora os anúncios não devam determinar o futuro das conversações de paz, eles têm um sentido provocador e tornam o diálogo mais difícil. São embaraçosos para o presidente palestino Mahmoud Abbas, fazendo com que ele pareça fraco e reduzindo sua capacidade de fazer concessões. Por outro lado, fornecem munição ao Hamas e a outros grupos que não acreditam que Netanyahu tenha sérias intenções de paz.

Segundo o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, Netanyahu disse que esses anúncios não afetariam a capacidade de Israel de negociar. No entanto, ele reiterou que os EUA consideram as construções "ilegais". Os assentamentos, muitos criados em desafio à lei israelense por meio de subterfúgios em terrenos roubados, são enclaves de Israel dentro de território palestino. Mais de 33% da Cisjordânia está agora fora do alcance dos árabes, que não podem construir ou cultivar nos locais.

O grupo que defende os assentamentos nunca perdeu uma batalha política em Israel. Talvez tenha sofrido revezes temporários, mas sempre encontrou meios de superá-los. Agora, ele domina o Likud, partido de Netanyahu. Nas últimas eleições internas, os principais cargos foram vencidos por políticos favoráveis aos assentamentos e contrários à solução dos dois Estados. Além disso, faz parte do governo o Partido Lar Judaico, que tem como ideologia a anexação da maior parte da Cisjordânia.

Muitas coisas terão de ocorrer para que haja paz. Ambos os lados negociarão fronteiras e o futuro de Jerusalém - e terão de dirimir os temores sobre a segurança de Israel. Qualquer acordo deve ter apoio da maioria de israelenses e palestinos. Também está claro, porém, que o movimento dos assentamentos terá de ser politicamente derrotado para que haja paz. O confronto final ocorrerá se e quando for concluído um acordo que envolva a retirada dos milhares de colonos de um futuro Estado palestino.

Será uma batalha dolorosa, mas necessária para que Israel volte a ser uma nação saudável. Não está claro o papel que Netanyahu desempenhará no confronto. Até agora, ele tem sido pragmático, adiando as decisões difíceis e costurando os compromissos de que precisa para se manter no cargo. Congelou os assentamentos por dez meses quando pareceu vantajoso e determinou sua expansão, quando foi necessário. Será ele o homem que derrotará os colonos ou o paciente que confunde a doença com o tratamento? / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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