O projeto político do Islã violento fracassou

Emergência de grupos religiosos moderados, reforçada pela Primavera Árabe, esgota a retórica radical da Al-Qaeda

O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2011 | 03h02

Vou fazer uma afirmação óbvia, porque fui uma das pessoas profundamente envolvidas nos acontecimentos do 11 de Setembro: não tínhamos ideia do que aconteceria a partir daquele momento. Nos esforçamos para entender, mas grande parte do que se afirma hoje tem o benefício da reflexão tardia.

Indubitavelmente, foi um momento de definição. O ataque provocou uma reflexão fundamental sobre as ameaças à segurança nacional e uma reformulação das prioridades para a segurança nacional nos EUA, na Grã-Bretanha e em outros países. Teve profundas consequências para os orçamentos de segurança, defesa e inteligência. Também provocou uma considerável mudança de rumo na política externa dos EUA - e hoje vivemos com os seus efeitos no Afeganistão, no Paquistão, no Iraque e em todo o Oriente Médio.

Embora o presidente Barack Obama tenha inteligentemente modificado a retórica da chamada "guerra ao terror", na realidade ele aumentou a agressão contra a Al-Qaeda. Os EUA aprovaram o aumento das "eliminações cirúrgicas", particularmente no norte do Paquistão, e evidentemente o fechamento de Guantánamo não ocorreu.

Entretanto, o que surpreende, dez anos mais tarde, é o fato de o islamismo violento não ter conseguido provocar um impacto político mais duradouro. Poucos poderiam prever esse fracasso na época.

A Al-Qaeda começou com a ideia de limpar a Arábia Saudita dos "infiéis"; apresentou um complexo modelo político de califado. O que vemos agora - e enfatizo que são comentários pessoais - é um renascimento do Islã moderado e de partidos islâmicos moderados. Grupos que defendem os mesmos valores democráticos e os direitos individuais aos quais a Al-Qaeda era contra. Isso pode ser constatado hoje na Tunísia, no Egito, e na atuação do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan.

Há um discurso diferente - que a liderança da Al-Qaeda se opõe - que determina os rumos políticos e sociais do Oriente Médio. A Al-Qaeda, até certo ponto, está em desvantagem. E os serviços secretos mostraram-se eficientes em frustrar os seus esforços.

Atoleiros. Em primeiro lugar, o trabalho eficiente de contrainteligência depende da colaboração de outras agências. Exige uma cooperação internacional e nacional sem precedentes. Isso esbarrou no problema de dialogar com governos e sistemas políticos diferentes e, particularmente, com parceiros cuja visão dos direitos humanos é diferente. Agências de inteligência operam no âmbito de um sistema político de investigação e os ministros devem decidir a extensão da cooperação.

Acredito que a Al-Qaeda cometeu um erro estratégico ao lutar contra as forças militares dos EUA no Iraque - e o fez com um número considerável de combatentes estrangeiros. Uma vez que os militares dos EUA agiram de modo organizado, os chefes tribais sunitas decidiram apoiar os EUA e a guerra acelerou o declínio da Al-Qaeda.

É preciso ter cuidado ao falar de Al-Qaeda no Afeganistão. A Al-Qaeda não é o Taleban. A relação entre eles sempre foi uma aliança de conveniência e seus projetos realmente não combinam. Não quero dar conselhos à Al-Qaeda, mas se ela tiver um objetivo no Afeganistão, será melhor que afaste o Taleban das negociações.

O diálogo é um processo de mão dupla. O Exército Republicano Irlandês (IRA), na Irlanda, é um exemplo clássico de transição do terrorismo para uma solução política. Do mesmo modo, é possível negociar com o Taleban. Mas a Al-Qaeda não tem um programa político realista, sua preocupação é rejeitar. É um confronto de crenças e valores. Portanto, a coisa certa, apesar dos riscos, seria enfrentar a ameaça de maneira agressiva.

A Al-Qaeda poderá nos reservar surpresas extremamente desagradáveis. Mas é instrutivo observar como o sucessor de Osama bin Laden, Ayman al-Zawahiri, respondeu ao fenômeno da primavera árabe. A Al-Qaeda demorou muito para se manifestar sobre os protestos e, quando o fez, condenou as aspirações à democracia e rejeitou o caráter secular dos levantes. Não parece o tipo de mensagem que influirá nas ruas, considerando os acontecimentos atuais. Agora o discurso é diferente, e a evolução dos fatos na Líbia, Egito, Tunísia e Síria deveria nos dar a esperança de que esse discurso tenha um poder muito maior.

Evidentemente, em um momento de transformações revolucionárias existe sempre o perigo de que grupos não representativos bem organizados - refiro-me a grupos desprovidos de credenciais democráticas - possam se apoderar dos desenvolvimentos políticos. Estou preocupado com a Irmandade Muçulmana no Egito e com os seus possíveis objetivos. Há também a evidência, na Líbia, de um grupo islâmico bem organizado. Se o Iêmen continuar se esfacelando, poderá vir a ser um terreno muito fértil para a entrada de um movimento como a Al-Qaeda.

Isso também poderia ocorrer na Arábia Saudita. Numa visita ao país não muito depois dos atentados, ouvi um longo discurso de um dos membros mais antigos da família real saudita, que disse: "O 11 de Setembro é uma coisa insignificante para o Ocidente. Vocês vão se recuperar. Isso não ameaça sua identidade fundamental, mas nos ameaça. Em última análise, os alvos somos nós."

Armas e urnas. Há várias correntes brigando entre si, e é difícil vislumbrar como será o futuro. A modernidade liberal, o fundamentalismo religioso, o tribalismo, poderosas divisões sectárias e os regimes autoritários que estão caindo são algumas correntes. Com esse pano de fundo, o contraterrorismo é apenas um instrumento entre vários - e não mais o principal.

O sucesso do processo eleitoral na Tunísia deveria nos dar motivo de otimismo. Mas os vazios políticos que se seguem aos ditadores podem ser preenchidos inicialmente por políticos cujo apelo é parcial, que não tiveram nenhum incentivo nem oportunidades para desenvolver uma ampla base política. O teste para os países da Primavera Árabe que agora enfrentam o processo eleitoral será a capacidade de os seus políticos se colocarem à frente de formações ou partidos que não se definem por etnicidade ou religião.

O processo pode levar anos. No meio tempo, será difícil manter os extremistas sob controle enquanto se constroem sociedades civis com uma justiça melhor, maior representatividade e oportunidades econômicas para todos. Os revezes serão inevitáveis, mas tudo será viável se houver um amplo consenso quanto aos rumos gerais que os países desejam seguir.

Prevejo o retorno da política ao Oriente Médio, depois de um longo período de estagnação. Obviamente, isso afetará a visão que os serviços de inteligência têm da região e dos seus problemas. O Islã político e violento não se tornou o catalisador da mudança e da crise como imaginei que se tornaria depois de 11 de Setembro.

Apesar de todos os perigos e riscos - e do fato de que haverá outros incidentes terroristas, alguns deles indubitavelmente graves - a Al-Qaeda deixará de estar no centro das atenções, e duvido que volte a estar. Acho que estamos começando a seguir em frente.

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