O próximo capítulo do México

Prioridade do novo governo será diminuir a desigualdade e continuar a luta contra o narcotráfico

PEÑA NIETO, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2012 | 03h02

CIDADE DO MÉXICO - No domingo passado, os mexicanos compareceram às urnas em grande número para votar pela mudança. Mudança das prioridades, de estratégia e uma mudança de geração, tendo como meta uma forma ativa de governo. Sinto-me honrado pelo fato de os mexicanos terem visto em mim a oportunidade de mudança e de um novo rumo.

Poderá haver considerável apreensão na comunidade internacional quanto à possibilidade de minha eleição significar, de certa forma, um retorno aos velhos tempos do meu partido, o Partido Revolucionário Institucional (PRI), ou uma diminuição do compromisso do México de combater o crime organizado e as drogas. Esqueçamos tais preocupações.

Essa campanha baseou-se em duas questões fundamentais. Em primeiro lugar, a melhoria das condições econômicas para milhões de mexicanos sofredores, cuja vida foi rotineiramente afetada por um crescimento econômico escasso, que, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas do México, foi em média 1,7% entre 2000 e 2010.

Em segundo lugar, o fim da polarização que paralisou nossa política, tornando impossível reformas absolutamente necessárias no setor de energia, no mercado de trabalho, na educação e na segurança social, para mencionar apenas algumas. Essas mudanças não poderão mais ser adiadas.

Aos que estão preocupados com a volta dos velhos tempos, digo que não temam. Aos 45 anos, pertenço a uma geração de políticos do PRI comprometidos com a democracia. Eu rejeito as práticas que foram comuns no passado e, ao mesmo tempo, pretendo abandonar o impasse político do presente. O objetivo da minha geração não é a ideologia nem o clientelismo, mas a libertação dos mexicanos da pobreza. Foi desse modo que governei o Estado do México, o mais populoso do país, de 2005 a 2011.

Pretendo governar com realismo pragmático e com uma clara estratégia de longo prazo. Países em desenvolvimento como Índia, China e Brasil mostraram o caminho para aliviar de maneira significativa e duradoura a pobreza mediante reformas institucionais e políticas econômicas concentradas no crescimento. Está na hora de trazermos essas melhorias para o México.

Crime. Pretendo tratar frontalmente a questão do crime organizado e do narcotráfico. Não haverá negociação nem trégua para os criminosos. Respeito o presidente Felipe Calderón pelo seu compromisso em acabar com esse flagelo. Continuarei sua luta, mas a estratégia terá de mudar.

Mais de 60 mil assassinatos nos últimos seis anos causaram críticas de organizações de defesa dos direitos humanos e um avanço questionável na redução do fluxo das drogas. Portanto, a política atual terá de ser revista. Na realidade, eu propus iniciativas que permitirão um aumento acentuado dos gastos com a segurança e estabeleci como meta uma queda significativa dos crimes violentos.

O que terá de melhorar é a coordenação entre as autoridades federais, estaduais e municipais no combate ao crime. Criarei uma Força Policial Nacional de 40 mil homens, semelhante à de países como Colômbia, Itália e França, para atuar nas áreas rurais mais violentas. Também expandirei a Polícia Federal com a contratação de pelo menos 35 mil agentes e intensificarei a coleta a análise das informações.

Consolidarei as forças policiais de Estados e municípios e promoverei uma supervisão federal mais rigorosa, para reprimir a corrupção em suas fileiras. Proporei ainda uma reforma abrangente da legislação penal. Já procurei a assessoria do general Óscar Naranjo, que se aposentou recentemente da chefia da Polícia Nacional da Colômbia. Ele é um dos principais combatentes da criminalidade em todo o mundo.

No entanto, para que essas medidas de segurança produzam efeitos no longo prazo, a comunidade internacional terá de compreender duas coisas. Primeiro, que essas iniciativas terão de ser acompanhadas por profundas reformas econômicas e sociais. De fato, não existe segurança sem estabilidade.

Em segundo lugar, outras nações, particularmente os EUA, precisam ter uma atuação muito maior na redução da demanda de drogas. Espero que os países vizinhos se unam a nossos esforços não apenas no combate à criminalidade e às drogas, mas também em muitas outras questões de mútuo interesse.

Devemos apoiar o Acordo de Livre Comércio para a América do Norte (Nafta), que entrou em vigor em 1994, como motor de crescimento por uma maior integração das nossas economias mediante um aumento dos investimentos em indústria, finanças, infraestrutura e energia.

Pretendo também dar início a uma nova era de cooperação econômica e política com a região da Ásia-Pacífico e fortalecer as nossas relações com a União Europeia. E, sendo o México o maior país de língua espanhola do mundo, ele tem um grande papel no campo da economia, da cultura e da política na América Latina e no Caribe.

Gostaria ainda de aplaudir a implementação de uma reforma abrangente da imigração nos EUA. Os especialistas concordam que, atualmente, há mais mexicanos voltando para o México do que os que estão deixando o meu país para encontrar trabalho do outro lado da fronteira. Essa nova realidade deverá fazer com que o debate sobre a imigração, nos EUA, provoque menos desunião.

Em 2000, os olhos do mundo voltaram-se para o México quando o PRI, pela primeira vez em 70 anos, transferiu o poder de maneira pacífica para um outro partido. Desde então, o México evoluiu consideravelmente, tornou-se mais moderno e dinâmico. Entretanto, esse período também incluiu um sem número de oportunidades perdidas e muitas importantes reformas políticas e econômicas deixaram de ser feitas. Explorar o pleno potencial do nosso país é minha missão como presidente eleito do México. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*É PRESIDENTE ELEITO DO MÉXICO , PELO PARTIDO REVOLUCIONÁRIO

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