O próximo dilema dos americanos

Se a economia dos EUA não crescer, governo será obrigado a escolher entre financiamentos sociais dentro ou fora do país

Thomas Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2012 | 03h01

WASHINGTON - Ultimamente, quando falamos com representantes do governo chinês, eles logo manifestam preocupação com o "reequilíbrio" de forças que os EUA terão de empreender - como a perspectiva da transferência de mais tropas do Oriente Médio para a Ásia - a fim de conter a China. Sempre costumo responder que a China está se preocupando com o problema errado. Na realidade, os EUA não estão transferindo fuzileiros navais do Oriente Médio para a Ásia. Pretendem transferi-los para San Diego - pois não têm mais condições de exercer a função de polícia no mundo todo - e isso terá de caber em parte à China.

E boa sorte, mundo! Foi muito bom ficar um tempo com você, mas Washington já não tem como pagar por isso - e um dos motivos principais é que os americanos baby boomers estão prestes a aposentar-se sem contar com economias. Os EUA têm um nova doutrina estratégica chegando: "A política externa na era do Alzheimer". Washington fará o que puder e esquecerá o restante.

Por que digo isso? Em parte, porque na semana passada estive na capital americana com membros da Federação Judaica da América do Norte (JFNA, na sigla em inglês), que reúne 155 representações de comunidades judaicas dos EUA.

Assim como instituições de caridade católicas e serviços luteranos, essa federação judaica mantém casas de repouso, hospitais, programas de cuidados aos idosos e fornece refeições em domicílio, cursos de formação para o emprego, clínicas e serviços sociais para a família em todo país.

E os problemas financeiros que essas representações hoje enfrentam são enormes - enquanto os baby boomers estão envelhecendo - assim como as escolhas que os americanos têm de fazer entre financiar casas de repouso nos EUA ou escolas de enfermagem no Afeganistão. Se o país não crescer de maneira sustentada, o Afeganistão perderá.

William Daroff, diretor do escritório de Washington da JFNA, mencionou que, desde a crise econômica de 2008, as doações anuais às entidades judaicas não cresceram. Ao mesmo tempo, houve um aumento da demanda por serviços, cortes no sistema auxiliar de saúde e o bloqueio dos subsídios que contribuem para pagá-lo. "Pessoas que, há cinco anos, doavam aos nossos programas agora estão batendo na porta para serem também beneficiadas por esses mesmos programas", disse Daroff.

E ainda não vimos nada, explica Barbara Bedney, diretora de política pública da JFNA. "Até 2030, o número de adultos mais velhos - acima dos 65 anos - deverá duplicar na medida que os baby boomers forem envelhecendo", disse Bedney. "E um dos grupos de maior crescimento será o dos idosos com mais de 85 anos, que atualmente têm uma expectativa de vida maior, mas exigem cuidados ainda mais dispendiosos. Veremos o que acontecerá quando o grupo dos baby boomers chegar aos 80. A pesquisa sobre o Alzheimer mostra que cerca de 5,4 milhões de americanos de todas as idades tiveram a doença em 2012 e, até 2050, esse número superará os 15 milhões. Esse é um dos principais motivos pelos quais se prevê que o número de hóspedes em casas de repouso mais que dobrará nos próximos 30 anos nos EUA.

Além disso, muitos baby boomers, segundo Steven Wolf, assessor sênior de política fiscal da JFNA, "não estão minimamente preparados em termos financeiros" para cobrir os custos nos quais incorrerão quando pararem de trabalhar. Em uma idade em que terão ainda muitos anos de vida pela frente, o governo terá menos para oferecer-lhes, cada um deles terá menos filhos para assisti-los e as agências de serviços sociais estarão assoberbadas de pedidos de ajuda. Uma pesquisa feita em 2011 pelo Employee Benefit Research Institute concluiu que "uma considerável porcentagem de trabalhadores declara que praticamente não dispõe de economias ou investimentos". "No total, mais da metade dos trabalhadores (56%) declara que o valor total de suas economias e investimentos, excluindo o valor de sua primeira casa e planos de benefícios definidos, é inferior a US$ 25 mil."

Eles poderão pagar por uma internação hospitalar com recuperação em uma casa de repouso - ou cuidar de apenas um dos pais com Alzheimer. E tanto o próximo presidente quanto o Congresso concordam apenas com a necessidade de um plano de reequilíbrio fiscal no longo prazo, que certamente reduzirá os benefícios oferecidos nos EUA. Felizmente, dois terços dos baby boomers receberão algum tipo de herança ao longo da vida, o que ameniza esse golpe. Além disso, a geração dos baby boomers foi orientada para o voluntariado - e os EUA precisarão de muitos voluntários para cuidar dos mais velhos.

Cuidados

Na realidade, afirma Bedney, "pessoas que hoje assistem as próprias famílias informalmente proporcionam cerca de 80% dos cuidados aos idosos", fornecendo refeições aos pais ou tios ou levando-os de um lugar para outro e provendo assistência médica e remédios. Mas são inúmeros os problemas relacionados a esse tipo de assistência, acrescentou: "Perda de horas de trabalho, enorme desgaste e o declínio da saúde dessas pessoas". Até agora, os que cuidam de parentes têm sido em grande parte ignorados pelas autoridades, o que é um erro que devemos remediar pois "se fornecermos apoio aos que cuidam da família, permitiremos que os mais idosos 'envelheçam' em casa, sem precisar de uma instituição cara", diz Bedney. Na realidade, como qualquer pessoa que cuida da família pode dizer, isso não é nada fácil. "Um dos principais fatores de risco no tratamento de adultos mais velhos por parentes é o desgaste para a saúde dessas pessoas", acrescentou. "É como se você ajudasse uma pessoa a se levantar de maneira errada, e ambos caíssem."

Somando tudo isso, será fácil perceber por que motivo, na próxima década, os EUA precisarão ter um crescimento econômico mais coerente com a sociedade e, além disso, diz Daroff, dar maiores inovações em termos de política e tecnologia, que permitam ao país oferecer um cuidado maior aos idosos, principalmente aos que permanecem em casa, por um custo muito menor. Isso exigirá avanços como a fabricação de equipamentos para diagnóstico à distância em cada casa que permitam acompanhar o peso, a taxa de açúcar no sangue e a capacidade pulmonar dos pacientes e providenciem sua internação - ou roupas com sensores para o controle dos indicadores médicos nas 24 horas do dia.

As casas de repouso, as escolas de enfermagem ou os cuidados médicos no Afeganistão são os dilemas que os EUA terão de encarar nesta década, a não ser que o país tenha um crescimento real concreto. Mitt Romney fez um importante discurso sobre política externa, no qual afirmou que será mais enérgico em relação aos interesses dos EUA no exterior do que o presidente Obama e garantirá que este seja o "século americano".

É mesmo? Gosto da ideia de séculos americanos. Mas, parafraseando um antigo ditado, "uma visão de política externa sem um plano concreto que a permita financiar - e administrar todos os compromissos internos - é pura alucinação"./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É COLUNISTA

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