O próximo herdeiro do poder na Rússia

Enquanto a situação política interna não mudar, relações com o Ocidente continuarão imutáveis e ambíguas

Nina L.Khrushcheva, do Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2011 | 00h00

Numa recente entrevista, o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, disse que gostaria de disputar um segundo mandato nas eleições de 2012, mas não queria competir com o primeiro-ministro Vladimir Putin, que o colocou no poder. Essa disputa, ele sugeriu, prejudicaria a imagem e o bem-estar do país.

A declaração de Medvedev deve acabar com especulações sobre uma possível candidatura sua, mas mantém o suspense com relação a Putin. Muitos, particularmente no Ocidente, gostariam de ver Putin e seu autoritarismo irascível, antiocidental, saindo de cena.

Na verdade, nos últimos dez anos, a política externa russa tem tido como base a defesa e a desconfiança. A Rússia mantém relações complicadas com a União Europeia, que, por sua natureza, não constitui uma ameaça. Continua melindrada com a independência de países que a circundam, especialmente aqueles que estão política e geograficamente próximos do Ocidente. Mais de uma década após o fato, o Kremlin ainda condena a ampliação da Otan para a Europa Oriental, qualificando-a como uma ameaça à segurança.

A realidade, naturalmente, é que a Otan constitui uma ameaça à Rússia tanto quanto a Suíça. Mas não é o poder militar da Otan que o Kremlin de Putin considera alarmante; o problema real é o potencial da aliança para "engolir" a Moldávia ou a Ucrânia. Criar um precedente para a democratização do espaço pós-soviético é um cenário de pesadelo para Putin. Como nos tempos da União Soviética, a principal tarefa da elite hoje no poder é manter o regime econômico e político nas mãos de um círculo, criado para seu controle pessoal e benefício material. A política externa russa, como na época soviética, é uma extensão das prioridades domésticas oficiais.

O regime atual é claramente autocrático. Mas aspira a legitimidade democrática aos olhos dos cidadãos russos e da comunidade internacional. É com esse objetivo que Medvedev desempenha sua missão civilizadora - participando de fóruns mundiais, postando mensagens no Twitter, censurando a corrupção desenfreada e apoiando a "modernização" e o "estado de direito".

O resultado desta dualidade - um establishment autoritário e uma fachada democrática - é que a Rússia tornou-se uma terra de ninguém no campo geopolítico. Uma Rússia democrática pretenderia se igualar ao Ocidente e se inserir nas instituições ocidentais. Mas não interessa ao grupo de partidários de Putin, aqueles que dirigem, e se apossaram, da Rússia: o seu complexo industrial, militar e de segurança.

Naturalmente, essas pessoas já se integraram na Europa há duas décadas - seu dinheiro está em bancos europeus; possuem casas de férias no sul da França; seus filhos são educados nas escolas mais caras da Europa.

Assim, apesar da retórica dura, com frequência antiocidental, do atual regime, os dirigentes não estão absolutamente interessados em fechar a Rússia para o Ocidente. O que desejam é impedir a integração da Rússia, pois isso significará o fim da sua dinastia.

Mas, para sustentar a farsa de uma Rússia forte e próspera, rebelando-se contra as predações e a hipocrisia do Ocidente, o regime não pode ser tão autoritário quando o próprio Putin desejaria. Se assim fosse, os bancos suíços e as organizações internacionais fechariam suas portas. De modo que os patrocinadores do regime têm um grande interesse em manter o seu lado "democrático".

O Ocidente, apesar dos anos de experiência no trato com os soviéticos, ainda acredita neste comportamento, especialmente agora, com Medvedev mostrando uma terna face democrática.

Em junho, discursando no Fórum Econômico de São Petersburgo, ele fascinou a plateia, mostrando-se simultaneamente um homem de vanguarda e ao mesmo tempo banal: atacou a corrupção, prometeu que a Rússia não está "criando um capitalismo de Estado", e prometeu reformas legais e federais.

O Fórum Econômico de São Petersburgo destina-se principalmente ao consumo internacional. Se banqueiros e investidores ocidentais desejam comprar uma panaceia, ele serve para isso. Mas ninguém deve sair de eventos como este achando que qualquer coisa que Medvedev afirme significa que a Rússia está mudando.

O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, normalmente um severo crítico da Rússia, esteve em Moscou no mês de março, aparentemente para convencer Putin a desistir de uma candidatura em 2012. Um mês depois, falando com Putin por telefone, Biden convidou-o a visitar Washington. Os EUA apoiam Putin nas eleições? Ou, reconhecendo a importante história do premiê, os americanos pretendem convencê-lo a deixar o poder? Ninguém sabe.

Enquanto a situação política interna na Rússia não mudar, as relações com o Ocidente continuarão imutáveis e ambíguas. Putin, entretanto, seria mais prudente se ouvisse Biden, que, segundo rumores, teria oferecido ao premiê russo cargos internacionais importantes.

Afinal, Putin conhece muito bem o velho manual soviético: ele poderá ter o mesmo destino de velhos agentes da KGB.

O temido chefe da polícia secreta, Lavrenti Beria, que operava o aparelho repressivo no governo de Joseph Stalin, foi executado pelo sistema que ele próprio aperfeiçoou.

Nestes dez anos no poder, Putin consolidou e fortaleceu as forças de segurança, intimidou e aprisionou oponentes e amordaçou a mídia e os tribunais. Se não se retirar ou se afastar para que a Rússia consiga progredir, o sistema que criou pode ainda voltar-se contra ele. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É AUTORA DO LIVRO "IMAGINING NOBOKOV: RUSSIA BETWEEN ART AND POLITICS", É PROFESSORA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS NA THE NEW SCHOOL E MEMBRO DO INSTITUTO DE POLÍTICA MUNDIAL EM NOVA YORK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.