Matt Rourke/AP
Matt Rourke/AP

O próximo passo de Hillary

A dois meses da posse de novo governo nos EUA, especulações crescem

GAIL COLLINS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2012 | 02h05

"Talvez eu faça um programa sobre decoração", disse Hillary Clinton. Isso foi algumas semanas antes da eleição. Ela retornava de avião de uma viagem para o Peru e se referia - sem muito entusiasmo - a um assunto que começou a obcecar o mundo político americano tão logo os votos da eleição presidencial foram contados: Hillary vai disputar a candidatura democrata em 2016?

Faltam mais de dois meses para a posse do novo governo. Mas as especulações já estão a todo vapor. Na sexta-feira o site de notícias Politico informou que o Public Policy Polling tem uma pesquisa mostrando que se o caucus de Iowa fosse realizado hoje - uma ideia aterrorizadora - Hillary obteria 58% dos votos e o vice-presidente Joe Biden, 17%.

Diariamente, as pessoas chegam a Hillary e dizem que ela tem obrigação de se candidatar para os EUA terem sua primeira mulher presidente.

"Sim, eles dizem isso", ela confirma rindo. Hillary faz muitas variações do tema "não acho" ("Oh, eu já descartei a possibilidade, mas você me conhece. Todos insistem em me perguntar. Descarto a ideia, mas continuo a ser questionada"). E também usa milhares de formas diferentes para dizer "não sei" ("Não tenho a mínima ideia do que vou fazer em seguida"). O que ela não faz é usar a linguagem do "se indicada não vou fugir", que encerraria a conversa. Em vez disso, ela desvia a conversa para falar de tudo o que pretende fazer quando deixar o cargo de secretária de Estado, e está na hora. O que levou-a a mencionar seus programas de TV favoritos, que têm a ver com compra de casa e reforma do lar.

O predileto é Love It or List it, programa em que um casal insatisfeito com sua residência atual sai à procura de novas casas, enquanto um decorador reforma seu velho lar. A trama, no geral, é sempre a mesma e de certa maneira um pouco "Clintonesca". Os encarregados da reforma ou encontram cupins ou uma lareira com problema: a procura da casa é um fracasso. Todo mundo fica transtornado. Mas depois de muito trabalho e do último comercial, há um final feliz.

"Acho que é um tranquilizante", diz ela. Hillary parecia um pouco lenta e cordial como ficam as pessoas com grande falta de sono. Ela estava sentada na pequena sala que serve como seu espaço privado no avião do Departamento de Estado. Uma acomodação modesta, com espaço suficiente para uma mesa e um pequeno sofá-cama. Você acharia que alguém que passa muitas horas no avião teria um pouco mais de conforto.

Valorização. Durante o dia que passou no Peru, Hillary fez vários discursos e concedeu inúmeras entrevistas à TV, visitou uma fábrica têxtil, participou de uma conferência sobre valorização das mulheres e, à noite, reuniu-se com o presidente Ollanta Humala e a mulher dele, Nadine Heredia. "Foi um longo jantar, mas tivemos uma ótima conversa", ela afirmou, descrevendo o presidente, a mulher dele e outras autoridades com quem conversou, incluindo o ministro do Desenvolvimento e Inclusão Social do Peru, que qualificou como "muito inteligente". Hillary é da escola de relações pessoais em política externa. Seu enfoque da diplomacia cotidiana não é diferente da maneira como ela estabeleceu sua base como candidata ao Senado dos EUA. Lembram quando ela saiu pelo mundo em busca de informações e opiniões a respeito da sua candidatura? E foram muitas vezes. "Assim, na noite do jantar, nos sentamos e tomamos alguns drinques. Éramos oito ou nove e ficamos conversando", disse, ao relatar a noite. "Quando surge alguém como ele, uma pessoa com bons princípios, não importa sobre o que se está falando."

Se Hillary disputar novamente a presidência, ela certamente será a candidata mais bem preparada na história americana: alguém que viveu na Casa Branca, foi senadora, uma mulher que conhece basicamente todos os chefes de Estado do mundo e também tem uma opinião firme sobre os méritos do ministro peruano do Desenvolvimento e Inclusão Social.

Biden pode, provavelmente, chegar perto. Mas não vamos falar sobre ele enquanto não soubermos o que Hillary fará. Toda essa experiência significa que ela seria uma excelente presidente? Quem sabe? Os americanos estão tentando descobrir que qualidades devem procurar num candidato e ainda não temos uma ideia a respeito. Os republicanos estavam certos de que chegara o momento para um governador que se tornou um empresário bem sucedido, mas talvez não.

Ao assumir o governo, George Bush pai estava mais bem preparado do que Barack Obama, mas reelegemos o que tinha um currículo mais curto. E as pessoas gostariam de uma presidente Hillary do mesmo modo que gostaram da mulher que perdeu a indicação, que nos conquistou com sua formidável capacidade para se recuperar do desastre? Sempre me perguntei como ela vê o desenrolar da própria vida.

Primeira-dama controvertida, primeira-dama traída e primeira-dama amada. Candidata, sem experiência em política, ao Senado de Nova York. Candidata presidencial fracassada e depois ícone internacional. O tema, foi o que me pareceu, é jogar com as cartas que recebe. Hillary olhou-me fixamente por alguns segundos. "Eu escolhi as minhas cartas", disse com firmeza. "Eu as escolhi na medida das minhas capacidades. E vamos para a próxima jogada."

Então a pergunta é, qual será a próxima jogada que ela escolherá? Como todos sabem, o tempo remanescente de Hillary no gabinete é limitado. Há muito tempo ela avisou ao presidente Barack Obama que desejava deixar o posto antes do término do seu mandato. "Obviamente, se ele quer ter alguém confirmado, entendo isso. Mas não vai demorar muito mais."

Descanso. Então ela vai descansar. Embora haja muitos assuntos sobre os quais Hillary discute com paixão, neste momento existem poucos que a deixam tão entusiasmada quanto o desejo de não fazer nada. "Estou esperando ansiosamente pelo próximo ano", afirma. "Quero simplesmente dormir, me exercitar e viajar por prazer. E relaxar. Parece algo tão trivial, mas não faço isso há 20 anos. Quero ver se consigo realmente descansar. Eu me exercito e outras coisas mais, mas não o faço o suficiente, não exagero porque não posso gastar toda a minha energia nisso." Observe que estamos a menos de um minuto do seu refrão de não fazer nada e ela já planeja se exercitar.

Parece razoável supor que, neste momento, o desinteresse de Hillary por uma disputa presidencial é autêntica. Apesar de sua famosa capacidade de dormir quando deseja - mesmo neste sofá-cama do avião, ela esta realmente cansada. E, aos 65 anos, não tem como saber de que maneira seu corpo poderá reagir quando ela deixar de puni-lo.

Se Hillary persistir no seu plano de não pensar em nada durante um ano, isso vai manter congeladas as especulações presidenciais para 2016, pelo menos do lado democrata. E seria um serviço para o público americano, que precisa de uma pausa. De modo algum, devemos ser forçados a pensar quem gostaríamos de ver nos debates daqui a 47 meses. Embora vamos ter de passar um longo tempo ouvindo debates ininterruptos sobre Jeb Bush versus Paul Ryan.

Em Lima, Hillary discursou numa conferência intitulada "Power: Women as Drivers of Growth and Social Inclusion" (Poder: as mulheres como condutoras do crescimento e da inclusão social) usando um terninho preto e camisa brilhante. O que despertou algumas lembranças.

Uma de suas contribuições para a causa das mulheres americanas na política foi usar exatamente a mesma roupa todos os dias durante sua primeira campanha para o Senado. Depois de um tempo, ninguém falava mais sobre seu vestuário e eu imaginei um futuro glorioso em que as mulheres que disputam um cargo podem simplesmente colocar seu terninho e dirigir-se à porta. Mas, quando Hillary disputou a nomeação para presidente, ela variou o guarda-roupa. Sempre achei isso uma pena, mas ela disse que estava apenas cansada de usar a mesma roupa.

Na conferência, Hillary disse à plateia que acabara de ler uma revista de decoração que continha uma reportagem de 20 páginas sobre os têxteis dos Andes, um exemplo clássico de grandes negócios nascendo das artes femininas. Durante um longo tempo, disse Hillary, falando sobre dar oportunidade às mulheres, "pude ver alguns olhos indiferentes". Mas agora, continuou, "as pessoas começam a ver que a valorização das mulheres conduz ao desenvolvimento econômico. Que as pessoas não defendam os direitos femininos porque é algo virtuoso, mas porque leva ao crescimento econômico".

Se ela de fato sair da política e continuar se movimentando, este provavelmente será o seu futuro: defender a causa feminina, continuar suas viagens em busca de informações e opiniões por todo o globo, manter conversas sérias sobre temas de grande importância e o mínimo de glamour.

No Departamento de Estado, ela tem feito um grande esforço para tentar garantir que a diplomacia americana promova a valorização das mulheres em muitas outras secretarias de governo. "Criamos algumas posições", ela disse. "Estamos envolvidos no processo quadrienal de revisão da diplomacia e desenvolvimento." Esta é Hillary Clinton. A mulher mais famosa do mundo, mas ainda seduzida pelo processo de revisão quadrienal do desenvolvimento e da diplomacia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É COLUNISTA E ESCRITORA

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