O público não se importa com os meios do sensacionalismo

Práticas condenáveis de redes de TV e jornais não são exclusivas dos tabloides britânicos

Howard Kurtz, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2011 | 00h00

Não é nada fácil conseguir com que um país inteiro se levante indignado com a falta de ética da mídia, mas o News of the World mostrou-se à altura disso. Ao grampear telefones de vítimas de atentados terroristas e o celular de uma menina de 13 anos desaparecida, encontrada morta posteriormente, o tabloide londrino tornou-se o símbolo desprezível do mau jornalismo a ponto de o magnata da mídia Rupert Murdoch ver-se compelido a fechá-lo no domingo. Mas essa débâcle é apenas um exemplo extremo de uma mídia que cada vez mais vai além dos limites éticos, e talvez de um público ávido por matérias sensacionalistas e que não se importa com a maneira como elas são obtidas.

O News of the World não descobriu exatamente o grampo telefônico. Em 2009, o jornal Cincinnati Inquirer pagou US$ 10 milhões e pediu desculpas à Chiquita Brands, depois que um repórter conseguiu mensagens de voz e por e-mail de um executivo da companhia "violando a lei" reconheceu o jornal.

Podemos olhar com desprezo os tabloides que pagam por reportagens, mas as redes americanas basicamente fazem a mesma coisa. Em 2008, a rede ABC pagou US$ 200 mil a Casey Anthony por uma entrevista exclusiva, com o objetivo de adquirir fotos e um vídeo da sua filha de 8 anos desaparecida, Caylee. Anthony foi acusada de negligência e de colocar em risco a vida da criança, e um mês depois foi indiciada pelo assassinato da filha.

Existem episódios de um jornalismo americano irresponsável que não estariam fora de lugar num tabloide britânico. Jornalistas fabricavam seu material, como Jayson Blair, do The New York Times e Jack Kelley, do USA Today. E os jornalistas despedidos ou suspensos por plágio são inúmeros, impossível de citá-los todos aqui. Mesmo organizações de mídia tradicionais adotaram a cultura do tabloide.

A linha que separa o jornalismo de altos princípios do imoral desapareceu. No final, é a indiferença do público sobre como reportagens obscenas são obtidas que cria esse mercado lucrativo. Foi somente quando essas táticas sórdidas foram empregadas contra britânicos comuns que políticos como o premiê David Cameron (que tinha contratado o ex-editor do News of the World preso na sexta-feira, envolvido no escândalo) sentiram-se compelidos a exigir uma investigação.

Rupert Murdoch procurou conter os danos à sua corporação fechando o jornal mais vendido da Grã-Bretanha. Se a ética fosse sua primeira preocupação, ele teria demitido seu principal executivo em Londres. Talvez fosse o caso de alguém colocar uma estátua do magnata da mídia na frente do prédio do News of the World, para nos lembrar dos riscos do jornalismo corrupto. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CHEFE DA SUCURSAL DA "NEWSWEEK" E DO "DAILY BEAST" EM WASHINGTON. É EX-REPÓRTER DO "WASHINGTON POST"

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