O putinismo e seus admiradores

Simpatizantes do presidente russo são mais numerosos do que se imagina - é bom Washington se lembrar disso

TIMOTHY, GARTON ASH, ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2014 | 02h02

Diz qual é a tua Ucrânia e te direi quem és. A crise ucraniana é um teste de Rorschach político não apenas para pessoas, mas também para países. O que a situação revela não é nada animador para o Ocidente: Vladimir Putin tem mais admiradores ao redor do mundo do que se imagina, para alguém que usa uma combinação neossoviética de violência e de grandes mentiras para desmembrar um Estado vizinho soberano.

Quando digo admiradores, não me refiro apenas aos governos da Venezuela e da Síria, dois dos seus partidários mais declarados. O homem forte da Rússia recebe o apoio tácito de algumas das potências mundiais mais importantes, a começar por China e Índia.

Durante uma recente visita à China, as pessoas me perguntavam continuamente o que estava acontecendo na Ucrânia e eu respondia indagando sempre a respeito da atitude chinesa diante da situação. Será que o país que defende de maneira tão persistente o respeito pela soberania e pela integridade territorial dos países, seja a ex-Iugoslávia ou o Iraque, e também se defronta internamente com algumas possíveis Crimeias (o Tibete ou Xinjiang), não se sente desconfortável pelo fato de a Rússia simplesmente se apoderar de parte de um país vizinho? Bem, respondiam, os aspectos positivos da crise ultrapassam os aspectos negativos.

Os EUA teriam outra distração estratégica (depois da Al-Qaeda, do Afeganistão e do Iraque) nos obstáculos ao seu "pivô" para a região Ásia-Pacífico e para desviar sua atenção da China. Esnobada pelo Ocidente, a Rússia se tornaria mais dependente de um bom relacionamento com Pequim. A Ucrânia, que já vende à China equipamentos militares de melhor qualidade do que a Rússia, até o momento, está disposta a compartilhar com seus grandes aliados asiáticos: ora, as novas autoridades ucranianas já garantiram sem estardalhaço às autoridades chinesas que o fato de Pequim não ter condenado a anexação da Crimeia não afetaria seu relacionamento futuro.

Por que não concordar com tudo isso? Além dessa realpolitik, me disseram, há também um componente emocional. Os líderes chineses, como Xi Jinping, que cresceu durante o governo de Mao, ainda se entusiasmava instintivamente pelo fato de outro líder não ocidental se opor ao Ocidente capitalista e imperialista.

Mas Putin não tem em mente a secessão imediata: apenas algo como uma grande Bósnia "finlandizada", um país neutro com uma versão de "federalismo" tão ampla que as regiões orientais se tornariam entidades no estilo da Bósnia, na esfera de influência russa.

Entretanto, essa crescente preocupação não chegou a esfriar a recepção calorosa ao chanceler russo, Serguei Lavrov em Pequim, na terça-feira. O presidente Xi disse que as relações entre China e Rússia "são as melhores possíveis" e "exercem uma função insubstituível na preservação da paz e da estabilidade mundial".

EUA, só lhes resta chorar! E Pequim está ansioso por recepcionar o presidente Putin na importante reunião de cúpula que se realizará no mês que vem. E não só a China. Um amigo meu, que acaba de regressar da Índia, observa que, com a provável vitória de Narendra Modi e a ascensão do "capitalismo clientelista" da Índia, amigos indianos liberais temem que a maior democracia mundial venha a cultivar uma versão própria de putinismo.

Uma revista satírica indiana chegou a sugerir que Putin foi contratado como "consultor estratégico chefe para a Índia com o objetivo de pôr fim, de uma vez por todas, à questão da Caxemira". A propósito, a Índia compra grande parte de suas armas da Rússia. E não só a Índia. Os dois outros parceiros da Rússia no chamado grupo dos Brics, Brasil e África do Sul, na resolução da Assembleia-Geral da ONU se abstiveram de criticar o referendo da Crimeia. Eles também acompanharam a Rússia expressando "preocupação" com a sugestão do chanceler australiano de que Putin poderia ser impedido de participar da reunião de cúpula do G-20, em novembro.

O que o Ocidente enfrenta agora é o desaparecimento de duas molas gigantescas. Uma, que tem sido comentada exaustivamente, é a mola do descontentamento da mãe Rússia pelo fato de o seu império estar encolhendo nos últimos 25 anos. A outra é a mola do descontentamento com os séculos de dominação colonial ocidental, que assume formas diferentes nos diferentes países do Brics e membros do G-20.

Evidentemente, eles não têm o incansável discurso monolítico da China sobre a humilhação nacional, desde as Guerras do Ópio da Grã-Bretanha. Mas, de uma maneira ou de outra, compartilham de uma profunda preocupação com a própria soberania, a resistência ao fato de americanos e europeus insistirem em lhes dizer o que é melhor para eles e certa satisfação instintiva em ver o tio Sam (sem falar no pequeno John Bull) sendo humilhado por esse russo agressivo. Viva o putinismo! Obviamente, esse problema não é imediato na Ucrânia, mas é outra questão escancarada pela crise da Europa Oriental. Nesse sentido geopolítico mais amplo, não devemos esquecer de que, à medida que avançarmos no século 21, haverá outras Ucrânias. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE DE OXFORD

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.