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O quarto de século árabe

Termo primavera ficou sem sentido após queda de ditadores no Norte da África; grupos seculares ainda precisam de apoio

THOMAS L. FRIEDMAN , THE NEW YORK TIMES*,

13 de abril de 2013 | 02h11

Imagino que agora seja oficial: o termo Primavera Árabe deve ser aposentado. Não há nada de primaveril em curso. O mais amplo, mas ainda vagamente esperançoso, "Despertar Árabe" também já não parece válido. Por isso que o estrategista Anthony Cordesman provavelmente está certo quando diz que agora é melhor falar de "Década Árabe" ou de "Quarto de Século Árabe" - um longo período de instabilidade no interior dos Estados e da região durante o qual a luta tanto pelo futuro do Islã como o futuro das nações árabes individuais se misturam num "choque dentro de uma civilização".

O desfecho: a ser determinado.

Quando a Primavera Árabe surgiu, a analogia fácil era a queda do Muro de Berlim. Ao que parece, a analogia correta é uma evento diferente na Europa central - a Guerra dos Trinta Anos do século 17 - uma horrível mistura de conflito político e religioso que acabou gerando uma nova ordem estatal.

Alguns dirão: "Eu bem que disse. Você não devia ter esperado isso dessa Primavera Árabe". Bobagem. As autocracias corruptas que nos deram os 50 anos anteriores de "estabilidade" eram apenas desastres em câmara lenta. Leiam o Relatório sobre Desenvolvimento Humano Árabe de 2002 da ONU sobre o que os déficits de liberdade, de reconhecimento dos direitos das mulheres e de conhecimento fizeram para os povos árabes ao longo dos últimos 50 anos. Egito, Tunísia, Líbia, Iêmen e Síria não estão se esfacelando porque seus líderes foram derrubados. Seus líderes foram derrubados porque, durante muitos anos, abandonaram uma parte significativa de seus povos. Metade das mulheres do Egito ainda não consegue ler. Foi nisso que deu a estabilidade dos últimos 50 anos.

De mais a mais, "nós" não desencadeamos a Primavera Árabe, e "nós" não poderíamos tê-la impedido. Esses levantes começaram com as buscas autênticas e temerárias de dignidade por jovens árabes que procuravam ferramentas e a liberdade para realizar seu pleno potencial num mundo onde podiam ver como todos os demais estavam vivendo. Mal eles removeram, porém, as tampas de suas sociedades buscando governos fundados numa verdadeira cidadania, viram-se competindo com outras aspirações liberadas - aspirações a ser mais islamista, mais sectário, ou a restaurar o status quo anterior.

Duas coisas me surpreendem, contudo. A primeira é o quanto a Irmandade Muçulmana tem sido incompetente. No Egito, a Irmandade presidiu uma espiral de morte econômica e um Judiciário preso a idiotices como investigar o comediante Bassem Youssef, o Jon Stewart do Egito, por ter alegadamente insultado o presidente Mohammed Morsi (vejam a gozação perfeita que Stewart faz de Morsi). Toda vez que a Irmandade teve a possibilidade de optar entre agir de maneira inclusiva e aumentar seu poder, ela optou pelo aumento do poder, privando-se da base ampla necessária para fazer as reformas econômicas dolorosas, mas necessárias.

A segunda surpresa? O quanto a oposição democrática tem se mostrado fraca. A tragédia da centro-esquerda árabe é uma história complicada, observa Marc Lynch, um especialista em Oriente Médio na Universidade George Washington e autor de The Arab Uprising: The Unfinished Revolutions of the New Middle East (A sublevação árabe: as revoluções inacabadas no novo Oriente Médio, em tradução livre). Muitos das elites políticas egípcias mais seculares, mais pró-Ocidente, que poderiam liderar novos partidos de centro-esquerda, disse ele, haviam sido "cooptados para o antigo regime" para seus próprios partidos semioficiais, nasseristas e islamistas liberais, e, portanto, "estavam amplamente desacreditados aos olhos do público". Isso deixou no cenário jovens que nunca haviam organizado um partido, ou uma miscelânea de expatriados, autoridades do antigo regime, nasseristas e islamistas liberais cuja única ideia comum era que o velho regime precisava terminar.

Desde que assumiu o poder no Egito, "a Irmandade presidiu o fracasso econômico e o colapso político", disse Lynch. "Eles perderam o centro, estão brigando com os salafistas e hoje retornaram aos 25% de sua base de apoio tradicional. Não há meio de eles vencerem uma eleição limpa, e é por isso que a oposição deve concorrer - e não boicotar - as próximas eleições parlamentares."

A velha ideia de que se deve esperar eleições até uma sociedade civil moderada ser construída é um comprovado fracasso. "Não se pode ensinar alguém a ser um grande jogador de basquete mostrando-lhe vídeos", disse ele. "Eles precisam jogar - e a oposição não se tornará efetiva até concorrer, perder e vencer novamente."

As antigas fontes de estabilidade que mantinham essa região unida secaram. Nenhuma potência externa com punhos de ferro deseja ocupar esses países porque tudo que se ganha hoje é uma conta. Nenhum ditador com punhos de ferro "pode controlar esses países porque seus povos perderam o medo. Os primeiros governos eleitos - liderados pela Irmandade Muçulmana - têm as ideias erradas. Mais Islã não é a resposta. Mais do Relatório de Desenvolvimento Humano Árabe é a resposta. Mas os jovens da oposição democrática ainda não têm líderes para aglutinar seu povo em torno dessa visão.

Com tudo isso, a opção menos ruim dos Estados Unidos é usar sua influência econômica para insistir em regras constitucionais democráticas, eleições regulares e abertura política, fazer tudo que podem para estimular líderes da oposição moderada a concorrer. Devem apoiar todo aquele que queira implementar o Relatório de Desenvolvimento Humano Árabe e se opor a quem não queira. Essa é a única maneira de essas sociedades criarem sua única esperança: uma nova geração de líderes decentes capaz de assegurar que esse "Quarto de Século Árabe" termine melhor do que começou. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É colunista

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