Justin Lane/Efe
Justin Lane/Efe

O que a cadeira diria a Clint Eastwood

Diálogos imaginários são técnica conhecida em psicoterapia, mas ator desperdiçou boa chance de se pôr no lugar de Obama

JONATHAN D. MORENO*, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2012 | 03h07

Muitas pessoas consideraram o discurso de Clint Eastwood na Convenção Nacional Republicana estranho, mas para mim foi estranhamente familiar. Quando ele colocou uma cadeira perto do pódio e usou-a como se num diálogo imaginário com o presidente, reconheci ali uma técnica de psicodrama - uma forma de psicoterapia que meu pai, o psiquiatra J. L. Moreno, desenvolvem há quase cem anos.

Os terapeutas com frequência utilizam a "cadeira vazia" como uma maneira de guiar um paciente no sentido de rever uma relação particular. "Esta é sua mãe", eles podem dizer. "O que você diria se ela estivesse aqui neste momento?"

A cadeira vazia pode ser um poderoso pré-aquecimento para uma situação problemática, uma maneira de concretizar emoções adormecidas, reprimidas ou abstratas numa relação importante ou problemática. Usado adequadamente, o método pode levar a pessoa a um insight.

Faz sentido o fato de Clint Eastwood, ator e diretor, ter pensado em usar a cadeira vazia como um mecanismo em seu discurso.

Como muitas outras técnicas de psicodrama, a cadeira vazia também é usada para preparar os atores de modo a se sentirem dentro dos papéis que interpretam. Algumas das técnicas desenvolvidas por meu pai foram comparadas às do famoso professor de interpretação Constantin Stanislavsky e a sua escola, que influenciaram muito especialmente o teatro americano.

No entanto, a partir de uma perspectiva terapêutica, o problema da cadeira vazia de Eastwood é que ele não se sentou nela e não se colocou no lugar do presidente. Com frequência as pessoas se sentem melhor quando têm a oportunidade de execrar alguém na cadeira vazia.

Certamente isso é agradável e chega a ser uma catarse conseguir dizer coisas sarcásticas e furiosas para alguém que nos feriu ou decepcionou. Talvez Eastwood tenha se sentido bem por ter essa oportunidade.

Mas poderíamos aprender mais se ele tivesse continuado e realmente se colocado na cadeira.

O que o presidente diria em resposta a alguns dos seus comentários? Por exemplo, quando ele procurou comparar a atitude do presidente com relação à guerra no Iraque à adotada no caso do Afeganistão (essa última sendo "algo que valeu a pena"), no papel do presidente o ator poderia se ver compelido a sublinhar que a guerra do Afeganistão foi iniciada pelo presidente George W. Bush e ele a apoiou como necessária para esvaziar os campos de treinamento da Al-Qaeda. Talvez as opiniões de Eastwood se tornassem mais magnânimas se tivesse se colocado no papel do presidente.

Assim, ele desperdiçou um momento terapêutico e educativo importante do qual nosso sistema político paralisado poderia se beneficiar: colocar-se no papel da outra pessoa que critica e chegar a entender o ponto de vista dela "de dentro".

Os democratas não estão necessariamente mais predispostos a essas ideias. No auge da Guerra do Vietnã, meu pai propôs ajudar o presidente Lyndon B. Johnson e o líder norte-vietnamita Ho Chi Minh a sentirem as pressões que cada um estava sofrendo, conduzindo-os num psicodrama.

Talvez as mortes de tantas dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças pudessem ter sido evitadas. Mas meu pai foi bruscamente rechaçado por Bill Moyers, então assessor de imprensa da Casa Branca, que lhe informou que diplomacia não era um psicodrama. Mas naturalmente qualquer pessoa que pratique ou estude a história da diplomacia sabe que muitas vezes ela é exatamente isso.

Os EUA perderam a chance de um momento psicodramático na convenção republicana. Péssimo. Isso realmente teria me causado muito alegria. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É FILÓSOFO E HISTORIADOR ESPECIALIZADO EM BIOÉTICA E SEGURANÇA NACIONAL E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DA PENSILVÂNIA

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