Damon Winter/The New York Times
Damon Winter/The New York Times

O que a democracia tem a ver com a conferência de Biden? leia análise

China e Rússia defendem a narrativa quixotesca de que são tipos diferentes de democracias

Anthony Faiola / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2021 | 05h00

Estes são tempos sombrios para a democracia: 73 países testemunharam uma erosão da liberdade em 2020, a maior em 15 anos. Em 2021, a tirania triunfou sitiando ativistas de Mianmar ao Sudão. Enquanto isso, jatos chineses cruzam Taiwan e tropas russas batem na porta da Ucrânia.

Nesse cenário, a cúpula de Joe Biden cumpre a promessa de presidir um encontro internacional para defender o mundo do autoritarismo, combater a corrupção e ampliar os direitos humanos. Mas ele corre o risco de morrer na praia. 

Apesar de suas boas intenções, o encontro é ingênuo e arriscado, por conta de seu formato preconceituoso e exclusivo de convidados. A lista da Casa Branca omite países como Bolívia e Serra Leoa, mas dá boas-vindas a Iraque e Paquistão, com históricos piores, expondo o governo americano a críticas de que os convites seguiram interesses estratégicos. Os críticos também citam os próprios problemas dos EUA com a democracia, como as restrições ao direito ao voto e a ação dos republicanos aliados de Donald Trump. 

Mas talvez a questão seja empurrar o ponteiro da democracia de volta para a direção certa. “O pior cenário não é o tiro sair pela culatra, mas que o encontro sirva para pouca coisa”, disse Steven Feldstein, do Carnegie Endowment for International Peace.

Não é à toa que os maiores detratores da cúpula são China e Rússia. As autoridades chinesas classificaram o encontro como uma “piada”. Enquanto isso, os russos planejam atacar a Ucrânia. Os dois países defendem a narrativa quixotesca de que são simplesmente tipos diferentes de democracias. 

Vestir o autoritarismo com o manto da democracia é uma aula do tipo de desinformação que Biden pretende enfrentar. Mas a lista de convidados mina a mensagem. A Polônia, por exemplo, é convidada, apesar do retrocesso que vive. Os EUA precisam dos poloneses para enfrentar Belarus e Rússia.

O mesmo ocorre com no convite à Índia e ao Paquistão, mas não a Bangladesh. “Esse cinismo mina a noção de que a cúpula é sobre um propósito comum”, disse Mihir Sharma, colunista da Bloomberg. “Isso dará a países como a Índia a sensação de que não importa que as credenciais democráticas erodam com o tempo, os EUA sempre os chamarão de democracia porque precisam deles.”

 

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