O que a Rússia fez na Ucrânia?

Ao não classificar como 'invasão' as ações do Kremlin, o Ocidente não precisa reagir

TRUDY, RUBIN, THE PHILADELPHIA INQUIRER, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2014 | 02h03

Em 1949, George Orwell publicou o livro 1984, seu famoso retrato de um regime totalitário cujo "Ministério da Verdade" produz uma propaganda oficial chamada de "novilíngua", invertendo os fatos históricos.

A novilíngua deu sinais de estar viva e passando muito bem em Moscou, nas últimas semanas, onde o presidente Vladimir Putin negou categoricamente a existência de soldados russos no território da Ucrânia.

Mais perturbador ainda é o fato de os líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), reunidos no País de Gales na semana passada para debater a situação, terem se recusado a denunciar a agressão de Putin como "invasão".

Tal fracasso garantiu que o líder russo emergisse como vencedor da cúpula, embora nem estivesse presente. E, praticamente, garantiu que o cessar-fogo temporário definido entre Kiev e os rebeldes pró-Rússia não vai durar muito.

Como Orwell bem sabia, a linguagem desempenha um papel fundamental na guerra. A máquina de propaganda de Putin tem sido fundamental para garantir o apoio interno às suas políticas para a Ucrânia e também nas províncias de maioria étnica russa no leste do país. Ao mesmo tempo, a relutância do Ocidente em desafiar a narrativa de Putin prejudicou os esforços da Otan para impedir o desmembramento da Ucrânia.

Quando os russos eram capturados na Ucrânia ou seus corpos eram mandados para casa, o Kremlin insistia que tratavam-se de "voluntários" que tinham cruzado a fronteira acidentalmente. As mães dos mortos foram silenciadas, os túmulos ficaram sem marcação e os poucos jornalistas russos que investigaram a história foram atacados fisicamente.

Dentro da Rússia, o Kremlin assumiu controle total de todas as emissoras nacionais de TV, fonte de notícias da maioria dos russos. No leste da Ucrânia, agentes de Putin cortaram o sinal das emissoras ucranianas e, com isso, a única fonte de notícias da população é a propaganda transmitida por Moscou.

Isso significa uma dieta constante de histórias fabricadas e vídeos falsificados, mostrando Kiev como um bando de fascistas e nazistas ansiosos para matar os ucranianos de etnia russa. Esse tipo de propaganda permitiu ao presidente vender a anexação da Crimeia como uma operação de resgate. No entanto, pesquisas mostram que o público russo não está interessado numa invasão e, por isso, as emissoras russas negam categoricamente que soldados tenham entrado na Ucrânia.

O presidente dos EUA, Barack Obama, e outros líderes da Otan também se recusaram a chamar a invasão pelo nome que melhor a descreve. Com exceção dos líderes bálticos e poloneses, os representantes ocidentais tomaram todo o cuidado para evitar o termo. Como apontou o ministro lituano das Relações Exteriores, Linas Linkevicius, ao New York Times, "quando isso é descrito como menos do que uma invasão, temos a sensação de que não precisamos reagir".

As sanções contra a Rússia produziram impacto: sem elas, talvez Putin tivesse enviado dezenas de milhares de soldados à Ucrânia, em vez de apenas 1 mil ou 3 mil. Mas o líder russo desenvolveu claramente uma nova forma de guerra híbrida: usar o subterfúgio para confundir as potências ocidentais.

A chamada rebelião no leste foi coordenada por espiões russos, financiada e armada com recursos russos desde o início. Quando esses representantes russos se mostraram incompetentes e as forças ucranianas estavam prestes a extinguir a "rebelião", Putin levou à Ucrânia um número suficiente de soldados para fazer as forças de Kiev recuarem.

Se a Otan permitir que a Ucrânia se curve aos ditames de Putin, destruirá a ordem internacional pós-2.ª Guerra, que tinha como base a premissa de que nenhum país poderia invadir outro. No entanto, se a Otan continuar fingindo que não houve invasão, ela também pode fingir que nada mudou.

Uma rejeição da novilíngua de Putin por parte da Otan teria aberto as portas para um compromisso mais forte com a proteção aos poloneses e aos países bálticos contra a agressão russa. Tal proteção exigiria a presença de bases permanentes da Otan nesses países. Em vez disso, a Otan propôs a instalação de uma pequena força de resposta rápida que terá pouco efeito contra a guerra de desinformação de Putin.

A Otan rejeitou a opção das bases em razão de um acordo de 1997 com a Rússia, que determina que "forças de combate substanciais" não seriam reunidas na Europa Central e Oriental. Mas, ao invadir a Ucrânia, Moscou violou abertamente outro acordo, o memorando de Budapeste de 1994, que obriga o país a respeitar a integridade territorial ucraniana.

A não ser que Obama e outros líderes da Otan confrontem Putin por suas ações, e não por suas palavras, o líder russo se sentirá livre para levar sua forma híbrida de guerra a outros países, com a segurança de poder negar os próprios atos diante de seu povo e do mundo inteiro. Ao comprar a novilíngua de Moscou, a Otan deu a Putin carta branca para continuar desestabilizando a Europa - e destruindo a Ucrânia. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA E EDITORIALISTA

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