Polícia da Colômbia / Reuters
Polícia da Colômbia / Reuters

O que acontecerá com o maior cartel da Colômbia após a queda de seu líder? Leia a análise

Com a prisão de Otoniel, há três cenários: luta interna, aumento da violência e espaço para os cartéis mexicanos

Irene Escudero*, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2021 | 05h00

A prisão do traficante de drogas mais procurado da Colômbia, Dairo Antonio Úsuga David, vulgo Otoniel, abre várias incógnitas sobre o futuro do grupo criminoso que ele liderava, o Clã do Golfo, e sobre a situação da segurança nas regiões onde atua. Otoniel, segundo as palavras do presidente da Colômbia, Iván Duque, era“ o narcotraficante mais temido do mundo”, e sua captura é “o golpe mais duro que já foi desferido ao narcotráfico neste século em nosso país e só é comparável à queda de Pablo Escobar nos anos 1990. Políticos de todas as esferas e analistas concordaram em reconhecer o sucesso deste governo nesta que é uma vitória para o conservador, embora, como diz o analista Sergio Guzmán, diretor da Colombia Risk , uma consultoria de risco político, “isso não muda a guerra contra o narcotráfico, isso não move a agulha”.

Além da captura e responsabilização dos culpados por crimes de tráfico de drogas e outras atividades criminosas relacionadas a ela, uma luta contra o narcotráfico deve estar muito focada no controle da demanda por drogas no mundo, um discurso destacado pelo secretário de Estado americano, Antony Blinken, ainda esta semana durante sua visita à Colômbia.

Otoniel era até sábado o líder do Clã do Golfo, ou Autodefesas Gaitanistas da Colombia (AGC), grupo dedicado ao narcotráfico e herdeiro dos paramilitares Autodefesas Unidas de Colômbia (AUC), que atualmente conta com cerca de 2.000 soldados e presença em mais de 300 municípios. Com a sua queda, “desaparece a hegemonia de uma família, os Úsuga, fundadores e chefes do Clã”, explicou à Efe o diretor da Fundação para a Paz e Reconciliação (Pares), León Valencia.

Mas isto não necessariamente significa o fim desse grupo criminoso, o maior do país. Pode haver dois cenários principais, um onde ele ficaria dividido e disperso e outro onde alguns de seus subordinados, certamente Jobani de Jesús Ávila, conhecido como "Chiquito Malo", coordenador das armas do grupo, “tome o controle e mantenha a unidade do clã", explica Valencia. O analista acredita mais na primeira opção.

Já o diretor do Colombia Risk se atreve a prever que três coisas podem acontecer: uma luta interna para saber quem assume a liderança do grupo e "talvez uma divisão desse cartel", ou que um "plano de armas" seja desenvolvido para assassinar policiais, como toda vez que um líder do AGC é capturado ou assassinado. Finalmente, há o caminho que abre a captura de Otoniel aos cartéis mexicanos na Colômbia, já que o detido era "um parceiro dos mexicanos e sua saída pode ser uma oportunidade para aprofundar seu controle vertical sobre o mercado de drogas".

Outra consequência direta desse golpe, apesar da importância de capturar vivo uma pessoa com 122 mandados de prisão e 6 condenações por homicídio qualificado, desaparecimento forçado e recrutamento de menores, entre outros, é que a violência aumentará.  "Acredito que isso significará um aumento da violência nas áreas rurais", diz Guzmán, já que é provável que a gangue comece a procurar os responsáveis por esta captura e isso significa que "começam os assassinatos. E chega um novo chefe para impor um novo regime de terror".

As AGC têm uma influência muito perceptível no noroeste do país, especialmente no norte de Antioquia e no Departamento (Estado) de Chocó, no Pacífico. Mas suas redes se estendem até o sudoeste, sempre intimamente ligadas a corredores de tráfico de drogas e outros negócios ilegais. Na luta para consolidar sua presença - luta que já dura mais de 15 anos - eles intimidaram comunidades inteiras, expondo-as a extorsões ou assassinatos seletivos, provocando deslocamentos em massa e confinando povos, principalmente indígenas e afrodescendentes.

Além disso, como Duque destacou no sábado, "Otoniel abusou repetidamente de crianças e adolescentes". As autoridades já estão trabalhando na extradição de Otoniel aos Estados Unidos, que chegou a oferecer até US$ 5 milhões por sua cabeça por tráfico de drogas e participação em um empreendimento criminoso. Mas na Colômbia haverá muitas contas pendentes incluindo o cumprimento das penas que estavam em andamento e poderiam chegar a a 40 ou 50 anos de prisão. Isso significa que "ele vai pagar uma pena nos Estados Unidos por tráfico de drogas, não por estupros de menores, recrutamento de menores ou assassinato de líderes sociais", resume Guzmán.

* É correspondente da EFE na Colômbia

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