O que aprendi com Reagan

Liderança do ex-presidente americano era definida por autenticidade com base em conjunto sólido de crenças

O Estado de S.Paulo

21 Maio 2012 | 03h04

Certa manhã bem cedo, no primeiro ano de Ronald Reagan na presidência, eu caminhei a passos largos com ele do Salão Oval até o comboio no passeio circular do Gramado Sul. Estava programado para fazer minha primeira corrida de limusine sozinho com o presidente na qualidade de assessor sênior.

Nossa incumbência naquele dia era o presidente anunciar sua iniciativa de parcerias público-privadas. Fazia parte das minhas responsabilidades naquele primeiro ano desenvolver e administrar o que se tornou o projeto político doméstico favorito de Reagan. O que se desenrolou naquela corrida, porém, foi bem mais que o típico informe político feito a um presidente a caminho de um compromisso.

Reagan falou durante todo o percurso, fazendo uma explicação ininterrupta sobre as raízes do sistema de crença que havia moldado sua liderança. Uma coisa sobre Reagan que as pessoas sempre sabiam era qual sua posição sobre as principais questões de sua presidência. No clima político atual, muitos eleitores não conseguem descobrir esse tipo de conjunto sólido de crenças, seja em Mitt Romney ou em Barack Obama.

Por isso, vale a pena observar a liderança de Reagan e três maneiras-chave em que a autenticidade a definia: 1) Adesão inabalável a valores. Duas palavras geralmente usadas para descrever Reagan eram "otimista" e "teimoso". Observem que ele não somente tinha um sistema de crença (otimismo), como também se adequava a ele (obstinação).

Seu sistema de crença básico nasceu em duas partes. A primeira foi a arquitetura moral construída em sua infância. Em sua limusine, naquela manhã, Reagan contou-me o quanto a mãe o havia influenciado. Ela era uma pregadora ocasional, uma professora de Bíblia.

Seus primeiros valores deram-lhe uma bússola interna que ele consultava quase inconscientemente. Essas crenças não eram balizadas por um credo específico ou uma religião organizada; eram dele. A segunda parte foi desenvolvida quando adulto, em sua jornada política de organizador sindical a conservador ferrenho. Essa "parte B" tinha como foco o que ele veio acreditar que era o papel fundamental correto do governo - pequeno e não intrusivo - e a posição dominante do setor privado. Daí seu interesse nas parcerias público-privadas.

As crenças de Reagan o tornaram regular, honesto, confiante e repetitivo, mas não enfadonho. Seu eleitorado sabia o que esperar. O que se via em Reagan era o que se recebia.

2) Um alto grau de autoconhecimento. Os teleprompters não conseguem esconder falhas no autoconhecimento. A lente da câmera amplifica cada elemento de insegurança pessoal. Reagan, como líder, sentia-se confortável consigo, de modo que as pessoas geralmente se sentiam confortáveis com ele.

3) O poder de comunicação não verbal e verbal. Com frequência diz-se que o público é conquistado nos primeiros oito segundos em que se entra numa sala, e pode-se perdê-lo nos primeiros oito segundos de sua fala. É verdade que Reagan havia burilado suas habilidades de comunicação não verbal em estúdios de cinema e sob as luzes do palco, mas muito desses recursos eram naturais e fluidos para ele. Fundamentalmente, é importante relacionar a habilidade do "grande comunicador" a seu sempre presente sistema de crença.

Quando Reagan homenageou os astronautas do ônibus espacial Challenger que se acidentou, e repetiu aquelas famosas linhas do poema de John G. Magee, High Flight, tinha-se a sensação de que ele podia sentir "as rudes amarras da Terra" afrouxando - porque ele sentiu. Ele vivia nesse tipo de mundo. Ele acreditava, como o poema conclui, que aqueles que haviam perecido naquela missão espacial "tocariam a face de Deus".

As habilidades oratórias de Reagan estavam diretamente relacionadas a suas crenças da seguinte maneira: ele sabia o que acreditava, e o que ele falava era o que acreditava. Não há melhor teste ou prova da capacidade de um líder de se comunicar que isso. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.