Doug Mills/NYT
Doug Mills/NYT

O que as palavras usadas pelo governo Biden dizem sobre a mudança da era Trump

'As palavras são importantes, o tom é importante e a civilidade é importante', disse Jen Psaki, porta-voz da Casa Branca

Michael D. Shear, The New York Times

03 de março de 2021 | 12h00

WASHINGTON - Dias depois de o presidente Joe Biden tomar posse, o Escritório de Gestão de Terras colocou uma paisagem cênica de um rio sinuoso no topo de seu site, que durante o governo Trump apresentava uma fotografia de uma enorme parede de carvão.

No Departamento de Segurança Interna, o termo "ilegal" está sendo substituído por "sem cidadania". O Departamento do Interior agora assegura que as menções a seus acionistas incluam pessoas "Tribais" (com "T" maiúsculo, como preferido pelos nativos americanos).

As duas palavras mais impopulares no léxico de Trump - "mudança climática" - estão novamente aparecendo em sites e documentos do governo; funcionários da Agência de Proteção Ambiental até começaram a usar a hashtag #climatecrisis ("crise climática") no Twitter.

E em todo o governo, referências LGBTQ estão surgindo em todos os lugares. Os visitantes do site da Casa Branca agora são questionados se desejam fornecer seus pronomes ao preencher um formulário de contato: ela/dela, ele/dele ou eles/deles.

É tudo parte de um esforço conjunto do governo Biden para mudar a cara do governo após quatro anos do presidente Donald Trump, em parte removendo a linguagem e as imagens que representavam suas políticas anti-imigração, anticiência e antigay, e as substituindo por palavras e imagens que sejam mais inclusivas e correspondam melhor às sensibilidades do atual presidente.

"Biden está tentando recuperar a visão dos EUA que existia durante a administração Obama, uma visão que era muito mais diversa, muito mais tolerante religiosamente, muito mais tolerante com diferentes tipos de disposições e apresentações de gênero",  disse Norma Mendoza-Denton, professora de Antropologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e autora de "Language in the Trump Era: Scandals and Emergencies" ("Linguagem na era Trump: escândalos e emergências").

A Dra. Mendoza-Denton disse que Trump buscou "refazer a realidade por meio da linguagem" durante um mandato tumultuado. Em seu livro, que escreveu com Janet McIntosh, da Universidade de Brandeis, a Dra. McIntosh escreveu que o ex-presidente "mudou algumas das expectativas mais profundas sobre a linguagem presidencial, não apenas no que diz respeito ao estilo, mas também a relação entre as palavras e a realidade".

Agora as autoridades no governo de Biden estão usando as próprias táticas de Trump para ajustar a realidade novamente, desta vez apagando as palavras que seu antecessor usou e retornando explicitamente as que foram banidas.

"O presidente foi claro para todos nós: as palavras são importantes, o tom é importante e a civilidade é importante",  disse Jen Psaki, porta-voz da Casa Branca. - E reunir o país, retomar nosso assento na mesa global significa virar a página das ações, mas também da linguagem excludente e muitas vezes xenófoba do último governo.

Alguma mudança na linguagem usada pelas agências governamentais não é incomum quando um novo governo chega a Washington. Além de seu poder simbólico, as revisões podem ajudar a inaugurar novas políticas. Permitir a frase "mudança climática" dá luz verde aos cientistas do governo, enquanto a proibição do uso de "ilegal" pode alterar os compromissos na vida real entre imigrantes e agentes de fronteira.

Mas raramente o contraste foi tão gritante como entre Biden e Trump. A revisão retórica está em andamento em todos os cantos do governo. À medida que os decretos executivos são redigidos, os comunicados à imprensa são modificados, dezenas de formulários federais são ajustados e os portais online são renovados.

Stephen Miller, que buscou mudanças semelhantes no início do governo Trump como seu principal conselheiro político, disse que a adoção do que ele chamou de linguagem politicamente correta por funcionários do governo de Biden reflete a importância de enquadrar questões importantes para o público.

Além das mudanças nos sites, ele observou que as ordens executivas de Biden foram preenchidas com palavras e frases que nunca teriam saído da boca de Trump, incluindo "equidade", "justiça ambiental", "caminho para a cidadania", "pró-escolha" e "imigrante sem documentos".

"A luta pelo léxico é, na verdade, a luta central", disse Miller, que escreveu muitos dos discursos de Trump e foi o arquiteto de seu ataque ao sistema de imigração. "O objetivo da equidade é levar a essa ideia de que os EUA são uma nação que acredita que todos tenham essa dignidade fundamental de tratamento. Mas o outro lado diria: ‘O que você chama de equidade, eu chamo de discriminação’"

Funcionários do governo Trump, como Miller, procuraram engendrar mudanças semelhantes na linguagem quando estavam no cargo. Miller lutou em 2017 pelo uso da frase "terrorismo islâmico radical" durante o discurso presidencial daquele ano no Congresso, argumentando que isso transmitia uma seriedade de propósito de Trump no combate ao terrorismo. Os críticos disseram que o uso da frase sugeria falsamente que todos os muçulmanos são terroristas.

O secretário de habitação e desenvolvimento urbano de Trump, Ben Carson, propôs remover a frase "comunidades inclusivas e sustentáveis, livres de discriminação" da declaração de missão do departamento. Mais tarde, ele recuou.

Para o governo Biden, a mudança de vocabulário foi imediata. Horas depois de assumir o cargo, oficiais responsáveis por atualizar o site da Casa Branca removeram páginas destacando a Comissão 1776 de Trump, que comparou o progressismo ao fascismo e atacou os liberais que afirmam que a fundação dos Estados Unidos foi manchada pela escravidão.

Ao mesmo tempo, os assessores do presidente restauraram a versão em espanhol do site, que havia sido retirada do ar pela equipe digital de Trump, e contrataram intérpretes de linguagem de sinais para a transmissão ao vivo do boletim diário do secretário de imprensa. As referências a presidentes como "ele" foram alteradas para "eles" em algumas partes do site.

No Departamento de Estado, o novo secretário, Antony J. Blinken, agiu rapidamente para apagar o que Mike Pompeo, seu antecessor, chamou de uma declaração de "espírito" para diplomatas dos Estados Unidos, que incluía o ideal de ser um "campeão da diplomacia americana" e de trabalhar com "profissionalismo infalível". Muitos membros de longa data do departamento viram nisso um insultuoso aviso ao chamado "deep state" que Pompeo e Trump acreditavam estar minando sua agenda.

Em seu lugar, Blinken emitiu uma declaração que dizia que "o espírito do serviço público permeia a força de trabalho" e declarou que os funcionários do Departamento de Estado "não precisam de um lembrete dos valores que compartilhamos".

Os servidores do Escritório de Gestão de Terras, além de reformar seu site, restauraram a linguagem na parte inferior de todos os documentos, incluindo a afirmação de que a missão da agência é "sustentar a saúde, a diversidade e a produtividade das terras públicas dos EUA".

Principal autoridade de comunicação do Departamento do Interior, Melissa Schwartz disse que tais mudanças fazem parte de uma nova política de encorajar vozes que não foram ouvidas durante o governo Trump.

"As palavras que escolhemos são críticas e definem o tom: sejam comunicados à imprensa, mídias sociais ou mensagens para todos os funcionários", disse ela. "No Departamento do Interior, isso significa não apenas reconhecer o impacto desproporcional que a crise climática está tendo nas comunidades de cor e povos indígenas, mas abraçar a ciência e as soluções que nos ajudarão a enfrentá-la."

Funcionários do governo Biden dizem que o esforço para modificar a linguagem usada reconhece as mensagens poderosas que certas palavras e frases enviam.

O termo "ilegal" está inscrito nos estatutos de imigração e tem sido amplamente usado no governo por décadas para descrever imigrantes, inclusive aparecendo em memorandos de autoridades da era Obama. Mas tem estado cada vez mais no centro de um cabo de guerra ideológico que questiona se ele estigmatiza injustamente os imigrantes e se os que vivem nos Estados Unidos sem autorização devem ser chamados de "sem documentos" em vez de "ilegais".

Três anos atrás, o procurador-geral Jeff Sessions ordenou aos funcionários de seu departamento que usassem o termo "estrangeiro ilegal" em todas as comunicações ao descrever alguém que não chegou aos Estados Unidos por meios legais. Em um memorando , funcionários do Departamento de Justiça escreveram que "o termo ‘sem documentos’ não se baseia no código dos EUA e não deve ser usado para descrever a presença ilegal de alguém no país".

Agora, o governo Biden está invertendo explicitamente essa posição. Em 12 de fevereiro, membros do Serviço de Imigração e Cidadania, a agência que lida com essas questões, disseram que os funcionários não deveriam usar a palavra "estrangeiro" em "esforços de divulgação, documentos internos e na comunicação geral com as partes interessadas, parceiros e o público em geral". A mudança, disse o diretor interino da agência, "alinha nossas práticas linguísticas com as orientações do governo sobre o uso da terminologia de imigração pelo governo federal".

Poucos dias depois, a Casa Branca foi mais longe. Em sua proposta legislativa para uma revisão de imigração de longo prazo, Biden retirou a palavra "ilegal" da Lei de Imigração e Nacionalidade de 1965 e a substituiria por "não cidadão", uma sugestão que enfureceu os grupos anti-imigração.

"É meio orwelliano. É o que realmente é", disse Mark Krikorian, diretor-executivo do Centro para Estudos de Imigração, que defende limites à imigração. "A guerra contra a palavra ‘ilegal’ é uma continuação desse esforço para desestigmatizar a imigração ilegal que começou em meados da década de 1970. Em certo sentido, este é o ponto culminante desse processo."

Algumas mudanças ainda estão pendentes. O site do escritório de cidadania do Departamento de Segurança Interna, USCIS.gov, ainda traz a declaração de missão que os membros do governo Trump modificaram em 2018: "julgar razoavelmente os pedidos de benefícios de imigração" no lugar de "a promessa dos Estados Unidos como uma nação de imigrantes" . Isso pode mudar em breve.

Na Agência de Proteção Ambiental, os assessores de Trump retiraram do ar a parte do site dedicada às mudanças climáticas. Em meados de fevereiro, o endereço ainda não havia sido restaurado. Mas, dada a abordagem de Biden ao assunto, as autoridades disseram esperar que isso aconteça em breve.

Mas o Departamento do Tesouro já está avançando com os planos de colocar a abolicionista e ativista americana Harriet Tubman na nota de US$ 20, uma decisão que foi adiada durante o governo Trump.

No Departamento do Interior, os funcionários foram informados de que eles podem usar frases como "evidências baseadas na ciência" novamente. Em uma ligação com os funcionários de relações públicas da agência em 21 de janeiro, Schwartz tinha uma mensagem para seus colegas.

"A mudança climática é real e a ciência está de volta, e vocês devem se sentir à vontade para falarem sobre ambas em seus comunicados à imprensa", disse ela. "Eu vos liberto!".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.