O que cobrar da linha dura chinesa

A China vive um período semelhante à era Bush nos EUA e há várias questões que precisam ser colocadas na mesa durante a visita de Hu a Washington

Nicholas D. Kristof, The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2011 | 00h00

Quando Deng Xiaoping fez sua visita histórica aos EUA, em 1979, teve uma conversa com a atriz Shirley MacLaine. Segundo relatos, confirmados por Shirley esta semana, ela conversou com ele sobre sua visita à China durante a Revolução Cultural. E mencionou um encontro com um intelectual que fora enviado para trabalhar no campo, que lhe falou radiante das alegrias do trabalho manual e da oportunidade de aprender com os camponeses. Deng não gostou. "Ele estava mentindo", disse.

Com esse mesmo espírito rude, quero oferecer aqui um rápido roteiro de alguns assuntos que precisamos colocar na mesa durante a visita do presidente Hu Jintao, no momento em que as relações sino-americanas estão profundamente estremecidas e devem piorar.

O comércio está no topo das tensões. A China claramente vem mantendo sua moeda artificialmente desvalorizada (e provavelmente continuará com essa política) para preservar o emprego doméstico. Isto está desestabilizando o sistema internacional, mas não devemos exagerar o impacto sobre nossa economia. Os produtos chineses concorrem mais com produtos do México, Coreia do Sul e outros países. A China está roubando empregos desses países mais do que dos EUA.

As estatísticas comerciais também exageram no campo das exportações chinesas. Por exemplo, a China monta os iPhones, de modo que o valor integral do aparelho é contabilizado como exportação chinesa. Mas, na verdade, a China contribui com menos de 4% para o valor do iPhone, segundo o Instituto do Banco de Desenvolvimento Asiático. Japão, Alemanha, Coreia do Sul e EUA contribuem com parcela maior.

A questão dos direitos humanos é complexa. Hoje, os cristãos são menos perseguidos do que costumavam ser há alguns anos e o regime dá aos cidadãos comuns muito mais liberdade para viajar e um espaço individual mais amplo do que quando vivi na China, nas décadas de 80 e 90.

Mas, nos últimos anos, o Partido Comunista vem tratando com mais severidade dissidentes e minorias. A atitude arrogante, especialmente dos militares, envenena as relações com os EUA. A China atravessa um período semelhante à era Bush: falcões e radicais conquistaram mais espaço no cenário político. A conclusão é que as versões chinesas de Dick Cheney estão falando mais alto. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA E REPÓRTER ESPECIAL

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