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The Economist: O que deu errado na Nicarágua de Ortega?

Desde abril, quase 300 manifestantes foram mortos e o presidente, um ex-guerrilheiro, está cada vez mais parecido com a ditadura de Somoza

The Economist, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2018 | 03h00

Daniel Ortega, o presidente da Nicarágua, já foi louvado por terminar com quatro décadas de domínio da ditatorial família Somoza. Em 1979, ele foi fundamental na tomada do país pela Frente Sandinista de Libertação Nacional, de esquerda, e passou uma década lutando contra forças contrarrevolucionárias financiadas pelos EUA. 

Os sandinistas tornaram a educação pública gratuita, melhoraram o acesso aos cuidados de saúde e nacionalizaram as terras anteriormente pertencentes aos Somoza. Agora, no entanto, centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas em protesto contra Ortega, sua mulher e seus planos de sucessão. Quase 300 pessoas foram mortas desde o início dos protestos, em meados de abril (38 delas em 8 de julho) e milhares de outras ficaram feridas. O que deu errado?

As políticas econômicas dos sandinistas se mostraram desastrosas para o país e eles perderam nas urnas, em 1990 (garantindo para si a pilhagem de ativos nacionais enquanto saíam). No fim da década de 90, o partido entrou em um acordo de divisão de poder com o então presidente, apaziguou a Igreja Católica com a promessa de proibir o aborto e confraternizou com as elites empresariais. 

Daniel Ortega foi reeleito como presidente em 2006 e tem consolidado o poder desde então. Ele encheu os tribunais com seus adeptos, assumiu o controle de todos os ramos do governo e da maioria dos meios de comunicação, desmantelou a oposição e aboliu os limites do mandato constitucional. Além disso, ele tornou sua mulher, Rosario Murillo, sua vice-presidente e colocou filhos e confidentes no comando de uma rede de empresas. 

Os nicaraguenses concordaram: a economia crescia mais de 4% ao ano (a taxa mais rápida na América Central), o país era uma parte segura de uma região antes volátil e Ortega continuou apoiando programas sociais graças à generosa ajuda econômica da Venezuela.

O colapso econômico da Venezuela, que levou a uma redução na ajuda, mudou a situação. No dia 18 de abril, o governo nicaraguense anunciou que reduziria as aposentadorias e aumentaria as contribuições dos trabalhadores na tentativa de salvar o Instituto de Previdência Social que, segundo se projeta, ficará sem dinheiro no próximo ano. 

Os manifestantes que tomaram as ruas foram baleados pela polícia. Embora Ortega tenha desistido dessas reformas, os protestos haviam se transformado em um ataque total contra seu governo. Murillo chamou os manifestantes de “grupos minúsculos e tóxicos”. Mas o movimento é bem diferente disso. 

Centenas de milhares de pessoas aderiram às marchas contra o governo (em um país de apenas 6 milhões de habitantes), apoiadas pela Igreja Católica, pela aliança de empresários que antes apoiavam o governo e outros.

A violência na Nicarágua não deve terminar tão cedo. Ortega declarou, em 7 de julho, que não renunciará antes das eleições de 2021. Nessa ocasião, muitos acreditam que ele tentará instalar a mulher, Rosario Murillo, como presidente, criando uma dinastia governante com uma preocupante semelhança com a dos Somozas. 

Há quem compare a situação atual com a da Venezuela, onde os protestos para os quais faltava um líder em torno do qual se reunir, fracassaram em efetuar as mudanças. No entanto, o presidente Ortega não deve se preocupar demais com as fraquezas da oposição. Somoza agarrou-se ao poder pelo tempo que pôde, mas foi assassinado apenas um ano depois de fugir da Nicarágua. / Tradução de Claudia Bozzo

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