REUTERS/Marco Bello - arquivo
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O que deu errado no combate à pandemia na Flórida

Mesmo com vacinação em massa, Estado atinge pico de casos de covid com avanço da variante delta

Robert Gebeloff, Patricia Mazzei, Benjamin Mueller/ The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2021 | 15h00

O surto de coronavírus inesperado e indesejável que avança hoje nos Estados Unidos atingiu com mais força os Estados que demoraram para adotar a vacinação. A Flórida é um caso à parte.

Apesar de terem se recusado a impor ordens de lockdown e de uso de máscaras, os líderes estaduais adotaram como prioridade vacinar pessoas idosas vulneráveis. O governador Ron DeSantis (republicano) abriu postos de vacinação em massa e enviou equipes para comunidades de aposentados e lares de idosos. Jovens também fizeram filas para se vacinar.

DeSantis e especialistas em saúde pública esperavam um aumento dos casos neste verão, porque as pessoas se aglomeram em locais fechados e com ar-condicionado. Mas o que aconteceu foi muito pior: os casos entraram numa espiral descontrolada, atingindo picos mais altos do que a Flórida já tinha registrado. Houve muitas internações hospitalares e mortes em número consideravelmente maior do que os atingidos atualmente em qualquer outro ponto do país.

"É um momento muito triste para todos nós", disse Natalie Dean, bioestatística na Universidade Emory que até recentemente trabalhava na Universidade da Flórida e acompanhou de perto a pandemia no Estado. "Era realmente difícil imaginar que voltaríamos a este ponto."

A situação da Flórida é uma advertência de como se enfrentar a atual fase do coronavírus. Os Estados Unidos usaram as vacinas como arma básica contra a pandemia. Mas a Flórida mostra que mesmo um Estado que fez um importante esforço de vacinação —está em 21º lugar entre os Estados e o distrito federal, Washington, que vacinaram pessoas de todas as idades com pelo menos uma dose— pode ser esmagado pela variante delta, atingindo níveis assustadores de internações e mortes.

"Claramente, as vacinas estão mantendo a maioria das pessoas fora dos hospitais, mas não estamos criando a imunidade de rebanho que as pessoas esperavam", disse DeSantis em entrevista coletiva na última semana. "Há uma enorme porcentagem de pessoas —adultas— que foram vacinadas, no entanto ainda tivemos uma onda."

Os necrotérios e crematórios estão lotados, ou quase. As empresas de serviços públicos de Orlando e Tampa pediram aos moradores para reduzirem o uso de água, para que o oxigênio líquido, que é usado no tratamento da água, possa ser conservado para os hospitais. Na sexta-feira (27), a Flórida registrou uma média de 242 mortes pelo vírus por dia, quase tantas quanto a Califórnia e o Texas somados, embora alguns Estados ainda tenham uma porcentagem per capita maior, segundo dados de saúde pública analisados pelo New York Times.

Os dados da pandemia na Flórida, mais esparsos desde que o Estado encerrou a emergência contra covid-19 declarada em junho, revelam apenas informação limitada sobre quem está morrendo. Os hospitais disseram que mais de 90% de seus pacientes não foram vacinados. Exatamente por que o Estado foi atingido tão fortemente continua sendo uma questão. Outros Estados com cobertura vacinal comparável têm uma pequena fração do índice de internações da Flórida.

A melhor explicação para o que aconteceu é que os índices de vacinação na Flórida foram bons, mas não o suficiente para sua situação demográfica. Ela tem tantos idosos que, apesar de ter vacinado uma grande maioria, mais de 800 mil ficaram sem proteção. Os índices de vacinação entre os mais jovens foram desiguais, por isso muitas pessoas continuaram sob risco. As ondas anteriores do vírus, que foram mais suaves do que em alguns outros Estados, conferiram apenas parcialmente a imunidade natural.

E a Flórida é a Flórida: as pessoas desfrutam de muitos meses de convívio social em bares, festas e viagens, atividades que favorecem a rápida disseminação do vírus.

Ao contrário de lugares como o Oregon, que está adotando novamente restrições, inclusive o uso de máscaras em espaços abertos, DeSantis continua mantendo o curso, esperando ganhar força apesar do preço humano devastador. Uma pesquisa da Universidade Quinnipiac divulgada na última semana revelou que o índice de aprovação de DeSantis era de 47%.

Ele e outras autoridades estaduais tentaram evitar medidas que poderiam ter reduzido as infecções, como ordens rígidas para o uso de máscaras nas escolas públicas. Os maiores distritos escolares as impuseram por conta própria, e na sexta um juiz estadual ordenou que a Flórida não poderia impedir essas ordens —o Departamento de Educação pretende apelar da decisão.

A Flórida experimentou mais mortes do que o normal —de todas as causas, não apenas de covid-19— durante a pandemia. Nas primeiras semanas de 2021, com os casos aumentando e a vacinação começando, o Estado teve em média 5.600 mortes por semana, cerca de um terço a mais que o número típico para aquela época do ano, segundo números do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC na sigla em inglês). As mortes caíram e depois voltaram a subir.

Essas mortes excedentes são importantes, porque um número de mortes por covid ocorre fora dos hospitais e também porque o vírus pode contribuir para mortes por outras causas, devido à sobrecarga do sistema de saúde.

Na primeira semana de agosto, o Estado registrou mais 5.600 mortes. Mas como os índices de mortalidade normalmente diminuem nos meses de verão, o número foi mais de 50% acima do típico.

A situação nas casas de repouso para idosos, onde as infecções podem se espalhar rapidamente, também foi problemática. Enquanto os índices de vacinação entre os idosos na Flórida em geral foram bons, o índice de moradores desses lares totalmente vacinados —em média 73,1% em cada casa— é menor do que em todos os Estados, exceto Nevada, segundo o CDC.

Pessoas mais velhas também têm maior probabilidade de possuir deficiências imunológicas e comorbidades, o que as torna mais suscetíveis a infecções gerais e hospitalizações, comentou o médico Peter Chin-Hong, especialista em doenças infecciosas na Universidade da Califórnia em San Francisco. E alguns, embora não todos, os dados sugerem que a imunidade contra infecção diminuiu em adultos mais velhos vacinados; o governo Biden indicou que essas pessoas serão as primeiras na fila para a vacinação de reforço.

Depois há os mais jovens, que hoje formam uma porcentagem maior das mortes pelo vírus na Flórida. Antes de 25 de junho, pessoas com menos de 65 anos eram 22% dos mortos. Desde então, essa proporção aumentou para 28%.

Cinquenta e seis por cento das pessoas entre 12 e 64 anos nos dez maiores condados da Flórida estão totalmente vacinadas, o que é coerente com os números nacionais. Mas no resto do Estado esse número é apenas 43%, e em 27 condados menos de 1 em cada 3 moradores nessa faixa etária está totalmente vacinado.

As mortes de crianças continuam raras, e as de jovens adultos e pessoas de meia idade se tornaram rotineiras.

"Minha mãe não tinha doenças anteriores —era forte como um boi", disse Tré Burrows, cuja mãe, de 50 anos, morreu de covid-19 em 7 de agosto. "Não havia literalmente nada de errado com ela. Isso simplesmente surgiu do nada."

Cindy Dawkins, mãe de quatro crianças, que trabalhava em um restaurante em Boynton Beach, começou a se sentir doente pouco antes de seu aniversário, enquanto a família estava a caminho de uma comemoração em Orlando. Dawkins desenvolveu tosse e falta de ar. Quatro dias depois, foi para um hospital. Os médicos a colocaram num ventilador mecânico, mas ela morreu em 32 horas. Seu filho disse que ela não se vacinou porque temia possíveis efeitos colaterais.

Os que não se vacinaram são apenas uma parte da explicação por trás do novo surto. Muitos Estados atacados pelo vírus antes desenvolveram profundos reservatórios de imunidade natural das infecções anteriores, permitindo-lhes níveis mais altos de proteção do que seriam evidentes só pelas taxas de vacinação.

Isso não ocorreu na Flórida. Comparada com outros Estados, a Flórida foi poupada da onda devastadora de casos no inverno que atingiu outras partes dos EUA —em parte porque o clima mais ameno permitiu que as pessoas se reunissem ao ar livre. Isso foi bom para a economia do Estado e para seus líderes políticos, mas um problema no verão, quando o Estado não conseguiu contar com o mesmo muro de imunidade natural que hoje ajuda a proteger lugares assolados pelo vírus neste inverno.

Além disso, o clima quente levou as pessoas para espaços fechados e atraiu hordas de turistas, criando as condições para que a delta se espalhasse. Apesar do foco nas vacinas, disseram cientistas, o caminho do vírus continua altamente dependente de quanto as pessoas se aglomeram, onde elas se reúnem e que precauções estão tomando.

Para outros Estados cujos moradores se abrigarão em ambientes fechados quando a temperatura cair no outono e inverno (a partir de setembro), a Flórida oferece uma lição importante, disse Dean: assim como no início da pandemia, as internações hospitalares precisam ser contidas.

"O mínimo que deveríamos conseguir é manter esse número baixo para não sobrecarregar o sistema de saúde, porque isso não afeta só os pacientes de covid, afeta todo mundo", disse ela.

E os políticos, disse Dean, precisam entender que os índices de vacinação devem ser maiores do que se pensava antes para controlar uma variante do vírus mais contagiosa.

"As coisas podem sair do controle", disse ela. "Acredito que isso também poderá acontecer em outros Estados."

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