CENÁRIO: O que devemos esperar de Francisco em solo americano

Deputado republicano Paul Gosar realiza um boicote de um homem só contra o líder de 1,2 bilhão de católicos

Paul Valley, Global Viewpoint, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2015 | 02h01

A "febre Francisco" se alastra entre os mais de 68 milhões de católicos dos EUA. Mas o entusiasmo não é universal. A oposição ao papa Francisco está se tornando mais aberta - e mais febril - com sua visita aos EUA. O deputado republicano pelo Arizona, Paul Gosar, realiza um boicote de um homem só contra o líder de 1,2 bilhão de católicos no mundo todo. Gosar não concorda com o apelo do papa para a ação na questão do aquecimento global.

Embora se defina um católico com orgulho, Gosar acusa o papa de falar de temas socialistas, sobre falsa ciência e de uma "missão inútil sobre a mudança climática". A sua não é a única voz que desafina às margens da visita. Outros conservadores excêntricos acusaram o papa de ser uma penitência que a Igreja precisa "suportar", um comunista de batina e "o homem mais perigoso do planeta". Isso sem falar dos integrantes da ala fundamentalista que o compararam ao anticristo.

Esse contraste é em decorrência do fato de que o Papa Francisco pronunciará duas mensagens diferentes. A primeira será para as elites políticas, clericais e internacionais. A segunda, para os cidadãos comuns dos Estados Unidos e do mundo.

O papa deu várias indicações sobre a sua mensagem aos líderes. Seu manifesto papal, Evangelii Gaudium, atacou os males de um sistema capitalista que não está sujeito a regulamentação, que cria riqueza para alguns, mas exclui os outros na base da sociedade. Sua encíclica sobre o meio ambiente, Laudato si, afirmou que o aquecimento global e a depredação ecológica em geral são frutos de um voraz consumismo, encorajado por um sistema econômico que não enxerga além do lucro no curto prazo. Por trás dessa "exclusão da economia", ele sugere, "desponta a rejeição da ética e a rejeição de Deus".

Os papas anteriores, como João Paulo II e Bento XVI, também criticaram energicamente o capitalismo, mas não falaram com a mesma paixão de Francisco, que trabalhou entre os mais pobres nas favelas de Buenos Aires durante 20 anos. Como latino-americano, Francisco conserva mais uma ambivalência em relação aos Estados Unidos, em que se combinam respeito e ressentimento em razão da economia e do vigor político do seu vizinho maior.

Como primeiro papa do Sul global, ele olha para o mundo de baixo para cima. Desde o começo, ele declarou que queria "uma Igreja pobre para os pobres". Além disso, mudou o foco da Igreja católica, da notória luta contra o aborto e o casamento gay, para a missão de servir aos pobres e conceder misericórdia a todos.

Francisco, que está muito mais preocupado com questões relativas ao dinheiro do que ao sexo, não deixará de criticar o mundo dos ricos numa economia injusta e na desigualdade social. Isso explica a ferocidade da reação ao papa Francisco por parte de uma aliança profana de conservadores inflamados, de filósofos do livre mercado e apologistas da indústria petrolífera que negam a mudança climática.

Os bispos dos EUA - um grupo muito mais conservador do que os católicos que eles lideram - também devem esperar algumas palavras de repreensão do papa. Nas duas últimas décadas, muitos apresentaram uma estratégia de confronto em relação às questões de ética sexual originadas nas "guerras culturais". O papa Francisco - que anteriormente condenara membros da Igreja exageradamente "obcecados" pelo aborto, o casamento gay e a contracepção - não se mostra muito paciente com essa preocupação. Ele quer que eles se esforcem mais no combate à pobreza.

No entanto, a mensagem do papa aos cidadãos comuns dos EUA será bem diferente. Ele deu uma indicação disso semanas atrás, quando participou de uma conferência televisiva com estudantes em Chicago, com sem-teto de Los Angeles e imigrantes perto da fronteira dos EUA com o México, em McAllen, no Texas. O papa Francisco lhes disse palavras calorosas, compassivas, otimistas, reconfortantes e mostrou-se sempre sorridente com vários indivíduos que expuseram as difíceis experiências de sua vida. Eles confessaram que nem sempre fizeram escolhas corretas e compartilharam com o papa alegrias, tristezas e problemas pessoais, como o seu pastor, e não como o chefe da Igreja. "Sejam corajosos. Deus está com vocês", afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

PAUL VALLEY É AUTOR DE LIVROS SOBRE O PAPA FRANCISCO

 

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