O que diz a Itália?

O resultado das urnas mostra que, para os italianos, o remédio imposto para a crise é pior que a doença

É PRÊMIO NOBEL DE ECONOMIA, PROFESSOR NA UNIVERSIDADE COLUMBIA, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2013 | 02h09

O resultado das eleições italianas deveria ser entendida como uma clara mensagem para os líderes da Europa: a política de austeridade que eles decidiram impor está sendo rejeitada pelos eleitores. O projeto europeu, totalmente idealista, foi uma tentativa imposta de cima para baixo. Mas é totalmente diferente encorajar tecnocratas a governar países, contornando os processos democráticos, e obrigá-los a aceitar politicas que levam a uma miséria generalizada.

Embora os líderes europeus evitem o termo, a realidade é que grande parte da União Europeia encontra-se numa depressão. A perda de produção na Itália, desde o início da crise, equivale à dos anos 30. Atualmente, a taxa de desemprego dos jovens na Grécia é superior a 60%, e a da Espanha está acima dos 50%. Com a destruição do capital humano, o tecido social da Europa está se esgarçando, e seu futuro está em risco.

Os médicos da economia afirmam que a paciente precisa seguir o tratamento até o fim. Os líderes políticos que sugerem algo diferente são tachados de populistas. Mas, na realidade, o tratamento não está funcionando, e não há mais esperança de que venha a funcionar - ou seja, o remédio poderá ser pior que a doença. De fato, levará dez anos, ou mais, para recuperar as perdas sofridas no processo de austeridade. Em suma, não foi nem o populismo nem a miopia que levou os cidadãos a repudiar as medidas impostas. Todos concordam que as medidas são profundamente equivocadas.

Os talentos e os recursos da Europa - seu capital físico, humano e natural - hoje são os mesmos de antes do início da crise. O problema é que as prescrições impostas estão causando uma enorme subutilização desses recursos. Qualquer que seja o problema da Europa, uma resposta que acarrete um desperdício dessa magnitude não pode ser a solução.

O diagnóstico simplista dos males da Europa - o de que os países afetados pela crise estavam vivendo acima de seus próprios meios - está claramente equivocado, pelo menos em parte. Antes da crise, Espanha e Irlanda apresentavam superávits fiscais e uma baixa relação dívida/PIB. Se a Grécia fosse o único problema, a Europa o teria solucionado com facilidade.

O que poderia funcionar seria um conjunto alternativo de medidas discutidas a fundo. A Europa precisa de um maior federalismo fiscal, não apenas de uma supervisão centralizada dos orçamentos nacionais.

Evidentemente, talvez a Europa não precise de uma proporção de dois para um dos gastos federais em relação aos estaduais que existe nos EUA; mas precisa de gastos muito mais em nível europeu, ao contrário do minúsculo orçamento atual da UE (ainda mais reduzido pelos defensores da austeridade).

Também é imprescindível uma união bancária. Mas terá de ser uma união real, com seguro comum dos depósitos e procedimentos comuns para a solução de disputas, bem como de uma supervisão comum, e também deverá haver eurobônus.

Os líderes europeus reconhecem que, sem crescimento, o ônus da dívida continuará aumentando, e a austeridade como único recurso é uma estratégia que funciona contra o crescimento. Mas os anos passam e sobre a mesa não há nenhuma estratégia de crescimento, embora seus componentes sejam notoriamente conhecidos: políticas que tratem dos desequilíbrios internos da Europa e do enorme superávit externo da Alemanha, que agora equivale ao da China (e mais do dobro em relação ao PIB). Concretamente, isso significa aumentos dos salários na Alemanha e políticas industriais que promovam as exportações e a produtividade nas economias da periferia da Europa.

O que não funcionará, ao menos para a maioria dos países da zona do euro, é uma desvalorização interna - ou seja, que obrigue a uma queda dos salários e dos preços -, pois isso aumentaria o ônus das dívidas para as famílias, as empresas e os governos (que na maioria detêm títulos da dívida em euros). E, como os ajustes em diferentes setores ocorrem a velocidades diferentes, a deflação alimentaria maciças distorções da economia.

Se a desvalorização interna fosse a solução, o padrão ouro não teria sido um problema na Grande Depressão. A desvalorização interna, combinada com a austeridade e com o princípio do mercado único (que facilita a fuga de capitais e a hemorragia dos sistemas bancários), é desastrosa.

O projeto europeu foi, e continua sendo, uma grande ideia política. Ele pode promover a prosperidade e paz. Mas, em lugar de aumentar a solidariedade entre os Estados europeus, está plantando sementes da discórdia no interior das nações e entre os vários países. Os líderes da Europa prometem fazer o necessário para salvar o euro. Mas a Alemanha continua rejeitando políticas que promovam uma solução de longo prazo.

Evidentemente, os alemães relutaram em aceitar a necessidade de uma união bancária que inclui um sistema comum de garantia dos depósitos. Mas o ritmo com o qual eles empreendem as reformas não se coaduna com os mercados. Os sistemas bancários dos vários países já estão sobrevivendo artificialmente. Quantos mais precisarão de cuidados intensivos antes que a união dos bancos se torne uma realidade? A Europa necessita de reformas estruturais, mas o impacto maior será provocado pela reforma estrutural dos acordos institucionais da zona do euro. Se a Europa não estiver disposta a empreender reformas talvez tenha de deixar que o euro pereça e tratar de salvar a si mesma.

A União Monetária e Econômica da UE foi um meio em vista de um fim, e não um fim em si. Ao que tudo indica, o eleitorado europeu reconheceu que, pelos acordos atuais, o euro está minando os próprios propósitos para os quais foi criado. Esta é a simples verdade da qual os líderes da Europa devem se conscientizar. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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