Logan CYRUS / AFP
Logan CYRUS / AFP

O que é a Superterça e por que ela pode ser crucial na eleição dos EUA

Votações em 14 estados e um território americano vão definir 35% dos delegados em corrida democrata; Sanders e Biden se consolidam como principais rivais

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2020 | 15h00

Quatro estados americanos já fizeram suas primárias do Partido Democrata, mas a corrida ainda está embolada, com quatro candidatos em busca da nomeação: Bernie Sanders, Joe Biden, Elizabeth Warren e Michael Bloomberg.

Só por isso a Superterça já seria importante. Mas ainda há mais. Pra se ter uma ideia, antes da Superterça, menos de 5% dos delegados estão definidos. Depois, 38% dos delegados estarão alocados a um candidato - inviabilizando muitas candidaturas.

Mas, afinal, o que é a Superterça, de onde ela veio e porque é importante?

A Superterça é o único dia em que a maioria dos estados realiza primárias para escolher um candidato à presidência, a maioria dos eleitores tem a chance de ir às urnas e a maioria dos delegados é designada para candidatos. 

Mais de um terço de todos os delegados da Convenção Nacional Democrata estão em disputa neste dia. E isso ocorre em um ponto particularmente dramático da corrida.

Com o ex-prefeito Pete Buttigieg e a senadora Amy Klobuchar, nomes moderados, desistindo da campanha e anunciando apoio ao ex-vice-presidente Joe Biden, a corrida fica cada vez mais uma disputa entre Biden e Bernie Sanders, representante da ala mais progressista e radical do partido. 

O que é a Superterça e quando ela acontece?

É nesta terça-feira, dia 3 de março. É o primeiro grande dia de prévias eleitorais americanas, após os quatro primeiros estados terem votado, Iowa, New Hampshire, Nevada e Carolina do Sul.

Os horários de encerramento das urnas variam de acordo com o estado: o fechamento de Vermont é o primeiro, às 21 horas (horário de Brasília). Estados do Oeste e Califórnia são os útlimos última na madrugada de quarta-feira no Brasil. 

Não saberemos todos os resultados na terça-feira, pois a tabulação dos votos pode entrar na madrugada, principalmente na Costa Oeste. Os resultados da Califórnia levarão dias, pelo menos, já que as cédulas enviadas por correio só podem ser postadas no dia da abertura da votação.

Como surgiu a Superterça?

A Superterça nasceu do desejo dos democratas, na década de 1980, de nomear um candidato mais moderado, disse Richard Berg-Andersson, especialista em eleições do blog The Green Papers, ao Washington Post.

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Em 1984, os democratas nomearam Walter Mondale, um radical que foi esmagado nas eleições gerais por Ronald Reagan. Assim, nas eleições seguintes, o Partido Democrata nos estados do sul transferiu suas primárias em massa para março para permitir que a ala mais conservadora do partido votasse antes, na esperança de impulsionar um candidato mais moderado. 

A estratégia não funcionou: os democratas nomearam o então governador de Massachusetts Michael Dukakis, que era considerado mais liberal do que o desejado pelos democratas do sul, disse Berg-Andersson.

Hoje, a Superterça é mais diversificada geograficamente e menos sobre regiões específicas que tentam influenciar a eleição. Em vez disso, cada estado quer se manifestar mais cedo nas prévias, por medo de ficar de fora da tomada de decisão ao ser deixado para o final do processo. 

A Superterça aumentou tanto que, durante as eleições de 2008 para democratas e republicanos, cerca de metade dos estados teve suas disputas em um dia.

As Superterças podem ser decisivas e sinalizar o fim das primárias, como foi para os dois partidos em 2000, disse Josh Putnam, professor de Ciência Política que administra o blog de eleições Frontloading HQ. "Mas eles também podem mostrar se as coisas estão divididas igualmente ou o suficiente para manter a temporada das prévias por mais tempo”. 

(Os republicanos também podem votar em suas primárias presidenciais na maioria dos estados da Superterça, mas como o presidente Trump não enfrenta um sério desafiador, as atenções estão voltadas para os democratas.)

A Superterça é grande, mas é relativamente cedo no processo primário; haverá primárias e caucus democratas acontecendo até junho.

Quais estados estão votando na Superterça e quantos delegados estão em jogo?

Quatorze estados e um território dos EUA realizarão prévias na Superterça, que vão definir 1.357 delegados. Para colocar isso em perspectiva, são necessários 1.991 delegados para conseguir a nomeação.

Os estados estão espalhados por todo o país - literalmente da Califórnia ao Maine - e incluem Massachusetts fortemente democrata, os tradicionalmente republicanos Texas e Oklahoma, e mais estados intermediários como Colorado, Carolina do Norte e Virgínia. 

Os democratas que vivem na Samoa Americana também participarão na Superterça, e os democratas que vivem no exterior começarão a votar.

É o total de delegados, e não o número absoluto de votos, que conta ao descobrir quem ganha a indicação presidencial de um partido.

 

Cada estado recebe um certo número de delegados com base em uma fórmula de população e peso no Partido Democrata. 

Os estados concedem delegados aos candidatos com base nos votos que recebem. O primeiro candidato a obter a maioria dos quase 4.000 delegados vence a indicação.

Ninguém pode ganhar a indicação apenas na Superterça, mas se sair bem nesse dia, o candidato pode diminuir seu longo caminho. Cerca de 34% dos delegados estão em disputa na terça-feira, mais do que em qualquer outro dia de primária. 

Este ano, a Superterça é ainda mais importante porque a Califórnia mudou suas primárias para 3 de março. Ela estava votando em junho, no final do processo de indicação, quando normalmente há menos em jogo. 

A adição do Estado mais populoso dos EUA acrescenta ainda mais peso à Superterça, porque 30% dos delegados virão da Califórnia.

Por que a Superterça é importante, especialmente este ano?

A disputa pela nomeação democrata ainda está indefinida. O senador Bernie Sanders assumiu a liderança tanto no total de delegados quanto nas pesquisas nacionais recentes.

Mas parte do Partido Democrata ainda torce o nariz para a candidatura de Sanders, por causa de suas posições consideradas muito progressistas para ter apelo em uma eleição nacional contra Trump.

O campo moderado do partido apostava no ex-prefeito de South Bend, Indiana, Pete Buttigieg. Ele se saiu bem em Iowa e New Hampshire, mas depois de não conseguir apoio dos eleitores negros em Nevada e na Carolina do Sul, encerrou sua campanha no domingo. Biden venceu na Carolina do Sul no sábado, colocando-o de volta na disputa.

Mas ainda há um longo caminho a percorrer para decidir a indicação. Com a corrida ainda em andamento e 14 estados votando de uma só vez, a Superterça pode servir como uma checagem de onde está o eleitorado do Partido Democrata.

Há outra razão pela qual a Superterça  pode ter um impacto especialmente grande este ano: o ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, aparecerá pela primeira vez nas cédulas presidenciais. Ele entrou na corrida tarde, pulou as primeiras prévias para focar na Superterça e gastou centenas de milhões de seu próprio dinheiro em anúncios de campanha, e sua posição nas pesquisas, inclusive entre os eleitores negros, aumentou.

A estratégia dos candidatos na Superterça

Quase 130 milhões de pessoas vivem nos 14 estados com primárias na Super Terça-feira - mais de 10 vezes o número de pessoas que vivem nos quatro estados que realizaram prévias antes. 

Sanders está fazendo uma grande jogada para a Califórnia, e pode valer a pena. Pesquisas de opinião sugerem que é possível que ele seja o único candidato que alcance os 15% de apoio que o Partido Democrata precisa para conquistar delegados em todo o estado. 

Se Sanders conseguir eliminar a maior parte de sua concorrência na Califórnia, seria um grande impulso para sua campanha. 

Os candidatos também estão focados no Texas. Uma pesquisa da CNN divulgada sexta-feira mostrou Sanders com uma grande vantagem na Califórnia e no Texas.

A senadora Elizabeth Warren (Massachusetts) e a senadora Amy Klobuchar (Minnesota) esperam ganhar seus estados de origem.

Bloomberg adaptou especificamente sua mensagem para atrair eleitores negros em estados como a Carolina do Norte. Uma pesquisa no estado divulgada sexta-feira mostra que ele se juntou a Sanders e Biden. Mas alguns de seus apoiadores temem que, se Biden se sair bem com os eleitores negros, isso poderá diminuir as chances de Bloomberg nos estados do sul na Superterça.

Em que prestar atenção nesta Superterça:

1. Biden consegue se sustentar entre eleitores moderados?

Ele venceu de forma convincente na Carolina do Sul no sábado e pode ser favorecido pela desistência de Pete Buttigieg.

2. Warren sobrevive além da Superterça?

Ela terminou abaixo dos dois primeiros colocados nas quatro primeiras prévias. A campanha de Warren procurou os estados da Superterça em busca de vitórias para trazê-la de volta ao jogo. Mas o que acontece se ela não ganhar? Ficará muito atrás e poderá ser obrigada a desistir - assim como Amy Klobuchar 

3. A Superterça pode enfraquecer o momento de Sanders? 

Desde os caucus de Iowa, Sanders lidera as pesquisas nacionais. Mas algumas pesquisas nos estados da Superterça mostram que ele se juntou a outros candidatos, como Biden, Warren e Bloomberg. 

Sanders ainda tem que convencer o establishment democrata de que ele pode derrotar Trump, e terminar fora dos três primeiros em um número significativo de estados da Superterça pode ser um sério problema. 

4 Como Bloomberg se sai nas urnas? 

É a primeira vez que ele participa, devido à sua estratégia de pular os primeiros estados para focar na Superterça. Ele teve impulso há algumas semanas, mas sua subida diminuiu por causa de exibições ruins nos debates. / NYT, W.POST e AFP

 

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