Doug Mills/POOL/AFP
Doug Mills/POOL/AFP

O que esperar do Discurso do Estado da União de Donald Trump

Presidente americano falará em sessão conjunta do Congresso um dia antes da votação final de seu processo de impeachment no Senado

Peter Baker, The New York Times

04 de fevereiro de 2020 | 18h29

Surreal será a palavra da noite, quando o presidente Donald Trump entrará no mesmo espaço da Câmara onde sofreu impeachment há apenas sete semanas para se dirigir à nação, enquanto é julgado por crimes e contravenções graves do outro lado do Capitólio.

O discurso anual do presidente acontece nesta terça-feira, 4, após duas semanas de discussões no Senado sobre se ele deve ser destituído do cargo – e um dia antes da votação final prevista. Com a absolvição praticamente garantida, Trump usará seu discurso para estabelecer termos para o restante do ano, enquanto se encaminha para as eleições de novembro em busca de um segundo mandato.

No julgamento de dia, no palco à noite, Trump usará seu discurso para ir além do impeachment.

Embora tentado a comparecer a seu julgamento no Senado para se defender, Trump escutou os conselhos de advogados e consultores que o alertaram contra isso. Mas, na verdade, o réu agora aparecerá no Capitólio em um formato diferente para oferecer o melhor argumento para sua presidência, tudo sem ter que se preocupar com o interrogatório.

Muitos dentro e fora da Câmara estarão assistindo para ver como ou se ele se dirige diretamente ao confronto constitucional que vem ocorrendo há meses. Trump esperava ter sido absolvido antes do discurso para que pudesse usar a aparição televisiva nacionalmente como demonstração de vitória, mas os senadores atrasaram a votação final até quarta-feira.

Como resultado, durante o dia desta terça-feira, os senadores se levantarão um após o outro do lado do Capitólio para anunciar se apóiam a condenação ou absolvição por acusações de abuso de poder e obstrução do Congresso decorrentes dos esforços de Trump para pressionar a Ucrânia a ajudá-lo a manchar rivais democratas. Depois que escurecer, o mesmo presidente que eles julgarem percorrerá o corredor da Câmara, cumprimentando os legisladores e definindo sua agenda para o ano.

Se Trump abordar o julgamento em seu discurso, pode ser menos bombástico do que o costume. Embora ele tenha denunciado abertamente o que chama de "caça às bruxas" contra ele, o presidente tradicionalmente tem sido mais comedido e menos confrontador durante os discursos do Estado da União, seguindo cuidadosamente os textos preparados para ele.

Ele não será o primeiro presidente a fazer seu discurso sobre o Estado da União no meio de um julgamento de impeachment no Senado. O presidente Bill Clinton entregou sua mensagem anual ao Congresso enquanto era julgado por perjúrio e obstrução de acusações judiciais decorrentes de um processo de assédio sexual, mas ele fez questão de não dizer uma palavra sobre isso durante o discurso.

Três anos depois de ver 'carnificina americana', Trump planeja elogiar 'o grande retorno americano'. O presidente usará o discurso e a maior audiência de televisão que ele terá o ano todo para enquadrar a campanha de reeleição à sua frente, afirmando que ele reconstruiu os Estados Unidos e acusando seus oponentes democratas de favorecer políticas socialistas que reverterão o progresso. 

Autoridades da Casa Branca disseram que o tema do discurso será "o grande retorno dos EUA", destacando seu histórico na economia, o aumento dos gastos militares e a nomeação de juízes conservadores. O presidente falará sobre prioridades futuras, como reduzir os custos com assistência médica, dar aos pais mais opções nas escolas, reduzir as chamadas cidades-santuário que protegem os imigrantes ilegais e reduzir ainda mais os impostos.

A economia foi o ponto mais forte de Trump nas pesquisas, com o desemprego em 3,5%, o mais baixo em mais de meio século e os mercados muito altos do que quando ele assumiu o cargo. Mas o crescimento desacelerou no último trimestre para 2,1%, metade do que Trump prometeu, a manufatura está em recessão e os investidores estão preocupados com o fato de a suspensão da viagem à China por causa do surto de coronavírus poder afetar a economia.

Quando Trump terminar, os democratas terão a palavra - em dois idiomas.

Para responder ao presidente, os democratas escolheram uma das estrelas em ascensão de seu partido diretamente de um campo de batalha presidencial. A governadora Gretchen Whitmer, de Michigan, que conquistou seu cargo em 2018 com uma vitória convincente de 10 pontos sobre o candidato favorito de Trump, apresenta o que os líderes partidários consideram o arquétipo de um candidato bem-sucedido na era Trump.

Em vez de se concentrar no feed do presidente no Twitter, ela se posicionou como uma pragmata que trabalha com republicanos em questões 'feijão-com-arroz', como reduzir o custo dos medicamentos prescritos, melhorar a economia para mais pobres, expandir a cobertura pública de saúde e "consertar as malditas estradas", como ela diz.

Mas ela criticou Trump por sua política de divisão, mesmo sem nomeá-lo. "Infelizmente, também vimos um aumento na linguagem odiosa e prejudicial em Michigan e em todo o país", disse ela em seu discurso sobre o 'Estado do Estado'. "Muito disso começa em Washington, D.C., e agora parece que está indo para Lansing".

Para dar a resposta democrata em espanhol, os líderes do partido escolheram a representante Veronica Escobar, do Texas, que se recusou a encontrar Trump quando ele visitou El Paso em agosto passado, após um ataque a tiros motivado por xenofobia. Escobar culpou Trump por sua linguagem anti-imigrante, dizendo que o presidente deveria "reconhecer o poder de suas palavras, pedir desculpas e retirá-las". 

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