'O que eu quase não vejo aqui são casais inter-raciais', diz brasileira negra que vive nos EUA

A bibliotecária viajou para passar férias em Atlanta, mas nunca mais voltou ao Brasil

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / ATLANTA, EUA, O Estado de S.Paulo

31 Março 2018 | 19h00

A brasileira T.R. fez a primeira viagem internacional de sua vida há seis anos e aterrissou em Atlanta, a cidade natal de Martin Luther King Jr., onde 53% da população é negra, como ela. "Eu pisei aqui e comecei a ver negros em todos os lugares: no banco, nas butiques caras, dirigindo Mercedes, no metrô, nos restaurantes. Nunca tinha visto isso no Brasil", lembrou ela, que vivia em São Paulo.  A ideia de passar apenas um mês de férias na cidade foi abandonada e ela nunca mais voltou.

"Aqui você vê que é possível para negros ter acesso, ter mobilidade. No Brasil, isso não é natural, nós não temos exemplos desse tipo." Antes de chegar a Atlanta, T. R. navegava em ambientes majoritariamente brancos. "Eu estudei na Unesp e na minha formatura havia apenas oito negros entre 300 alunos. Meus namorados eram brancos e como sempre fui faladeira e simpática, eu era 'aceitável'", afirmou.

Mas não era fácil ter uma posição de comando no mundo branco. Com 43 anos, ela diz que dirigia uma biblioteca na Vila Leopoldina e tinha uma estagiária loira. Quando elogiavam os serviços do local, os usuários não se dirigiam a ela, mas à subordinada branca. Segundo a brasileira, os seguranças se referiam a ela de maneira jocosa como "Alcione" e não a respeitavam. 

Nos seis anos em que está nos EUA, ela lembra de ter passado por uma experiência que pode ser interpretada como racista. T.R. estava no clube que frequenta perto de sua casa e se dirigiu à banheira de hidromassagem, onde havia um homem branco. Na medida em que ela se aproximava, ele balançava a cabeça de forma negativa. "Quando eu entrei na água, ele saiu e desligou o motor da banheira."  

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Em Atlanta, ela encara a vida de imigrante e trabalha como faxineira. Ainda assim, ela garante que vive com mais conforto do que no Brasil. Só de aluguel, desembolsa US$ 1.250 por mês, o equivalente a R$ 4 mil. "Tenho mais oportunidade econômica aqui do que no Brasil como bibliotecária." Quando encontrou a reportagem, a brasileira saia da exibição de um documentário sobre uma percursionista da Bahia. 

Mas o século de segregação racial deixou sua marca nos Estados Unidos. "O que eu quase não vejo aqui são casais inter-raciais, muito mais comuns no Brasil."

 

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