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O que fará Putin?

Segundo Strobe Talbott, um respeitado especialista em política russa, que foi também subsecretário de Estado dos Estados Unidos, “Putin destruiu a economia da Rússia, reduziu sua influência internacional, emperrou sua modernização, transformou vizinhos em inimigos e revitalizou a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).” 

Moisés Naím, Estado de S. Paulo

06 de julho de 2015 | 03h00

Sergei Ivanov não concorda. Para este ex-agente da KGB, atualmente chefe de gabinete de Vladimir Putin, “os Estados Unidos e seus aliados constituem uma ameaça à Rússia. Com o pretexto de promover a democracia, o que eles buscam de fato é derrubar regimes que não podem controlar”.

A implicação lógica deste ponto de vista é que Putin, como líder da Rússia, está simplesmente defendendo seu país. É por isso que, às vezes, foi obrigado a solidarizar-se e a apoiar rebeldes pró-Rússia em países como Ucrânia ou Geórgia, por exemplo. Ou tomar a Crimeia. Seus críticos argumentam que estes “rebeldes pró-Rússia” não passam de efetivos do Exército russo que - despojados das insígnias que os identificam como tais - são infiltrados pelo Kremlin em países cuja instabilidade favorece suas aventuras bélicas expansionistas.

O interesse em entendermos as motivações e os objetivos de Putin é óbvio. O mundo seria muito mais estável se, em vez das tensões e dos atritos (definidos por muitos como a nova Guerra Fria), que atualmente caracterizam as relações entre o gigante russo e a Europa e os EUA, houvesse uma distensão entre eles. Isso permitiria, entre outras coisas, que pudessem atuar de maneira coordenada nos grandes problemas de interesse mundial, da mudança climática ao terrorismo e da proliferação nuclear às guerras no Oriente Médio.

Protestos. Lamentavelmente, a probabilidade de que esse cenário de distensão e até de maior colaboração entre Rússia e as potências ocidentais venha a materializar-se é mínima. As razões para que os atritos continuem são muitas, mas a principal delas tem a ver com o fosso que existe entre a Rússia e as democracias ocidentais na percepção das razões da proliferação no mundo dos protestos de rua contra os governos. 

Putin e a elite política que rege os destinos da Rússia estão convencidos de que os protestos são artificiais e fazem parte de um maligno plano secreto dos Estados Unidos. As revoluções coloridas que no início deste século depuseram ou desestabilizaram vários governos, da Ucrânia à Geórgia, ou as revoluções da Primavera Árabe, são vistas pelo Kremlin como exemplos de um novo tipo de ameaça que paira sobre a Rússia. É uma nova estratégia de seus adversários para atacá-los. 

Segundo Sergei Lavrov, o ministro russo das Relações Exteriores, “É difícil resistir à impressão de que o objetivo das várias ‘revoluções coloridas’ e de outras iniciativas destinadas a derrubar governos ‘incômodos’ é provocar o caos e a instabilidade”. 

Na Assembleia-Geral das Nações Unidas, Lavrov propôs que se declarasse inaceitável a interferência nos assuntos internos de Estados soberanos e nenhum país reconhecesse mudanças de governo produzidas por um golpe de Estado.

Ivan Krastev, agudo observador, notou que o temor do Kremlin de protestos de seu próprio povo fez com que “Moscou, que outrora foi o combativo centro da revolução comunista mundial, se transformasse no mais feroz defensor de governos cujos cidadãos descontentes protestam nas ruas”. Segundo Krastev, o que a Rússia espera do restante do mundo - e concretamente das democracias ocidentais - é algo que nenhum governo democrático pode prometer: que a Rússia de Putin não seja sacudida pelos amplos protestos de uma população em repúdio ao modelo político e econômico que lhe foi imposto. Além disso, com a realização destes protestos, os governos ocidentais e os meios de comunicação, os condenem, apoiando, assim, automaticamente os que mandam no Kremlin. A premissa na qual esta exigência tem como base é que estes protestos jamais poderiam ocorrer de modo espontâneo, sem a intervenção de potências estrangeiras e sem que tenham líderes claramente definidos.

De Hong Kong ao Brasil e de Túnis à Tailândia existem preocupantes evidências de que o Kremlin está equivocado a esse respeito. Os protestos costumam ser espontâneos, não têm uma organização hierárquica e não respondem a uma coordenação central. Muitas vezes, nem sequer têm líderes. No que não se equivoca é no temor de que, algum dia, milhões de russos desencantados com Putin e com seu grupo, saiam às ruas para exigir um futuro diferente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

MOISÉS NAIM É EX-DIRETOR EXECUTIVO DO BANCO MUNDIAL, É MEMBRO SÊNIOR DO CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE

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