O que faz Kennedy grande

Comparado aos fracassos e tropeços de outros presidentes, JFK ainda dá aos americanos a esperança de que dias melhores virão

ROBERT, DALLEK, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2013 | 02h14

Cinquenta anos após o assassinato de John F. Kennedy, este continua sendo objeto de uma admiração quase universal. E, no entanto, particularmente este ano, seu legado provocou a ira de detratores que afirmam que ele não é digno de toda esta devoção.

"John F. Kennedy foi, provavelmente, o pior presidente americano do século passado", escreveu o jornalista Thomas E. Ricks. "Ele passou seus 35 meses na Casa Branca cambaleando de crise a fiasco." Ele foi, dizem os críticos, todo imagem, sem substância, um playboy raso cujos equívocos em política externa e histórico legislativo pífio minam qualquer pretensão à grandeza. Seu assassinato, sua boa aparência e charme, somados à promoção de Jacqueline Kennedy a um mito de Camelot, explicam em boa medida sua popularidade.

Tais críticas não só dão pouca atenção às realizações efetivas de Kennedy como líder em política doméstica e externa, como deixam de apreciar o papel central dessa presidência: inspirar e estimular o país, um papel que ele realizou melhor do que qualquer presidente do qual se tem memória recente.

A ladainha de queixas contra Kennedy é longa. Os críticos achincalham sua imagem como pai de família devotado: eles reclamam que ele era, como escreveu Timothy Noah na New Republic, "um adúltero compulsivo, patológico", cuja autoindulgência temerária colocou em risco sua presidência.

Críticos assinalam também seus problemas de saúde ocultados. Será que os eleitores o teriam preferido a Richard M. Nixon se tivessem sabido de sua doença de Addison ou outros males potencialmente incapacitantes? E o que diz sobre seu caráter o fato de ter escondido essa condição do público?

Quanto à sua presidência, os críticos acham difícil compreender por que alguém o consideraria mais que um chefe do executivo mediano.

Eles são particularmente críticos de seu histórico em direitos civis. Sua demora em assinar uma ordem pondo fim à segregação em habitações públicas, que ele havia prometido durante a campanha de 1960, sua nomeação de juízes federais segregacionistas e a queixa de Martin Luther King Jr. de que lhe faltava "paixão moral" para lutar por tratamento igual para os negros - tudo isso convenceu alguns historiadores de que a decisão final de Kennedy de pedir uma lei de direitos civis era puro expediente político.

Os críticos de Kennedy também encontram falhas em suas políticas externas, em especial, para Cuba e Vietnã. O fracasso da Baía dos Porcos e a Operação Mongoose, o plano para assassinar ou ao menos depor Fidel Castro, supostamente abriram o caminho para a Crise dos Mísseis e demonstraram sua inexperiência e o juízo fraco de um fanático pela Guerra Fria.

E a decisão de Kennedy de aumentar o número de conselheiros militares no Vietnã, combinada com o suposto apoio ao golpe que matou o presidente sul-vietnamita Ngo Dinh Diem, é considerada o prelúdio à guerra desastrosa do presidente Lyndon B. Johnson.

Tudo isto tem mérito, mas a presidência de mil dias de Kennedy é mais notável por suas conquistas que por suas fraquezas.

Mais particularmente, ele salvou o mundo de uma guerra nuclear com sua diplomacia astuta durante o confronto de outubro de 1962 com a União Soviética sobre Cuba. Como ele disse privadamente na época, a liderança militar queria bombardear e invadir, mas ninguém sobreviveria para lhes dizer que estavam errados.

E, apesar de os críticos focarem nas minúcias daqueles 13 dias, o sucesso real de Kennedy foi o que veio depois. Ansioso para evitar uma repetição das tensões soviético-americanas sobre Cuba, passada a crise ele fez manifestações privadas de interesse em uma reaproximação com Fidel Castro. Mais importante, firmou um acordo com o líder soviético Nikita Kruchev para um tratado de banimento de testes nucleares que eliminou as precipitações radioativas da atmosfera.

Quanto ao Vietnã, o que importa é que Kennedy conseguiu resistir à pressão para enviar algo mais do que conselheiros militares, uma posição que era um provável prenúncio de uma completa retirada do conflito. Há sólidas evidências do seu interesse em pôr fim ao papel militar dos EUA naquela guerra.

E, apesar de Kennedy não ter conseguido tudo que queria em termos de legislação, seu histórico deve ser visto no contexto.

Sua agenda legislativa foi mantida refém de um Congresso conservador dominado por legisladores sulistas que viam em suas reformas uma ameaça à segregação racial. Em resposta, Kennedy estabeleceu um sistema formal de comunicação com cada membro aliado no Congresso e manteve um acompanhamento sistemático de vários projetos de lei e seus progressos semanais. Sua decisão de apresentar um projeto de lei de direitos civis ao Congresso em junho de 1963 foi um momento brilhante de coragem política e colocou em risco seu domínio dos eleitores sulistas que lhe haviam dado uma vitória por pequena margem em 1960.

Além disso, se tivesse concorrido contra Barry M. Goldwater em 1964, Kennedy seguramente teria obtido uma grande vitória e estaria em posição de aprovar seus principais projetos de lei. Isso lhe teria valido a aclamação como um reformador de peso do mesmo porte de Theodore Roosevelt, Woodrow Wilson e até mesmo Franklin D. Roosevelt. Seus problemas de saúde e índole mulherenga não podem ser ignorados, mas não foram exclusivos dele nem se revelaram um problema durante a sua presidência.

Mas o maior sucesso de Kennedy foi a coisa que seus detratores mais criticam: seu carisma, sua percepção da importância de uma liderança inspiradora e sua disposição de usar isso para grandes fins.

Kennedy via a presidência como o centro vital do governo cujo objetivo deveria ser estimular compromissos com a mudança construtiva. Ele pretendia mover o país e o mundo para um futuro mais pacífico, não somente pela legislação, mas pela inspiração.

As ambições presidenciais de Kennedy repousavam em sua compreensão do que Washington, Jefferson, Lincoln e Franklin Roosevelt fizeram. Como eles, Kennedy se apoiava no discurso, mas tinha a vantagem de a televisão atingir milhões de pessoas. E como seus antecessores, via a necessidade de ações que dessem significado a sua retórica.

Os apelos em seu discurso de posse - para os americanos colocarem seu país à frente de seus interesses egoístas e para os povos de todo o mundo se unirem em uma nova busca pela paz - encontraram substância no Peace Corps e na Aliança para o Progresso. Seu apelo, em maio de 1961, por uma missão tripulada à Lua e seu "discurso da paz", em junho de 1963, conclamando os americanos a reexaminarem sua atitude para com a União Soviética visavam a promover a unidade nacional e a concórdia internacional.

Comparado a outros presidentes recentes cujos tropeços e fracassos abalaram a autoestima nacional, as memórias de Kennedy continuam a dar ao país a fé de que dias melhores virão. Isso é razão suficiente para relativizar suas limitações e continuar encantado com seu desempenho presidencial. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR EMÉRITO DA

UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA

E AUTOR DO LIVRO 'CAMELOT'S COURT: INSIDE THE KENNEDY WHITE HOUSE'

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