O que fazer após um acordo com o Irã

EUA deveriam ter plano para retomar imediatamente sanções caso Teerã não cumpra o que prometeu

David Petraeus e Vance Serchuk, The Washington Post/O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2014 | 02h07

Os defensores dos esforços para um acordo negociado com o Irã sobre suas atividades nucleares ilícitas enfatizaram os benefícios que poderiam ser obtidos por meios pacíficos, verificáveis, impedindo Teerã de desenvolver armas nucleares. Por outro lado, os céticos alertaram a respeito dos riscos de um "mau negócio", pelo qual a capacidade do Irã não fosse suficientemente reduzida.

Entretanto, esteve em grande parte ausente do debate uma reflexão mais completa sobre as implicações estratégicas de um acordo nuclear para a posição dos EUA no Oriente Médio.

Essa avaliação precisa começar pela consideração das consequências da eliminação da maioria das sanções impostas ao Irã - e da retomada de seu intercâmbio normal com as principais economias mundiais. Essa perspectiva nos permitiria influir mais eficazmente para convencer o governo iraniano a abandonar os elementos fundamentais do seu programa nuclear.

Contudo, a eliminação das sanções também favoreceria o fortalecimento econômico de um governo que é o principal patrocinador do terrorismo.

Na realidade, mesmo submetido a sanções extremamente rigorosas, o Irã conseguiu fornecer um apoio considerável aos extremistas como parte de um programa de âmbito geopolítico em todo o Oriente Médio e adjacências - o que se opõe diametralmente aos interesses americanos e aos dos nossos principais aliados.

É possível que um acordo nuclear prepare o caminho para uma distensão mais abrangente nas relações do Irã com os EUA e seus vizinhos. Entretanto, é mais plausível ainda que a retirada das sanções aumente a capacidade de Teerã de projetar uma influência maléfica nos países ao seu redor, como Síria, Líbano, Iraque, na Península Arábica e nos territórios palestinos.

Portanto, em vez de assinalar o fim da nossa longa luta com o Irã, um acordo nuclear poderia fazer com que os EUA e nossos parceiros no Oriente Médio tivessem de se defrontar com um adversário dotado de maiores recursos e, em alguns aspectos, mais perigoso.

Ações. Isto não significa que devamos abandonar a diplomacia com Teerã. Impedir o Irã de adquirir armas nucleares deveria ser nossa principal prioridade e um acordo pela via diplomática que fechasse realmente a porta desse perigo compensaria suas possíveis desvantagens.

Além disso, na impossibilidade do sucesso diplomático, sua alternativa, a ação militar, acarretaria um ônus em termos de custos e riscos para a estabilidade regional e a economia global. De fato, a ação militar é menos promissora, no que se refere ao fim definitivo da ameaça nuclear, do que um bom acordo negociado.

Entretanto, precisamos reconhecer que há compromissos implícitos mesmo no melhor acordo nuclear possível e devemos começar realizando o trabalho preliminar para melhorá-los. Para tanto, terão de ser levadas em consideração cinco ações.

Em primeiro lugar, é imperativo deixar claro que poderá não haver uma reconciliação entre Irã e EUA, independentemente do resultado das conversações nucleares, se não houver uma ampla mudança de comportamento dos iranianos, que signifique a desestabilização regional. Essa mensagem - sem ambiguidades e totalmente coerente, à qual seria dada ampla divulgação - contribuiria para eliminar a ideia deletéria e equivocada de que Washington que tanto se livrar dos seus compromissos no Oriente Médio que aceitaria a hegemonia iraniana na região.

Em segundo lugar, os EUA deveriam intensificar o diálogo com os nossos aliados árabes e israelenses para fim chegar a um entendimento comum sobre como fazer frente a um Irã economicamente fortalecido em razão de um acordo nuclear. Como o abrandamento das sanções aumentaria a capacidade de Teerã para treinar, financiar e equipar os grupos terroristas de que se serve, nós e nossos parceiros na região devemos nos preparar para intensificar nossos esforços para identificar, deter e desmantelar essas redes.

Em terceiro lugar, os EUA precisam refletir sobre sua posição a respeito da Síria, hoje a principal frente da luta pela primazia no Oriente Médio. Os recentes informes, segundo os quais o governo de Barack Obama estuda a possibilidade de aumentar o apoio à oposição síria - inclusive fornecendo um número limitado de armas estrategicamente importantes - são encorajadores.

Se verdadeiros, eles refletiriam a necessidade de uma iniciativa maior, concentrada e dotada de maiores recursos para reverter o ímpeto atual do regime de Bashar Assad no campo de batalha, possibilitado em grande parte pela ajuda iraniana.

Isto leva à quarta conclusão: em vez de dar a Washington a possibilidade de reduzir a área controlada pelos EUA no Oriente Médio para se concentrarem em alguma outra parte, um acordo nuclear com Teerã, provavelmente, nos levaria a ampliar nossa presença militar, diplomática e na área de inteligência na região para ajudar os parceiros da região a serem um contrapeso ao poder iraniano. Para tanto, seria preciso empreender uma variedade de medidas: a aprovação de uma maior capacidade militar solicitada pelos parceiros árabes e por Israel; nova iniciativa para integrar as defesas antimísseis balísticos e aéreas dos países do Conselho de Cooperação do Golfo; exercícios marítimos e aéreos para demonstrar a capacidade dos EUA e dos seus parceiros na região; sustentar, quando não aumentar, a infraestrutura atual e o dispositivo das forças na região.

Em quinto lugar, precisamos começar a planejar como seria a imposição de um novo regime de sanções após a conclusão de um acordo. Mesmo que seja inevitável um aumento de recursos para Teerã com a eliminação das sanções relativas ao programa nuclear, as sanções relacionadas ao terrorismo permaneceriam em vigor e novas sanções seriam impostas para impedir que empresas, bancos e indivíduos iranianos ligados a atividades de desestabilização da região se beneficiassem. O planejamento dessas sanções terá de ser empreendido antes de um acordo nuclear.

Na eventualidade de o Irã implementar um acordo de maneira inadequada, deverá ser formulado ainda um plano bem claro para a imediata imposição de sanções mais rigorosas. É muito comum, na política externa americana, os EUA estabelecerem um objetivo estratégico, que perseguirão obstinadamente - e, entretanto, não estarem suficientemente preparados para as consequências quando o objetivo for atingido. Embora a conclusão de um acordo nuclear frutífero com o Irã não seja garantida, o momento para refletirmos sobre isto e nos preparamos para suas implicações é exatamente este.

*David Petraeus é ex-diretor da CIA e Vance Serchuk é analista do Center for a New American Security.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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