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O que fazer com a saída britânica?

Os 27 países que continuam a pertencer ao bloco questionam o que fazer com esse abacaxi. E não chegam a um acordo

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

29 Junho 2016 | 05h00

Todos se voltam para o Brexit, voto pelo qual os britânicos decidiram deixar a UE, e se perguntam o que pode ser feito. Essa saída é contemplada com preocupação ou desprezo, asco, às vezes com uma espécie de terror, como fosse o botão que dispara uma bomba atômica.

Os 27 países que continuam a pertencer ao bloco questionam o que fazer com esse abacaxi. E não chegam a um acordo. Angela Merkel, que considera o Reino Unido um bom parceiro comercial da Alemanha, prefere que a transição corra tranquilamente e se dê tempo para a Inglaterra preparar sua saída sem muitos danos. A França é mais rude: “Se tem de sair, saia”.

E quanto ao Reino Unido? Na noite do Brexit, o país exultou. Essa explosão de triunfo e alegria foi na noite do referendo. Quatro dias depois, Londres silenciou. Onde está o herói de ontem, Boris Johnson, que havia encontrado a fórmula mágica, “Take back control” (retomar o controle)? 

E quando ele será eleito primeiro-ministro e ativará o Artigo 50, que cortará realmente os elos com a Europa? Johnson não tem pressa. É preciso primeiro que Cameron parta, o que ocorrerá em setembro. E do lado dos contrários ao Brexit, dos que desejam permanecer na Europa? As instituições britânicas estão paradas. A Escócia prepara seu divórcio. A Irlanda quer aderir. Em resumo, o belo “tesouro” reunido em 1.500 anos de história naufragou.

Johnson viu-se obrigado a reagir. Em seu artigo semanal no Telegraph, procurou animar suas tropas. Sua segurança é espantosa. Começou o artigo comemorando o fato de a moeda inglesa não ter desmoronado (ela perdeu 10% do valor). E afirmou que o Reino Unido sempre será parte da Europa, continuará a ter acesso ao mercado único e os britânicos poderão continuar a trabalhar na Europa. Nada mudará para os imigrantes.

Enfim, nada mudou, exceto esse detalhe: o Reino Unido se livrou, pelo Brexit, das insuportáveis regulamentações europeias. Se for assim, Johnson terá conseguido o que todos os governos britânicos sempre desejaram: conservar todas as vantagens da UE, mas nenhum dos seus inconvenientes. 

Ele quer ganhar tempo, mas por que? Em Paris, circula uma tese. O conselheiro de Angela Merkel, o influente Peter Altmeier, soltou esta frase: “a classe política londrina deve ter a possibilidade de refletir uma segunda vez sobre as consequências da saída”. Assim pode ser explicada a lentidão dos britânicos e também de Merkel. Parece inconcebível. 

Após toda a exaltação em torno do referendo, tudo seria apagado e seria encontrado um jeito de os britânicos votarem novamente. Essas teses são bizarras. Depois de todo o furor em torno do referendo, como explicar aos fanáticos do Brexit que tudo foi um jogo, uma piada, e nada mudou? Enfim, o Reino Unido de amanhã terá um pé na UE e um pé fora, ao passo que antes ele tinha um pé fora e um pé na UE. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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É CORRESPONDENTE EM PARIS

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