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O que há com a política?

"Toda política é local." Essa afirmação do congressista americano Tip O'Neill sintetiza o fato de que, com frequência, o que mais interessa aos eleitores é que os políticos os livrem de seus problemas mais imediatos. Segundo essa óptica, os políticos que se concentram nos grandes assuntos nacionais ou internacionais competem em desvantagem contra rivais que se ocupam dos problemas mais concretos dos que os elegem.

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2014 | 02h01

Mas já faz algum tempo que a política se globalizou. Não que os eleitores não se interessem em que tapem os buracos nas ruas de seu bairro, o lixo seja recolhido, as escolas melhorem ou o crime seja combatido. Mas agora as expectativas mais locais se combinam com ansiedades, desencantos e fúrias que transcendem os problemas locais. A corrupção, a desigualdade econômica ou a incapacidade dos políticos de se pôr de acordo são apenas três exemplos das preocupações gerais que se tornaram mais comuns e mais globais.

É surpreendente ver como em países com problemas tão diferentes como Índia, Grã-Bretanha, Indonésia, França, África do Sul, Brasil ou Hungria, a conversa nacional é muito parecida, e como propostas e personalidades políticas que antes eram marginais hoje são centrais. E como em todas as partes, as grandes máquinas políticas de sempre estão agora na defensiva, diante de eleitores indignados e embates de novas organizações e "movimentos" que as desafiam. O exemplo mais recente nos leva a Hong Kong.

O "Fora todos!" é um desejo veementemente expressado nas manifestações que brotam periodicamente nas ruas de Buenos Aires, Roma, Lagos e Washington. Poucos acreditam na honestidade ou no altruísmo dos políticos, e os partidos já não são o lar natural dos idealistas. Mas ainda há países - por exemplo EUA, Alemanha, Brasil, Coreia do Sul, México, Japão - nos quais as máquinas políticas tradicionais têm muito poder.

O caso de Itália ou Venezuela, onde poderosos partidos históricos foram apagados do mapa, é instrutivo: sem chegar a esses extremos, em muitos países os partidos estão enfrentando novos e surpreendentes contendores. A ascensão do Tea Party nos EUA, do Partido do Homem Comum (AAP) na Índia, do UKIP na Grã-Bretanha ou da Frente Nacional na França são bons exemplos do que virá - ou já chegou.

O populismo é um dos antídotos que partidos e líderes políticos utilizam para se proteger da antipolítica. Motivar os eleitores enaltecendo as virtudes do povo e denunciando as elites corruptas e predadoras que causam as vicissitudes da sofrida nação é uma estratégia muito antiga.

E funciona. Rendeu grandes dividendos políticos aos coronéis Perón, Chávez e Putin, por exemplo. Suas práticas são conhecidas: prometer ao povo o que ele gosta de ouvir, embora seja impossível ou irresponsável cumprir tais promessas. E os resultados do populismo também são conhecidos: alta popularidade temporária do caudilho e danos permanentes à economia do país. Além da criação de uma nova elite ainda mais corrupta do que a anterior.

Atiçar as paixões nacionalistas que sempre estão à flor da pele também dá resultados. Na Rússia, 87% da popularidade que Putin tem entre os russos é consequência de ele não ter se limitado a fazer discursos sobre a necessidade de recuperar a grandeza da Rússia, mas ter invadido a Crimeia e ameaçado tomar o leste da Ucrânia. Acusar o inimigo externo dos males do país sempre dá resultados. Para os virtuosos do nacionalismo, os inimigos externos não são apenas outros países e seus exércitos. São também os imigrantes ilegais ou os trabalhadores asiáticos cujos baixos salários destroem bons empregos na Europa ou EUA. Ou as invasões culturais que corroem os valores da nação e contagiam o povo de comunismo, libertinagem e secularismo. Essa narrativa política também se globalizou e, de Uganda à Turquia, a vemos com diferentes graus de intensidade em muitos países.

Por quê? O desemprego e a queda da renda e mobilidade social das maiorias são fonte de grandes frustrações populares nos países mais ricos. A incapacidade do Estado de satisfazer as crescentes demandas de serviços públicos agita os ânimos das novas classes médias nos países emergentes. A globalização é percebida como uma ameaça. A corrupção, os truques, as mentiras e a hipocrisia dos poderosos agora são mais difíceis de ocultar graças às novas tecnologias de comunicação e informação. As injustiças e a desigualdade são agora mais visíveis. A competência política não tem como base contrastar ideias, mas destruir a reputação do adversário. A polarização do debate político e a dificuldade dos líderes políticos para chegar a acordos sobre decisões de que o país precisa nutrem a alienação política das pessoas.

Embora as sociedades estejam em plena efervescência, governos paralisados e partidos políticos exauridos continuam sem dar respostas críveis às novas demandas de uma sociedade que está mudando numa velocidade inalcançável para os que operam com ideias do passado. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É EX-DIRETOR EXECUTIVO DO BANCO

MUNDIAL E MEMBRO DO CARNEGIE

ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE

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