O que importa nos EUA neste ano

Respostas a cinco perguntas definirão o rumo dos dois últimos anos do governo Obama e o cenário eleitoral de 2016

AARON, BLAKE, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2015 | 02h05

Bem-vindos a 2015. Os EUA têm um novo Senado controlado pelos republicanos, o início dos anos do presidente Barack Obama como pato manco (apelido dado ao líder americano sem poder em fim de mandato) e uma corrida eleitoral de 2016 que se aproxima lentamente da largada. Eis cinco questões que serão respondidas nos meses seguintes.

1. Obama consegue recuperar sua magia? Os mais recentes dados da Gallup mostram que a aprovação do presidente é agora igual à reprovação, de 48%. É a primeira vez que Obama não é reprovado nas pesquisas desde setembro de 2013 - intervalo de 16 meses. Não é difícil ver por quê. As notícias econômicas são favoráveis, com o crescimento do Produto Interno Bruto revisto para 5% e um fluxo constante de relatórios de empregos positivos, do tipo que não se via desde a recessão. O mercado de ações ultrapassou recentemente a marca de 18 mil pontos. E talvez o mais importante, o preço da gasolina caiu para cerca de US$ 0,50 por litro em alguns lugares.

Da última vez que vimos Obama, ele parecia ter recuperado o toque mágico. Na entrevista de encerramento do ano, ele estava relaxado, fez comentários astutos e deu atenção principalmente às repórteres. Criticou publicamente a Sony por ter cancelado a estreia do filme A Entrevista, uma jogada que se revelou expressiva e de sucesso. Isso significa que Obama vai voltar a Washington de suas férias no Havaí e ser um presidente popular? É claro que não. A oposição a Obama já é praticamente certa.

Mas a pergunta é se ele será popular o bastante a ponto de ter à disposição algum capital político real para lidar com o novo Congresso controlado pelos republicanos. Se a aprovação de Obama retornar ao patamar dos 40%, ele terá menos fichas para negociar; se chegar perto dos 50%, pode obter mais concessões - ao menos em tese. E, deixando de lado o capital político, ele precisa pensar no próprio legado.

2. Os políticos fazem alguma coisa? O Congresso não fez muito recentemente. Quando alguma lei foi aprovada, isso ocorreu em geral por um prazo limite, com consequências reais caso nenhuma decisão fosse tomada. Ainda assim, alguns prazos foram extrapolados (como no caso do confisco de recursos e do desligamento do governo federal em 2013).

Agora que ambas as Casas são controladas pelos republicanos pela primeira vez no governo Obama isso vai mudar? Os republicanos dirão que, com a maioria da qual dispõem agora, podem aprovar leis e colocá-las na mesa de Obama, aumentando assim a pressão para que o presidente assine ou vete planos como a construção do oleoduto Keystone XL (que ligará o Canadá ao Texas). Antes, o Congresso controlado pelos republicanos conseguia aprovar leis apenas para vê-las ignoradas pelo Senado democrata e vice-versa. E leis que não são votadas são muito menos dignas de notícia do que um voto decisivo dado por Obama.

É claro que ainda resta saber se as leis chegarão à mesa de Obama. Afinal, os republicanos controlam 54 cadeiras do Senado - e não 60 (o limite para superar as obstruções). Os democratas criticaram o uso que os republicanos fizeram das obstruções, mas agora essa é a única flecha que restou aos congressistas democratas. Podemos esperar que eles a usem. Afinal, mudar completamente de opinião faz parte do jogo. E, na verdade, há motivos de sobra para esperar a paralisia. Afinal, há uma eleição presidencial no horizonte. Será que os republicanos aprovarão leis de concessão diante da possibilidade de ter o controle do Congresso e da presidência a partir de 2016? Será que os democratas darão aos republicanos o conforto de aprovar leis capazes de dar ao Partido Republicano a imagem de organização capaz de governar, ajudando assim a campanha do seu candidato para 2016? Parece improvável. E, tratando-se do Congresso, manter as expectativas baixas já se tornou regra.

Os temas importantes que o Congresso talvez tente levar a votação incluem o oleoduto Keystone, a imigração, uma grande lei dos transportes, reforma fiscal, um novo orçamento e talvez leis para o policiamento - câmeras individuais, etc. - em resposta à agitação em Ferguson, Missouri, e em Nova York.

3. O Partido Democrata será capaz de virar a página? Excluída a presidência, o Partido Democrata está hoje em sua pior posição desde a Grande Depressão. Os democratas chamarão a atenção para o fato de Hillary Clinton estar na frente nas intenções de voto para a presidência em 2016, mas têm problemas em qualquer eleição que não envolva o colégio eleitoral.

Outro aspecto notável do Partido Democrata é o fato de ser liderado por rostos bastante conhecidos. Uma Clinton é a favorita para a candidatura de 2016 e quase não há outros nomes formidáveis para fazer concorrência a ela. Nancy Pelosi, da Califórnia, retorna como líder da minoria na Câmara, apesar de ter perdido o posto quatro anos atrás. E, a partir de sábado, Harry Reid, de Nevada, terá completado uma década à frente dos democratas no Senado.

A base eleitoral dos democratas ainda não está clamando por sangue novo, mas seu status de minoria está apenas começando. E ninguém gosta de ser a minoria.

4. Há alguém capaz de fazer Hillary Clinton suar? Há quem goste de dizer que Hillary seria a candidata democrata inevitável em 2008, mas a vantagem dela entre as intenções de voto é muito maior hoje do que oito anos atrás. E boa parte disso tem a ver com a já mencionada falta de alternativas. Tendemos a pensar na inevitabilidade de Hillary como um certo exagero; a vantagem dela decorre principalmente do sobrenome, algo que ninguém mais tem (a não ser Joe Biden). Mas qual dentre os democratas que poderiam se candidatar em 2016 seria capaz de arrecadar dinheiro o bastante para ameaçar as aspirações dela? Até o segundo semestre de 2015 saberemos se alguém será capaz de fazê-lo.

5. O campo dos republicanos se reduzirá ao caos? Por mais monótonas que as primárias democratas pareçam ser, as primárias republicanas prometem emoção. Basicamente, há uma dúzia de candidatos dividindo de 2% a 20% das intenções de voto. E quase todos os potenciais candidatos são governadores ou senadores que apresentam potencial para concorrer.

Isso pode ser uma opulência para o Partido Republicano em sua dimensão nacional. Mas pode se converter apenas num constrangimento. Isso porque os republicanos estão cansados de brigar entre si - especialmente após o ocorrido em 2012. A presença de 12 candidatos num debate lutando no palco pela atenção do público pode ser uma receita para o desastre.

Podemos esperar que o establishment republicano busque se unir em torno de um candidato desde o início, talvez o ex-governador do Texas, Jeb Bush, tentando reduzir o número de debates e incentivando os muitos candidatos a jogar limpo. É claro que nada disso significa que a estratégia vá funcionar.

Trata-se de uma primária presidencial aberta num partido que ainda está tentando decifrar a própria identidade. E isso significa bastante disputa entre facções. Afinal, o Senador Ted Cruz, do Texas, não irá atrás do eleitorado de Jeb Bush. A questão é até que ponto isso pode ser contido, levando-se em consideração o quanto está em jogo. Pode ser um espetáculo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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