O que motiva os atiradores

Homens-bomba que cometem atentados terroristas têm comportamento em comum com autores de massacres

Adam Lankford, The New York Times*, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2012 | 02h08

O que Aimal Kansi, Ali Abu Kamal, Hesham Mohamed Hadayet e Nidal Malik Hasan têm em comum com Eric Harris, Dylan Klebold, Seung-Hui Cho e Adam Lanza? Os primeiros quatro declararam estar combatendo a diabólica opressão do governo americano sobre os muçulmanos: foram eles os autores, respectivamente, dos atentados contra a sede da CIA, o Empire State Building, o Aeroporto Internacional de Los Angeles e a base do exército em Fort Hood, no Texas. Os últimos quatro aparentemente agiram por motivos pessoais; eles escolheram como alvos uma escola de segundo grau, uma universidade e uma escola primária.

Durante anos, o senso comum dizia que os terroristas suicidas são pessoas racionais que agem por motivos políticos, enquanto os autores de matanças indiscriminadas e suicidas são pessoas solitárias que sofrem de alguma perturbação mental. Mas os dois grupos têm muito mais em comum do que se costuma imaginar.

Nos últimos três anos, analisei entrevistas, estudos de casos, cartas deixadas por suicidas, vídeos de pessoas que se preparavam para o martírio e declarações de testemunhas e constatei que os terroristas suicidas são suicidas no sentido clínico - o que contradiz o que muitos psicólogos e cientistas políticos vêm afirmando.

Embora os terroristas suicidas possam ter as mesmas convicções das organizações de que constituem a principal propaganda, são fundamentalmente motivados pelo desejo de matar e de ser mortos - assim como a maior parte dos autores de chacinas.

Na realidade, deveríamos considerar muitos desses assassinos como terroristas suicidas desprovidos de uma ideologia. Em alguns casos, eles afirmam estar lutando por uma causa - o neonazismo, a limpeza da raça, a supremacia masculina ou uma revolução contra o governo estabelecido - mas, como acontece com os terroristas suicidas, suas ações em geral têm uma causa muito mais profunda e mais pessoal.

Motivos. Aparentemente, há três fatores que distinguem estes matadores. O primeiro é que em geral eles sofrem de problemas mentais que geram o seu desejo de morrer. Os diagnósticos psiquiátricos específicos variam consideravelmente, e vão desde a depressão clínica e doenças causadas por stress pós-traumático à esquizofrenia e a outras formas de psicose.

Em 2010, a taxa de suicidas foi de 12,4 em cada 100 mil pessoas nos Estados Unidos (a mais elevada em 15 anos). O suicídio é relativamente raro, mas é ainda mais raro na maioria dos países muçulmanos. Portanto, os terroristas suicidas e os autores de chacinas pertencem a um grupo limitado.

O segundo fator é uma profunda sensação de vitimização dessas pessoas e da convicção de que sua vida foi arruinada por alguém, às quais atribuem o bullying, a opressão ou a perseguição. Não surpreende que a presença de uma doença mental possa intensificar estas convicções, levando-as a perceber de maneira irracional e exagerada a própria vitimização.

Não faz muita diferença se a entidade da qual se consideram vítima é um governo inimigo (no caso dos terroristas suicidas) ou o chefe, ou os colegas de trabalho, de escola ou membros da família (no caso dos autores de matanças indiscriminadas).

O problema é que o indivíduo que sofre dessas perturbações acha que está sendo profundamente humilhado e que a vingança violenta se justifica plenamente. Em muitos casos, o alvo da vingança torna-se maior e mais simbólico do que uma só pessoa, de modo ele passa a considerar todo um grupo ou categoria de pessoas como responsável pela sua dor e sofrimento. Então, a urgência de cometer suicídio torna-se um desejo de assassinato e suicídio.

O terceiro fator é o desejo de alcançar fama e glória por meio da matança. Mais de 70% dos assassinos-suicidas são cônjuges ou parceiros, e esses crimes em geral ocorrem em casa.

Os que cometem assassinato e suicídio em público são muito mais desinibidos e raros. Em sua maioria, os terroristas suicidas acreditam que serão honrados e celebrados como "mártires" depois da morte e, evidentemente, as organizações terroristas gravam vídeos do martírio para inspirar outros desesperados a se apresentarem como voluntários para também se imolarem.

Se Eric Harris, Dylan Klebold, Seung-Hui Cho e Adam Lanza tivessem nascido em Gaza e recebido a formação da odiosa propaganda das organizações terroristas, teriam amarrado bombas na cintura e se imolado? Temo que sim. (TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA)

* É professor-assistente da Universidade de Alabama, autor de "O mito do martírio"

Mais conteúdo sobre:
Visão global

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.