AFP PHOTO / Mohammad ALI MARIZAD
AFP PHOTO / Mohammad ALI MARIZAD

O que mudará no Irã

Jovens e marginalizados pela crise econômica põem contra a parede um regime que não tolera a dissidência

Haleh Esfandiari *, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2018 | 05h00

Após uma semana de agitação política no Irã, é possível delinear as características mais importantes dos protestos e manifestações.

A agitação começou na cidade de Meshad, no nordeste do país, com reivindicações econômicas, que continuaram sendo um elemento central dos protestos enquanto eles se espalhavam. Compreensivelmente. Embora o presidente Hassan Rohani tenha tido sucesso em moderar a inflação e a economia cresça lentamente, os preços continuam altos, especialmente para produtos de primeira necessidade. Os chefes de família em geral possuem dois ou três empregos. O desemprego e o subemprego permanecem elevados, especialmente entre os jovens. E a diferença entre ricos e pobres aumentou. 

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O orçamento que Rohani apresentou recentemente ao Parlamento propõe reduzir os subsídios para os pobres, embora destine fundos generosos para as organizações de propaganda islâmica. Os iranianos esperavam prosperidade e um diálogo mais fácil com o Ocidente, uma vez que as sanções foram levantadas como resultado do acordo nuclear que o Irã assinou com as potências mundiais, em 2015. Tais esperanças foram frustradas. A prosperidade não chegou e as relações com os EUA sob o presidente Donald Trump ficaram ainda mais tensas.

Uma segunda característica marcante dos protestos é a velocidade com que as queixas políticas foram adicionadas às econômicas. Os manifestantes gritaram slogans como “Morte a Rohani”, o presidente que prometeu abertura à sociedade, melhores condições econômicas e ganhos nas relações com a comunidade internacional. Gritaram também “Morte ao ditador”, uma referência clara ao líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Pediram que ele renunciasse e gritaram: “Nós não queremos o governo clerical!”. 

Além disso, surpreendentemente, exigiram o fim dos compromissos iranianos no Líbano, na Síria e na Faixa de Gaza. Querem que o dinheiro gasto no exterior seja dedicado para melhorar as condições internas. Tais slogans atingem os próprios pilares das políticas do Irã.

O padrão geográfico dos protestos também é impressionante. Na verdade, as manifestações começaram primeiro em uma grande cidade, Meshad, e também houve passeatas na capital, Teerã. Mas os principais centros de agitação foram cidades menores em todo o país. 

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Ao contrário dos grandes protestos eleitorais de 2009, centrados em Teerã e em outros grandes núcleos urbanos – que atraíram grandes comunidades da classe média –, essas manifestações parecem ser obra de jovens, desempregados e pessoas marginalizadas.

A resposta do governo foi digna de nota. Rohani, em suas primeiras observações, reconheceu o direito de protestar e admitiu motivos para queixas no campo econômico. O governo parece ter decidido, como uma questão de estratégia política, permitir que as pessoas deem vazão ao seu descontentamento pela economia, mas impôs limites sobre qualquer outra coisa. Até mesmo o jornal de direita Kayhan, próximo do Ministério da Inteligência, reconheceu que há motivos para queixas pela economia, mas condenou a violência. 

Alguns analistas descreveram como contida a resposta imediata do regime e de suas forças de segurança. Continua a ser um fato, no entanto, que mais de 20 pessoas foram mortas e muitas centenas presas. O que acontecerá em seguida no Irã? Dependerá do crescimento dos protestos e da disposição das forças de segurança do país para esmagá-los.

Mesmo que os protestos sejam reprimidos ou simplesmente diminuam, eles constituem um alerta para o regime, que nitidamente precisa atender o desejo de parcela da população para aliviar as difíceis condições econômicas, dar maior liberdade, ter respeito pelos direitos humanos e experimentar relações mais fáceis com o mundo exterior. As pessoas também desejam ver o fim da corrupção oficial generalizada e da dominação do poder por uma reduzida elite.

A experiência passada não é promissora. Os detentores de poder e dos privilégios no Irã não estão dispostos a compartilhá-los. A Guarda Revolucionária tornou-se um dos participantes dominantes na economia, nas questões de segurança doméstica e na política externa. 

O regime está empenhado em ampliar sua influência na região, independentemente do custo financeiro ou de danos às relações do Irã com seus vizinhos e com o Ocidente. Os serviços de segurança e o Judiciário trabalham juntos para reprimir atividades de dissidência política.

Rohani teve pouco ou nenhum sucesso na superação desses sérios obstáculos a significativas reformas políticas, econômicas e sociais. Ele pode persuadir Khamenei a permitir alguma moderação nos controles políticos. Pode adotar medidas para facilitar os controles sociais. Ele pode até encontrar maneiras de melhorar as condições econômicas para os pobres e os trabalhadores. Mas serão apenas mudanças marginais. É difícil ver que algo fundamental mude.

É MEMBRO DE POLÍTICAS  PÚBLICAS DO WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS. NO IRÃ, ONDE 

NASCEU, ERA JORNALISTA E FOI VICE-SECRETÁRIA-GERAL DA ORGANIZAÇÃO DAS MULHERES DO IRÃ. AS OPINIÕES EXPRESSAS NESTE ARTIGO, ORIGINALMENTE PUBLICADO POR ‘THE HILL’, SÃO UNICAMENTE DA AUTORA

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