Saul Loeb / AFP
Saul Loeb / AFP

O que mudou para os democratas optarem pelo impeachment de Trump?

Para analistas políticos e especialistas, há três razões principais para a decisão; veja e entenda quais são elas

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2019 | 10h18

WASHINGTON - Contrária, durante meses, à abertura de um processo de impeachment contra Donald Trump, a líder da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, anunciou na quarta-feira, 25, o início do inquérito que pode tirar o presidente americano do poder. A ação levanta uma série de dúvidas no país sobre o que mudou no cálculo da oposição democrata para convencê-la a dar sequência ao processo.

Analistas políticos e especialistas apontam que três razões foram consideradas por Pelosi: a gravidade do fato e o fácil entendimento para o público em geral da violação cometida por Trump, chamada por ela de "traição", o apoio da ala mais moderada do Partido Democrata e o emocionante discurso de John Lewis, ícone do movimento pelos direitos civis no país.

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Entenda abaixo os fatores que fizeram os democratas mudarem de ideia e passarem a buscar o impeachment de Trump.

Caso de fácil compreensão

A investigação sobre o suposto conluio entre integrantes da campanha de Trump à presidência e o governo da Rússia durante as eleições de 2016 era confusa demais. Havia uma infinidade de protagonistas e subtramas que distraíam a opinião pública do caso principal.

A polêmica conversa por telefone entre Trump e o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, tem o perfil oposto, segundo Mark Peterson, professor de Política da Universidade da Califórnia, o que facilita o entendimento do eleitor, seja ele republicano ou democrata, sobre o que de fato aconteceu.

No dia 25 de julho, durante uma ligação, Trump pediu a Zelenski que trabalhasse com seu advogado pessoal, Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova York, e com o procurador-geral dos EUA para investigar a conduta de Joe Biden, vice-presidente do país no governo de Barack Obama e um dos principais candidatos às primárias democratas para as eleições de 2020.

O alvo, na verdade, era o filho do ex-vice-presidente, Hunter, que assessorou uma empresa de gás ucraniana.

Dias depois da ligação, Trump ordenou a suspensão de um repasse de US$ 400 milhões em assistência militar para a Ucrânia, um movimento que os democratas consideram uma tentativa do presidente de pressionar Zelenski a atender seu pedido.

"É uma história mais simples. Trump, como presidente dos EUA, usou sua função de líder da nossa política externa para influenciar o presidente de outro país, a Ucrânia, que depende muito dos EUA, com o objetivo de promover seus próprios interesses políticos", resumiu Peterson.

Apoio da ala mais moderada

Ao longo dos últimos meses, Pelosi barrou as tentativas de seus aliados mais radicais de abrir um processo de impeachment contra Trump e argumentava que, como líder da maioria democrata na Câmara dos Deputados, seu papel era evitar qualquer decisão que prejudicasse o partido nas eleições de 2020.

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Pelosi também estava preocupada com os democratas mais moderados, que ocupam cadeiras de distritos onde Trump saiu vitorioso em 2016, mas que venceram seus rivais republicanos nas eleições legislativas de 2018. O temor era que um pedido precipitado de impeachment transformasse o partido em extremista, na visão de potenciais eleitores indecisos.

Contudo, na noite de segunda-feira, sete democratas moderados surpreenderam ao publicar um artigo de opinião no jornal Washington Post para pedir o impeachment de Trump em razão da polêmica ligação com o presidente da Ucrânia.

"Essas acusações são uma ameaça contra todos aqueles que um dia juramos proteger", dizia o título do artigo.

Os democratas foram eleitos em 2018 e todos têm experiência nos setores militar e de inteligência dos EUA, o que dá a eles autoridade para dizer que a conversa telefônica entre Trump e Zelenski representa uma ameaça à segurança nacional do país.

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A ala acredita que tem a obrigação patriótica de tirar Trump do poder, deixando Pelosi sem forças para dizer “não” aos mais radicais do partido. A presidente da Câmara dos Deputados não tinha outra opção a não ser seguir com o processo de impeachment.

"Agora eles acreditam que a história está ao lado deles para fazer o correto", avaliou em entrevista à agência de notícias Efe Mark J. Rozell, da Faculdade de Política da Universidade George Mason.

Discurso de John Lewis

O congressista afro-americano John Lewis é uma das vozes mais influentes entre os democratas. Há mais de 50 anos, ele acompanhou Martin Luther King quando este fez o famoso discurso "Eu tenho um sonho", durante a Marcha de Washington em 1963.

Quando Lewis, de 79 anos, começou a falar de sua cadeira no Congresso na quarta-feira, todos estavam atentos.

"Não devemos esperar. Agora é o momento de atuar. Fui paciente enquanto testávamos outros caminhos e ferramentas. Nunca encontraremos a verdade a menos que usemos o poder outorgado à Câmara dos Deputados. O futuro da nossa democracia está em jogo", disse Lewis.

Para José Parra, ex-assessor do ex-líder democrata no Senado Harry Reid e especialista em comunicação pública, o discurso de Lewis foi um fator determinante.

"Lewis tem um manto de autoridade que todos usam como ponto de referência. Ele não era tão favorável ao impeachment antes. E acho que ver sua mudança esclareceu a situação para muitos democratas que estavam em dúvida", argumentou Parra. / EFE

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