O que o Egito pode ensinar aos Estados Unidos

A verdade é que os EUA têm sido lentos não só em relação à Tunísia e ao Egito nas últimas semanas, mas ao Oriente Médio como um todo há décadas. Nós apoiamos autocratas corruptos desde que eles mantenham o petróleo jorrando e não sejam agressivos demais com Israel. Mesmo reconhecendo que armar uma política externa é mil vezes mais difícil do que parece, permitam-me sugerir quatro lições a serem tiradas de nossos erros:

Nicholas D. Kristof, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2011 | 00h00

1. Deixar de tratar o fundamentalismo islâmico como um bicho-papão e de permitir que ele guie a política externa americana. A paranoia americana sobre o islamismo causou tanto dano quanto o próprio fundamentalismo. Na Somália, isso levou os EUA a tolerarem uma invasão etíope em 2006 que foi catastrófica para os somalis e resultou em mais extremismo por lá. E, no Egito, nossos presságios sobre o islamismo nos paralisaram e nos colocaram no lado errado da história.

Nós nos confundimos quando agimos com se a democracia fosse boa para os EUA e Israel, mas não para o mundo árabe. Muitos americanos aceitaram o estereótipo preguiçoso de que os países árabes são inóspitos para a democracia, ou que os beneficiários de um regime popular seriam extremistas como Osama bin Laden. Tunisianos e egípcios sacudiram esse estereótipo, e o maior perdedor será a Al-Qaeda. Não sabemos o que será do Egito, mas os egípcios demonstraram o poder da não violência de um modo que enfraquece todo o discurso extremista. Será fascinante ver se mais palestinos adotarão protestos de massa não violentos na Cisjordânia como uma estratégia para enfrentar os assentamentos e apropriações de terras ilegais israelenses.

2. Precisamos de uma inteligência melhor, do tipo que decorre não de interceptar ligações telefônicas de um presidente a sua amante, mas de conviver com os vulneráveis. Após a Revolução Iraniana de 1979, houve um doloroso questionamento sobre por que a comunidade de inteligência deixou de perceber tantos sinais, e eu acho que precisamos da mesma coisa hoje.

3. Novas tecnologias lubrificaram os mecanismos da revolta. Facebook e Twitter facilitaram a formação de uma rede pelos dissidentes. Os telefones celulares significam que a brutalidade do governo muito provavelmente terminará no YouTube, aumentando o custo da repressão. A tecnologia mais crítica, talvez seja a televisão. Foram canais árabes via satélite como a Al-Jazira que quebraram o monopólio governamental da informação no Egito. Com muita frequência, os americanos menosprezam a Al-Jazira (e seu serviço em inglês em alguns sistemas a cabo), mas ela desempenhou um papel maior na promoção da democracia no mundo árabe do que qualquer coisa que os EUA tenham feito. Deveríamos investir mais nessas tecnologias. A melhor maneira de alimentar mudanças no Irã, Coreia do Norte e Cuba envolverá transmissões de TV, celulares e servidores intermediários para saltar barreiras na internet.

4. Precisamos ficar à altura de nossos valores. Nós perseguimos uma realpolitik no Oriente Médio que fracassou. Condoleezza Rice estava certa quando disse no Egito em 2005: "Por 60 anos, meu país, os EUA, buscou a estabilidade às custas da democracia no Oriente Médio. Não conseguiu nenhuma das duas." Não sei qual país será o próximo Egito. Alguns dizem que é a Argélia, Marrocos, Líbia, Síria ou Arábia Saudita. Outros sugerem que Cuba e China são vulneráveis. Mas nós sabemos que em muitos lugares há uma insatisfação profunda e um anseio profundo por uma maior participação política.

E a lição da história de 1848 a 1989 é que levantes tornam-se virais e ricocheteiam de país a país. Após um longo estágio de hesitação, o presidente Barack Obama acertou no tom quando falou na sexta-feira após a queda de Mubarak. Ele apoiou explicitamente o poder popular, enquanto deixava claro que caberá aos egípcios decidir o seu próprio futuro. Esperemos que isso reflita um novo começo não só para o Egito, mas também para a política americana para o mundo árabe. Inshallah. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É COLUNISTA DO "NYT"

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