Aaron Lynett/The Canadian Press via AP
Aaron Lynett/The Canadian Press via AP

O que o frio nos Estados Unidos tem a ver com aquecimento global?

Como os cientistas explicam as temperaturas muito baixas registradas desde domingo e a quebra de recordes consecutivos de frio

Seth Borenstein, Associated Press, O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2018 | 22h33

A temperatura na cidade de Anchorage, no Alasca, estava maior do que em Jacksonville, na Flórida, na última quarta-feira, dia 3. As temperaturas médias no Alasca, aliás, foram maiores que em muitas cidades da Flórida.

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A temperatura nos Estados Unidos parece estar de ponta cabeça, e os cientistas afirmam que isso tem acontecido com muita antecedência. A seguir, alguns especialistas respondem às dúvidas mais comuns sobre a última onda de frio nos Estados Unidos.

Como pode estar frio com aquecimento global?

Tempo é diferente de clima. O tempo é medido por alguns dias ou semanas em uma região. O clima é ao longo de anos e décadas, no mundo todo. “O tempo é como o humor de uma pessoa: varia frequentemente, enquanto o clima é a personalidade, mais a longo prazo”, diz Jason Furtado, professor da Universidade de Oklahoma.

Por que está tão frio?

O ar super frio fica normalmente preso no Ártico por um “vórtice polar”, que é um gigantesco padrão meteorológico circular em torno do Pólo Norte. O vórtice mantém esse ar frio preso. “Então, quando esse vórtice se enfraquece, é como uma barragem prestes a explodir", e o ar frio dirige-se para o sul, diz Judah Cohen, um especialista em tempestades de inverno da Atmospheric Environmental Research, uma empresa privada de Boston. “Essas temperaturas tão baixas não seriam recorde no Canadá, no Alasca ou na Sibéria, mas elas estão deslocadas, estão fora de lugar”, diz Cohen, que havia previsto um inverno mais frio do que o normal para grande parte dos EUA.

Isso é incomum?

Sim, mas mais pela duração do que pela temperatura. Boston bateu um recorde de 100 anos de baixas temperaturas em sequência de 7 dias. Recordes de mais de 1.600 registros diários de frio foram quebrados na última semana de dezembro, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica. Para Greg Carbin, do Centro de Previsão do Tempo do Serviço Meteorológico Nacional, “as estatísticas mais significativas são as de como a temperatura média da semana passada foi a mais baixa em mais de um século de medição para Minneapolis, Chicago, Detroit e Kansas City, o terceiro mais frio em Pittsburgh e o quinto mais frio da cidade de Nova York”.

É apenas nos Estados Unidos?

Por enquanto sim. Enquanto os Estados Unidos estão mais congelados, o resto do mundo tem aquecido mais do que o normal. O mundo como um todo era 0,5 graus Celsius mais quente do que o normal na terça-feira, e o Ártico estava 3,4 graus Celsius mais quente do que o normal segundo análise do Instituto da Mudança Climática da Universidade de Maine.

O que deve acontecer agora?

O frio vai continuar e pode até piorar para grande parte da costa leste neste fim de semana por causa de uma tempestade monstruosa que está sendo preparada no Atlântico e Caribe, o que os meteorologistas estão chamando de “furacão de neve” ou “bomba ciclone.'' O evento ocorre quando a pressão atmosférica cai muito num espaço de tempo muito curto, conferindo à tempestade uma força explosiva. Mas os meteorologistas não acreditam que a tempestade atingirá a costa leste, mantendo a maioria da neve e os piores ventos sobre o oceano aberto, embora partes do Nordeste sejam afetados por ventos fortes, ondas e muita neve. “Para o Nordeste, este fim de semana pode ser o mais frio dos mais frios com a tempestade”, disse Jason Furtado, professor de meteorologia da Universidade de Oklahoma. “Para o resto, no entanto, podemos estar terminando a onda fria com uma grande comemoração”.

O que faz essa onda ser tão intensa?

Uma mistura de mudanças naturais e alterações climáticas causadas pelo homem. “A mudança climática não fez a tempestade polar mais extrema, mas pode ter feito ela se mover mais rápido”, diz Furtado. Um estudo recente da cientista do clima do Instituto Potsdam, Marlene Kretschmer, descobriu um enfraquecimento do vórtice polar ocorrendo de forma mais corriqueira desde 1990. O estudo está mais focado na Europa. Mas pesquisas contínuas mostram que parece haver uma conexão semelhante para o Ártico. / Seth Borenstein, Associated Press

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