REUTERS/Grigory Dukor
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O que pensam os analistas sobre a entrada do Brasil na OCDE

Peter Hakim, do Diálogo Interamericano, e Fernando Cutz, ex-conselheiro da Casa Branca, avaliam positivamente a ideia de o País de se integrar a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, mas ressaltam o possível alto custo da iniciativa

Luiz Raatz e Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2019 | 11h52

O Estado pediu para especialistas avaliarem a decisão do presidente Jair Bolsonaro, apoiada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, de colocar o País na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento ou Econômico (OCDE), o apoio de Donald Trump a esta demanda e as exigências feitas por Washington para apoiar Brasília.

Para Peter Hakim, presidente do Diálogo Interamericano, entrar na OCDE seria benéfico para o Brasil pois reforçaria a confiança de investidores, empresários e do setor financeiro de que a economia se recuperou e o país é seguro para atrair investimentos. Ele ressalta, no entanto, que "seria melhor (...) não ter de abandonar seu papel na OMC".

Fernando Cutz, ex-conselheiro da Casa Branca, também concorda que a medida trará mais confiança para investidores. "A entrada (na OCDE) elevaria o Brasil a outro nível de promessas e exigências", afirmou.

Veja abaixo a íntegra das avaliações de Hakim e Cutz:

• Peter Hakim

Presidente do Diálogo Interamericano

"A entrada da OCDE seria boa para o Brasil, mas os custos seriam altos. O mais importante para o Brasil no entanto, e o governo Bolsonaro sabe bem disso, é a economia ir bem e deixar para trás a recessão e a estagnação. Isso é crucial para o sucesso do governo. 

Uma relação mais profunda com os EUA pode convencer investidores, empresários e o setor financeiro que o Brasil tem uma chance de colocar a economia para funcionar. Entrar na OCDE reforça essa confiança de que o Brasil estaria num grupo de países ricos do Ocidente e pode ser visto como um local interessante para investimentos. 

Seria melhor para o Brasil, no entanto, não ter de abandonar seu papel na OMC. Só que Brasil e EUA estão negociando. A construção de uma relação bilateral não é algo rápido. O que os Estados Unidos e o Brasil querem um do outro é um apoio aos esforços do outro.

Os EUA estão dizendo que 'se vocês querem A, terão de abrir mão de B'. Os EUA não estão agindo como alguém que quer um parceria próxima com o Brasil, mas está agindo como alguém quer uma contrapartida em tudo que oferece em vez de construir uma relação confiável a longo prazo. 

Bolsonaro deu diversos exemplos de que apoiaria os EUA incondicionalmente em relação a Israel, ao Acordo do Clima, ao criticismo com a China, Cuba e Venezuela e me parece que os EUA estão pedindo coisas demais em retorno. Não sei como o Brasil resistiu tão pouco e é triste como os EUA estão se aproveitando desse momento.

Não se constrói uma relação robusta em dois anos. A construção de confiança não é apenas entre governos, mas também entre empresas, burocracias etc. EUA e Brasil tem tido uma relação amistosa ao longa da história, mas nunca tiveram uma forte parceria. Nunca confiaram plenamente um no outro. 

O problema é que Bolsonaro e Trump podem ter afinidade, mas uma relação próspera precisa mais do que um presidente que goste de outro. Você precisa de instituições, confiança e isso leva tempo."

• Fernando Cutz

Ex-conselheiro da Casa Branca

"A entrada seria muito positiva. Elevaria o Brasil ao nível de outros países economicamente avançados, eleva o País a outro nível de promessas e exigências para se realizar economicamente, o que protege o Brasil no futuro. Quem quer que seja o presidente no futuro, teria que cumprir essas exigências.

Qualquer investidor ficaria muito mais seguro para investir diante dessas proteções. Há um nível de conforto que não existe hoje. O País tem que crescer, olhar para a frente em vez de se prender a coisas do passado. A economia brasileira tem tudo pra subir, e precisa de mais confiança com investidores do exterior. Esse é o tipo de medida que ajuda a trazer confiança."

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