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O que pensam os catalães que são contra o plebiscito de independência

Exceção nesta região, defensores da unidade territorial da Espanha dizem fazer parte de 'maioria silenciosa' e criticam a forma como o governo regional de Carles Puigdemont convocou a consulta, prevista para domingo

O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2017 | 16h39

LA CANONJA, ESPANHA - Uma bandeira catalã com um "Não" decora a sacada da casa de Luis Filgueras. É uma exceção nesta região onde muitas pessoas contrárias à independência preferem se manter em silêncio a poucos dias do plebiscito sobre o assunto, marcado para domingo, mas cuja realização está ameaça em razão das ações tomadas por Madri contra a iniciativa.

"Muita gente pensa como eu, mas não se atreve a dizer", diz o operário de 52 anos aposentado prematuramente em razão de uma doença. "Isso é um erro. Dizem que com a independência será tudo bonito, um caminho de rosas. Mas será muito complicado, teremos mais gastos e então veremos o acontecerá com a economia, com as empresas e com as pensões", afirmou o morador de La Canonja, em Tarragona.

Nas eleições regionais de 2015, que deram maioria absoluta aos independentistas no Parlamento catalão, apenas 23% dos eleitores optaram por partidos que defendem a secessão neste povoado de 5,8 mil habitantes.

Em comparação, os partidos contrários à independência conquistaram 64% dos votos na região, o segundo melhor resultado em toda a Catalunha.

Medo de ficar marcado

As ruas da cidade, no entanto, mostram o contrário. Bandeiras independentistas, cartazes com o "Sim" ou mensagens com a palavra "Democracia" decoram o centro antigo, onde se concentram os defensores da separação da região em relação ao governo central.

Mais nos subúrbios, nos bairros de casas unifamiliares e nos blocos de apartamentos onde os trabalhadores de outras partes da Espanha foram morar no século 20, atraídos pela poderosa indústria da área, somente bandeiras espanholas são vistas.

Ao contrário dos independentistas, que frequentemente protagonizam enormes manifestações, os que se opõem à separação organizam mobilizações esporadicamente, em muitos casos convocadas por grupos de extrema direita, o que faz os líderes da oposição na Catalunha se colocarem como uma "maioria silenciosa".

Em La Canonja, "os independentistas são poucos, mas muito barulhentos", diz Filgueras, descendente da Andaluzia.  "E, como os outros também não dizem nada, por medo de que fiquem marcados, colocam a todos nós no mesmo barco: 'dos catalães que querem a independência. Bom, eu não quero e sou catalão. Sou espanhol e quero seguir desta forma."

Vários vizinhos de Filgueras não quiseram conversar com a reportagem ou pediram pra não ter o nome divulgado. "Prefiro evitar problemas. Veja o que aconteceu Serrat", diz um deles, se referindo ao famoso compositor catalão Joan Manuel Serrat, criticado agressivamente depois de atacar a forma como o plebiscito foi convocado pelo governo regional de Carles Puigdemont.

"Se você fala a favor do não, pode parecer que concorda com (o premiê espanhol, Mariano) Rajoy e isso não é verdade. Para mim, ele agravou o problema", diz Joaquín González, de 35 anos. "Mas nos separar não é a solução. Não quero que isso acabe como a URSS ou a Iugoslávia, divididas em pequenos países."

Cansaço

Na prefeitura da cidade, Roc Muñoz, que dirige o município há 20 anos, assegura que existe uma espécie de "cansaço" em razão da conflituosa relação, que cresceu a partir de 2012 quando o governo regional começou a pedir a realização do plebiscito de independência, movimento rechaçado repetidamente por Rajoy.

"As pessoas daqui não se preocupam com essas questões. Temos uma situação econômica invejável e os cidadãos não precisam de aventuras, nem de uma Catalunha grandiosa e independente", garante Muñoz.

Curiosamente, esta saúde econômica só foi alcançada pelo povoado graças à separação, em 2010, da cidade de Tarragona, a qual pertencia como bairro desde 1965. Desde então, o município se beneficiou com € 8 milhões pagos diretamente por várias multinacionais químicas instaladas em seu território.

"Fizemos de maneira totalmente diferente. Não entramos em choque com o poder e as leis", defende Muñoz, lembrando que percorreu toda a região para conseguir os acordos necessários para se tornar independente e convencer seus vizinhos a apoiá-lo de forma quase unânime.

Como muitos prefeitos do Partido Socialista contrários ao plebiscito, Muñoz não fornecerá locais para votação, o que lhe rendeu críticas e ameaças por vários companheiros de partido.

Em La Canonja, as urnas devem ser instaladas em um instituto público dependente do governo regional, mas ainda não está certo se ele funcionará no domingo e qual será a participação na votação. Entre os partidários do "Não", a maioria parece optar pela abstenção.

"Se acabarem deixando a gente votar, o que duvido, não pretendo ir", garante Javier Molina, desempregado de 61 anos. "Não é uma votação com garantias. Ela é organizada pelas mesmas pessoas que querem a independência, o resultado será contabilizado por eles, e só querem que nós participemos para que parece um plebiscito de verdade", diz. / AFP

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