O que pode derrubar Sarkozy

Franceses até admitem casos sexuais do líder, mas os de corrupção podem levar à sua renúncia ou à de seu ministro

Angelique Chrisafis / THE GUARDIAN, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2010 | 00h00

Como todos sabem, escândalos sexuais não importam muito na França. No caso de Jacques Chirac, sua capacidade de manter várias amantes ao mesmo tempo era vista como prova de suas excelentes habilidades administrativas. Para os franceses, o verdadeiro tabu sempre foi o dinheiro. Mas as coisas parecem ter mudado depois que Sarkozy chegou ao poder graças a uma onda de gastança incontida. Desde então, tem sido difícil determinar onde se localiza o norte da bússola moral, e até se tal parâmetro ainda existe.

Dois escândalos de corrupção em particular fazem com que nos perguntemos o que seria necessário, afinal, para fazer um ministro renunciar - ou mesmo um presidente, apesar da imunidade legal que o cargo traz. Um dos escândalos envolve a morte de 11 inocentes, supostamente assassinados para pagar o preço das absurdas ambições políticas do mentor de Sarkozy; o outro envolve as suspeitas de que sua campanha presidencial tenha sido financiada por uma senhora dada à prática de oferecer envelopes de dinheiro para distrair a atenção das autoridades fiscais.

Os casos são muito graves, especialmente em se tratando do chamado "L"Affaire Karachi", o escândalo de corrupção política de maior alcance potencial das últimas décadas. Se os magistrados encarregados da investigação estiverem corretos, o então ministro do Orçamento, Nicolas Sarkozy, usou em 1994 propinas ilegais obtidas numa transação de venda de armas a Islamabad para financiar a fracassada campanha que ele administrou para seu mentor, Édouard Balladur. Em 1995, o recém-eleito Chirac, arquirrival de Sarkozy, exigiu o fim dos subornos. Então, em 2002, 11 engenheiros franceses foram mortos num atentado suicida em Karachi quando estavam a caminho dos submarinos envolvidos na venda.

Um juiz investigador crê que o ataque foi provavelmente um ato de vingança por causa da interrupção dos pagamentos de comissão por parte da França. Os parentes das vítimas estão prontos para processar Chirac por homicídio culposo se for provado que ele sabia do perigo que a equipe corria no Paquistão. Será que as disputas internas no partido de Chirac eram tão importantes a ponto de colocar em risco a vida de franceses inocentes? Estariam Sarkozy e Balladur tão desesperados para arrumar dinheiro a ponto de preparar um suspeito acordo de venda de armas ao Paquistão, que resultou no roubo de dezenas de milhões de seu governo? Eles negam veementemente as acusações e a investigação prossegue... bem, de certa forma, porque documentos confidenciais foram ocultados dos juízes independentes, que dizem que seu trabalho enfrenta obstrução sistemática. Agora o gabinete do promotor de Paris, que responde ao governo, tenta impedir que um dos juízes investigue as propinas.

O Palácio do Eliseu é também acusado de usar grampos telefônicos e possivelmente de roubar computadores de jornalistas para suprimir outro escândalo, "L"Affaire Bettencourt". Mas este, como o penteado da própria herdeira da L"Oreal, Liliane Bettencourt, não parece ser fácil de sufocar. Para resumir: Liliane, de 88 anos, a mulher mais rica da França, transferiu vastas quantias a um fotógrafo conhecido por seduzir socialites de idade avançada. A filha, temendo que a mãe tivesse perdido o juízo e fosse alvo de exploração, procurou os tribunais. A briga dentro da família ficou feia e Liliane apelou ao amigo Sarkozy para que este pusesse fim à investigação do promotor.

Então, gravações secretas feitas pelo mordomo de Liliane foram vazadas, levando a alegações de evasão fiscal, tráfico de influência e financiamento ilegal de um partido político. Teria ela sido obrigada a entregar vastas quantias para financiar ilegalmente a campanha presidencial de Sarkozy em 2007? Teria Eric Woerth - ministro do Orçamento e tesoureiro do partido de Sarkozy - procurado Liliane em busca de doações ilegais?

Sarkozy ancorou sua última campanha presidencial no convencimento do eleitorado de que ele seria o oposto de Chirac, que, apesar da tradição da imunidade presidencial, será processado por corrupção no ano que vem. Se estes "affaires" continuarem a vir à tona, um dia o próprio Sarkozy pode se descobrir no banco dos réus. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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