Nina L. Krushcheva, THE NEW YORK TIMES

21 de novembro de 2015 | 02h02

O presidente russo, Vladimir Putin, prometeu "encontrar e punir" os responsáveis pela bomba caseira que derrubou o avião de passageiros da companhia Metrojet no Egito, no dia 31, matando 224 pessoas. O momento desse anúncio, poucos dias depois de terroristas usarem homens-bomba e fuzis Kalashnikov para matar 130 pessoas em Paris, não é coincidência. Putin vê uma abertura e quer tirar benefícios. O Ocidente não deve rejeitá-lo.

Durante semanas, o governo russo pareceu vacilar quanto à resposta que daria à derrubada do avião, como se temesse que a perda de vidas fosse considerada culpa sua devido à decisão de interferir na guerra da Síria. O massacre na França, porém, mudou completamente seus cálculos, apontando para a possibilidade de uma reaproximação entre Rússia e Ocidente. Ao atacar Paris, o Estado Islâmico (EI) transformou a guerra síria num conflito global. E, como o comportamento de Putin no encontro de cúpula do G-20 na Turquia mostrou, a Rússia está firmemente no meio do combate.

É preciso observar que uma relação de confronto com o Ocidente não se inseria no plano original de Putin. "A Rússia faz parte da cultura europeia", ele disse à BBC em 2000, logo após ter sido eleito presidente. "Não posso imaginar meu país isolado da Europa e o que chamamos de mundo civilizado. É difícil para mim enxergar a Otan como inimiga".

Foi somente em 2002, depois de a Otan iniciar negociações para a adesão de Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia à aliança que as relações degradaram. Como afirmou o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair em suas memórias, "Vladimir mais tarde chegou a acreditar que os americanos não lhe deram o reconhecimento devido".

Controle. A belicosidade de Putin se intensificou com seus problemas políticos internos - uma profunda recessão que tornou necessário canalizar a cólera dos eleitores - e com o menosprezo perceptível, especialmente da parte dos Estados Unidos - o presidente Barack Obama certa vez referiu-se a ele como "o menino entediado no fundo da sala de aula". Mas foi apenas com a intervenção da Rússia na Ucrânia e a anexação da Crimeia em março de 2014 que Putin se tornou publicamente beligerante, retratando seu país como vítima de agressão.

O Ocidente "mentiu muitas vezes para nós, tomou decisões às ocultas, colocou-nos como um 'fait accompli' (fato consumado)", disse Putin num discurso pela TV, logo após um duvidoso referendo na Crimeia consolidando o controle da Rússia sobre a região. "Isso ocorreu com a expansão da OTAN para o oeste e a mobilização de infraestrutura militar em nossas fronteiras."

Putin, desde então, pareceu responder à descrição feita por Obama da Rússia como "poder regional", procurando demonstrar a capacidade do Kremlin de agir globalmente - mais notoriamente, intervindo na Síria.

Na reunião de cúpula do G-20 na Turquia, no entanto, Putin adotou um tom bem diferente, estendendo a mão ao Ocidente. "Propusemos uma cooperação contra o terrorismo. Infelizmente, nossos parceiros nos Estados Unidos de início rejeitaram a proposta. Mas, agora, parece-me que todos perceberam que só podemos travar uma guerra eficaz unidos. Se nossos parceiros entenderem que chegou a hora de uma mudança nas nossas relações, acolhemos a ideia com satisfação".

A lógica por trás dessas aberturas de Putin é clara. A Rússia atingiu seu objetivo na Ucrânia: um conflito estagnado, o que propiciará ao Kremlin ter papel constante na política do país. Seu objetivo agora é convencer o Ocidente a suspender as sanções. Como explicaram analistas do Stratfor Global Intelligence, "a menos que o Kremlin esteja disposto a deixar que empresas russas fiquem insolventes e não paguem suas dívidas ou façam cortes ainda maiores nas suas atuais operações, ou em investimentos futuros nos próximos anos, Moscou precisará convencer os europeus a autorizar a suspensão das sanções mais severas".

Os atentados em Paris forneceram a Putin a oportunidade de colocar suas operações militares na Síria a serviço do Ocidente, um exemplo de boa vontade da Rússia em desempenhar o trabalho sujo de atacar o EI em seu próprio território. E Putin já vem fazendo concessões na esfera diplomática. No encontro de cúpula em Viena, dois dias após os ataques em Paris, Rússia e Estados Unidos deixaram de lado algumas divergências sobre como pôr fim à guerra civil na Síria, concordando com um cronograma no qual um novo governo seria eleito no início de 2017.

Os Estados Unidos e seus aliados europeus repentinamente conseguiram uma boa dose de influência sobre o Kremlin e não devem usá-la timidamente. Embora o Ocidente não deva suspender rapidamente as sanções - a disputa envolvendo a Crimeia não deve ser solucionada com rapidez -, aproveitar o desejo do Kremlin de ser reconhecido como grande potência global é uma estratégia válida.

O conflito no momento suspenso a leste da Ucrânia pode sofrer uma distensão se a Rússia for convencida a obedecer o protocolo de Minsk, retirando suas tropas da fronteira e colaborando para a realização de eleições locais segundo os critérios internacionais.

Se Putin estiver disposto a cooperar de boa vontade na Ucrânia, o Ocidente deve pensar em oferecer algumas pequenas concessões em troca. A participação da Rússia na batalha contra o EI - e a volta do país a uma comunidade internacional que respeita as leis - pode muito bem valer o preço. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

NINA L. KRUSHCHEVA É PROFESSORA DE ESTUDOS INTERNACIONAIS, DIRETORA DA ÁREA DE ASSUNTOS ACADÊMICOS NA THE NEW SCHOOL E INTEGRANTE DO WORLD POLICY INSTITUTE.

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