O que quer o Hamas, o que Israel precisa

Nenhum dos dois lados tem muito a ganhar com o conflito e a falta de verdadeiros objetivos nesse confronto também oferece alguma esperança

NATAN, SACHS, FOREIGN POLICY , O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2014 | 02h01

A guerra de desgaste que cresceu entre Israel e o Hamas desde que o grupo radical islâmico assumiu o controle da Faixa de Gaza em 2007 voltou com um terceiro round: a Operação Limite Protetor.

Os danos já são pavorosos e podem piorar. Milhões de pessoas vivem com medo constante de bombardeios: israelenses têm assistido aos foguetes do Hamas dirigidos contra eles serem destruídos pelo sistema antimísseis Domo de Ferro, enquanto os ataques aéreos em massa sobre a pequena e superpovoada Faixa de Gaza estão matando, além dos militantes, inúmeros inocentes.

Sem depreciar a severidade do sofrimento, os relatos sobre o conflito podem dar a impressão de que ele deve ser perversamente comemorado. Os israelenses assinalam repetidamente a assimetria moral entre os que tentam matar civis e os que tentam evitar atingi-los. Os palestinos assinalam repetidamente os números de suas baixas civis, prontos para acusar Israel de tudo, até, absurdamente, de "genocídio" - nas palavras do presidente palestino, Mahmoud Abbas.

Mas se quisermos impedir o sofrimento em vez de usá-lo para fins políticos, a verdadeira questão não é se Israel é mais forte do que o Hamas (ele é e não sente a necessidade de se desculpar por isso), nem se o Hamas gasta sua energia instigando o terror (ele o faz e não nega) em vez de governar e desenvolver Gaza.

Ante as consequências terríveis da guerra, as questões reais que enfrentamos agora são: como terminar essa rodada de violência? E o que os lados realmente desejam? A tragédia especial dessa rodada de luta é que nenhum lado tinha objetivos claros ou atingíveis. Israel, desde o começo, não queria esta escalada em Gaza: esperava isolar os eventos na Cisjordânia e Jerusalém da frente de Gaza e tentou a mediação egípcia antes do início da operação oficial. Em raras aberturas para o Hamas, Israel transmitiu seu desejo de distensão. O premiê israelense, Binyamin Netanyahu deixou claro que seu principal objetivo era pôr fim à luta. Mas ela prossegue sem tréguas.

O modesto objetivo israelense de restaurar a calma pode evoluir agora para algo mais amplo e mais mortífero. Sem um fim dos combates à vista, Israel está estudando a entrada em Gaza com forças terrestres. Sua intenção provavelmente seria dividir a Faixa de Gaza em duas ou três partes, limitando a liberdade de ação do Hamas enquanto inutiliza seus depósitos de armas. Israel tentou - e continuará tentando - atacar a infraestrutura de túneis do Hamas.

Incursão. Uma incursão israelense por terra oferece o risco de causar enormes baixas, mas especialmente no lado palestino. Na Operação Chumbo Fundido (2008-2009), Israel, então chefiado pelo premiê Ehud Olmert, entrou em Gaza no que se tornou, como era previsível, uma operação terrível e condenada internacionalmente.

Em 2012, durante a Operação Pilar de Defesa, liderada por Netanyahu, Israel convocou um grande número de reservistas, indicando sua disposição de entrar em Gaza, mas se absteve de fazê-lo. Apesar das críticas da direita e da insatisfação de milhares de reservistas por terem sido usados no blefe, Netanyahu preferiu a cautela. Como muitos notaram, Netanyahu só se engajou em duas operações militares relativamente pequenas: a operação aérea em 2012 e a atual. A despeito de sua retórica de "falcão", Netanyahu é, na verdade, um líder conservador e cauteloso - tanto na guerra quanto na paz. Essa operação pode se tornar seu primeiro uso importante de forças terrestres cruzando as fronteiras de Israel.

Por que o Hamas recusou as aberturas israelenses para a desescalada? Ou, como Mahmoud Abbas disse ao Hamas: "O que vocês estão tentando conseguir lançando foguetes?" A liderança do Hamas parece ter sido arrastada para esse conflito pelos eventos que o precederam e por seus militantes, nem sempre controlados pela ala política.

O Hamas agora pede a abertura do posto de fronteira de Rafah com o Egito e a libertação de prisioneiros recentemente capturados em ações policias israelenses.

O Hamas se encontra numa situação muito difícil há um par de anos. Desde 2012, quando o Egito era governado por um presidente da Irmandade Muçulmana (grupo radical islâmico que levou à criação do Hamas), a sorte do Hamas declinou acentuadamente. O atual regime no Cairo despreza a Irmandade e tem apenas um pouco mais de tolerância com seu rebento palestino. Por toda a região, a aparente ascensão de atores simpáticos à Irmandade Muçulmana, incluindo Catar e Turquia, parece ter se invertido agora. A Arábia Saudita e os países do Golfo (exceto o Catar) adotaram uma posição dura contra a Irmandade, em apoio ao novo regime no Cairo. Os militares egípcios empenharam-se em destruir a vasta rede de túneis que interligam Gaza ao Sinai, pelos quais eram transportados armas e produtos civis. O Hamas controla e cobra impostos nesses túneis, que lhe proporcionam uma importante fonte de receita.

Acuado pelo bloqueio naval de Gaza por Israel e pelo novo regime egípcio, o Hamas está sem dinheiro. Mesmo a formação recente do governo de união com o partido Fatah de Abbas não ajudou: o acordo proporcionou financiamento para funcionários da Autoridade Palestina em Gaza, mas não a empregados do Hamas, aos quais os bancos não transferiram temendo sanções israelenses.

Agentes do Hamas em Gaza podem ter procurado uma saída, sentindo que tinham pouco a perder. O mais provável é que o grupo tenha perdido o controle de seus próprios quadros.

Guerras indesejadas não são novidade. Essa rodada de violência ocorre contra o pano de fundo de quatro semanas brutais em que três adolescentes israelenses foram sequestrados por agentes do Hamas (o Hamas alegou que não ordenou os sequestros, mas elogiou a operação); uma operação israelense para recuperá-los que deixou vários palestinos mortos e detidos; o assassinato abominável de um adolescente palestino por extremistas judeus; e uma violência generalizada de menor intensidade entre palestinos e árabes israelenses em Jerusalém e na Cisjordânia. Alguns falaram no início de uma Terceira Intifada.

Nem Israel nem o Hamas têm muito a ganhar com os eventos, que só aumentam a tragédia. Deve haver alguma margem para um acordo envolvendo a passagem de Rafah, mas Israel e Egito provavelmente insistirão em que a Autoridade Palestina controle esse posto fronteiriço - como era o caso antes de o Hamas assumir o poder em 2007 - para evitar a continuação do contrabando. Seja como for, negociar semelhante acordo parece muito distante.

Dissuasão. Enquanto isso, cada lado está se empenhando em afirmar sua determinação e restaurar a dissuasão contra infrações e intervenções futuras. Mesmo que Israel faça uma incursão terrestre em Gaza é improvável que tente derrubar o regime do Hamas por temer o imenso custo de semelhante operação para a população local e para os soldados israelenses. Israel prefere um Hamas enfraquecido, dissuadido, mas funcional. Com os túneis do Sinai agora fechados, um ataque aos estoques de armas do Hamas tem alguma chance de durar mais tempo do que tentativas anteriores.

Mas mesmo que seus armamentos sejam reduzidos, a motivação do Hamas para mostrar "resistência" persistirá. Esta rodada de violência tem o potencial de reforçar a agitação - que havia diminuído - na Cisjordânia e em Jerusalém. Uma verdadeira Intifada, possivelmente combinada com ataques do Líbano e de outros lugares, faria esta rodada de violência parecer pequena em comparação.

Mas a falta de verdadeiros objetivos de ambos os lados neste confronto também oferece alguma esperança. Com pouco a ganhar, um cessar-fogo, se for alcançado, poderia se manter. Se o Hamas pudesse ser levado a parar de lançar seus foguetes, Israel provavelmente retribuiria. Mas sem uma mudança fundamental no regime em Gaza o ciclo lamentável desta guerra de desgaste provavelmente continuará. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É MEMBRO DO SABAN CENTER FOR MIDDLE EAST POLICY, DO BROOKINGS INSTITUTION

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